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Os desaires de McCain

Separe-se a diplomacia da Justiça

Parece que neste último mês e meio, e numa altura em que a candidatura republicana precisava, como de pão para a boca, de um fôlego suplementar que encurtasse a distância face à democrata, parece que não há nada que não aconteça a John McCain. Primeiro foi a eclosão da crise financeira. Depois foram os escândalos de Sarah Palin. No passado domingo foi a vez de Colin Powell, que chegou a ser Secretário de Estado de Bush – o primeiro negro a ocupar tão elevado cargo -, anunciar o seu apoio a Obama. Por fim, já na segunda-feira, veio a lume a revelação que o candidato poderá ter forjado a sua heróica biografia no capítulo da sua participação na guerra do Vietname. Mas vamos por partes. No último mês, a proeminência da economia sobre qualquer outro assunto tem-se revelado devastadora para John McCain, pouco dado a assuntos desta natureza. Senão vejamos: até ao estalar da crise financeira, as sondagens de opinião colocavam os dois candidatos praticamente empatados, observando-se uma ligeira vantagem de Obama.

 

Em algumas delas registava-se mesmo o chamado empate técnico, isto é, a distância entre os dois era tão escassa que nem sequer cobria a chamada margem de erro, característica destes de estudos de opinião. Face à proximidade dos números não se podia, de maneira nenhuma, revelar com o mínimo de segurança qual dos dois venceria. A experiência de McCain primeiro como deputado e depois como senador do Arizona durante 26 anos, o seu conhecimento da política externa e dos temas relacionados com a segurança nacional, a sua fama de lobo solitário enfrentando muitas vezes as decisões do próprio partido, a sua história como piloto da Marinha ou o seu épico cativeiro entre os vietcongues, compensavam as suas carências em relação Obama, tanto nos temas económicos como na inferioridade dialéctica.

 Mas chegou a crise e o povo americano, numa clássica atitude individualista, preocupado em salvar o posto de trabalho, preocupado com o pagamento das hipotecas e com o fechar da torneira dos créditos bancários, preocupado em pagar as prestações domésticas, relegou para segundo plano a segurança nacional, o Iraque, os talibans do Afeganistão, a intervenção russa na Geórgia, a Coreia do Norte, ou seja, tudo temas em que McCain, pelos seus vastos conhecimentos, levava vantagem. Com todas as atenções centradas na crise economico-financeira, Obama está como peixe na água, sobretudo quando culpa o partido republicano – o que evidentemente sobra para McCain – pelo actual estado de coisas. A escolha de Sarah Palin para a vice-presidência, se no início colheu simpatias e foi bem capitalizada, nas últimas semanas revelou-se nefasta, chegando mesmo a ser uma das razões apontadas pelo republicano Colin Powell para o seu voto em Obama. Primeiro estourou a bomba da gravidez da filha de 16 anos, sobretudo quando se sabe que a ex-governadora do Alasca é uma acérrima defensora dos princípios da família tradicional, conservadora. É caso para dizer que pela boca morre o peixe. Depois foi o escândalo de abuso de poder no caso do despedimento do ex-cunhado, Michael Wooten.

 No relatório de 263 páginas, Sarah foi considerada culpada por exercer fortes pressões sobre outros funcionários com vista ao despedimento de Wooten. Já esta semana, investigações efectuadas no Vietname, põem em causa algo até agora impoluto: o passado heróico de McCain. Primeiro revelando falta de solidariedade e humanidade para com o homem que o salvou do linchamento popular, após a queda do avião em que seguia. “Mesmo quando por aqui passou, trinta anos depois com uma delegação de políticos americanos, não nos veio visitar”, queixou-se a viúva. Depois veio a descredibilização das suas torturas “oficiais” pela voz do antigo responsável da prisão: “Entendo que para votarem nele têm de dizer que o torturámos, mas isso não corresponde à verdade.” Ninguém duvida que McCain passou cinco duros anos na prisão de Hanoi Hilton, como também passaram outros 300 prisioneiros americanos que nunca tentaram tirar dividendos disso. Alguns desses companheiros recordam-no mesmo como aquele que rompeu o código militar, cedendo à pressão dos algozes. “Conheço outros que estiveram nas mesmas condições e não cederam aos interrogatórios. Alguns pagaram mesmo com a vida. Para mim McCain não é nenhum herói”, confessou há pouco um companheiro de cela. Tudo isto somado faz com a distância entre os dois candidatos nas últimas sondagens se situe entre os 15% e os 8% sempre favorável a Obama. E, mais preocupante ainda, é o facto de McCain estar em desvantagem em Estados que outrora eram autênticos bastiões republicanos como a Florida, a Virgínia e o Colorado. Por tudo isto, só um terramoto político poderá evitar a eleição de Obama

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