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O tracoma é fatal para a vista

O tracoma é fatal para a vista

O tracoma, uma doença oftálmica altamente contagiosa, transmitida por moscas caseiras e falta de higiene, é negligenciado pela população, à semelhança do que acontece com as outras enfermidades, supostamente por falta de informação, pese embora seja uma das mais antigas patologias oculares conhecidas no mundo. Em casos mais graves, acompanhadas de sinais tais como fotofobia, dor e lacrimejamento, pode levar à cegueira. Trata-se de uma enfermidade causada por uma bactéria que origina lesões na membrana espessa e transparente do olho e na película mucosa que forra o globo do olho e o une às pálpebras.

A referida bactéria, denominada Chlamydia Trachomatis, possui um período de incubação de cinco a 12 dias, depois dos quais o indivíduo apresenta sintomas de conjuntivite ou irritação ocular. Outros sintomas incluem corrimento ocular, pálpebras inchadas, triquíase e inchaço dos nódulos linfáticos junto aos ouvidos.

Na região norte do país, a província de Niassa é considerada um dos principais focos desta doença, segundo os oftalmologistas. Porém, Nampula é tida como a zona onde a patologia se propaga facilmente devido à densidade populacional, estimada em mais de quatro milhões de habitantes, dos quais pelo menos 400 mil padecem tracoma.

Em 2013, no Niassa, onde se estima que mais de 32 porcento da população, mormente crianças de tenra idade e mulheres grávidas, sofrem de tracoma, foi lançada, nos distritos de Majune, Nipepe, Mavago, Marrupa, Mecula, Sanga, Lago, Metarica, Maúa e Majune, a primeira campanha de combate a esta doença. Aquela parcela do país foi, também, a primeira onde aconteceu o mapeamento da patologia.

Dados do Ministério da Saúde (MISAU) indicam que cerca de 300 mil pessoas, das cerca de 6,8 milhões que vivem nas províncias de Cabo Delgado, do Niassa e de Nampula padecem de cegueira relacionada com este tipo de doença. Refira-se que por causa dos índices elevados que o tracoma tende a atingir, o MISAU e uma organização não-governamental denominada Sightsavers construíram uma enfermaria especializada de oftalmologia, no Hospital Central de Nampula (HCN).

A prevenção desta doença pode ser feita através da observância rigorosa de hábitos adequados de higiene, como lavar o rosto das crianças com frequência, não compartilhar objectos de uso pessoal e boas condições sanitárias. Entretanto, existem pessoas que, por desleixo, simplesmente ignoram as campanhas de sensibilização com vista à prevenção do tracoma, o que faz com que o Estado despenda, anualmente, avultadas somas que serviriam para outros fins, realizando as mesmas campanhas.

Amadeu Marques, de 38 anos de idade, é apenas um exemplo negativo de um número considerável de indivíduos que padecem de tracoma, mas que podiam ter evitado esse sofrimento. Actualmente o cidadão luta contra uma possível cegueira em virtude de a enfermidade ter atingido um estágio alarmante.

No começo, a doença que apoquenta Amadeu Marque parecia passageira, porém, com o tempo agravou-se e passou a enfrentar dificuldades relacionadas com a visão para sair de casa devido à aversão aos raios solares. O seu estado clínico agravou-se e, para além de comichão nos olhos, estes passaram a ganhar uma cor avermelhada e incharam de tal sorte que lhe criaram desconforto.

Amadeu assume que foi negligente no diz respeito à saúde dos seus olhos, mas já é tarde para recuperar a visão. Aliás, ele confessou que no seu bairro o saneamento do meio ambiente é deplorável e as pessoas vivem em condições propensas à procriação de moscas que transportam a bactéria Chlamydia Trachomatis.

Na província de Nampula, as zonas recônditas são consideradas mais vulneráveis a esta doença. O distrito de Moma, por exemplo, é um dos lugares que apresentam as taxas mais altas em relação a outros pontos da capital da região norte de Moçambique.

Crianças vulneráveis

Sancho Manuel Chinide, chefe do Departamento de Oftalmologia no HCN, explicou que as comunidades, principalmente as que não adoptam um estilo de vida para evitar doenças tais como o tracoma, não têm o hábito de lavar o rosto das crianças com frequência; por isso, as moscas pousam nos olhos delas. Ainda há pessoas que deixam os petizes, principalmente com idades compreendidas entre zero e 10 anos de idade, durante o período manhã, sem cuidar da higiene facial, o que pode contribuir, sobremaneira, para a propagação do tracoma. A faixa etária referida pelo especialista é deveras propensa a atrair o referido insecto.

Apesar da difusão da informação sobre o perigo que esta patologia representa para a saúde humana, em 2013, em Nampula, apenas 20 pessoas procuraram os cuidados médicos por causa de problemas de vista. Desse grupo, pelo menos 15 indivíduos foram submetidos a cirurgia.

Como evitar o tracoma?

Segundo o oftalmologista do HCN, sempre que uma pessoa sentir comichão nos olhos, aversão ou horror à luz, olhos avermelhados e lesões, deitar sujidade ou sentir a sensação de que tem areia nos olhos, bem como dores na conjuntiva da pálpebra, deve dirigir-se urgentemente a uma unidade sanitária mais próxima.

Para Sancho Manuel, a forma mais fácil de evitar contrair a enfermidade é lavar a cara e manter todos os cantos da casa limpos. Aliás, as normas de prevenção são as mesmas que as da malária e cólera. “É preciso evitar-se viver próximo de locais onde há muito lixo, excrementos de animais ou de pessoas, devendo-se abrir latrinas e covas para se enterrar o lixo e isolar-se da mosca lambe-olhos”, aconselhou o nosso entrevistado.

A Direcção Provincial de Saúde (DPS) em Nampula pretende, brevemente, habilitar os técnicos de oftalmologia de conhecimentos que lhes permitam realizar cirurgias porta a porta nas comunidades com o intuito de erradicar a patologia, segundo Sancho Manuel.

No ano passado os distritos de Angoche, Murrupula, Lalaua, Ilha de Moçambique, Moma, Mecubúri, Mogincual, Meconta, Muecate Mogovolas, Mossuril, Nacarôa, Monapo e Nampula-Rapale e Nacarôa foram escolhidas aleatoriamente mais de mil casas, tendo as respectivas famílias servido para se aferir a taxa de prevalência do tracoma em Nampula.

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