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Pandza: o meu salário

No princípio, o meu salário hesitava, como um vulcão hesita a erupção, com aquele tímido mas imponente rugido. Estas hesitações salariais abalaram as placas tectónicas que me estruturam as finanças.

Com o salário assim, comecei a falhar nos timings das contas domésti cas, provocando violentas tempestades no humor na minha esposa. No final do mês, como tsunamis enfurecidos, facturas de prazos vencidos apareciam com multas que arrasavam o orçamento geral lá de casa.

Eu, um cidadão em vias de desenvolvimento, estava longe de erradicar a pobreza absoluta do meu agregado familiar mas, habituado a uma vida de carências, aguentava-me e sobrevivia aos adiamentos salariais.

Decretei sérias medidas de austeridade lá em casa e passei a empreender em pequenos emprésti mos para garantir a cesta básica atempada: tinha crédito na banca de legumes da vizinha, na mercearia de rua montada na esquina, e manti nha conta corrente na tasca do bairro.

Quando o salário começou a dar avisos mais sérios de mau tempo com a gravidade dos seus atrasos, perdi a capacidade de gerir as dívidas. Um dia, de repente, o salário não veio mais. Com o salário em estiagem, navegando em dívidas, sem parceiros económicos, nem FMI que me injectasse algum, naufraguei numa crise financeira.

Mudei de comportamento e passei a andar pelas sombras, pelos cantos, mudando cirurgicamente de trajecto, para evitar os pontos de dívida nos pequenos comerciantes da vizinhança. Aos credores que me visitassem a resposta era simples: “Papá não está”. Valeu-me fama de aldrabão.

Na tasca da esquina as dívidas espumavam e transbordavam os copos. O barman cancelou-me os créditos e os amigos (amigos?) das tardes, noites e madrugadas animadas, parti lhando por vezes o mesmo gargalo, afastaram-se como hienas interesseiras. O desequilíbrio nas finanças valeu-me a alcunha de crava. Tragédia: não tinha onde beber para afogar as dívidas.

Pior do que a minha dívida externa, eram a dívidas internas lá de casa. Por estas alturas já não era respeitado. Por insti nto de sobrevivência, as minhas filhas, adolescentes ainda, começaram a ter negociações com investidores estrangeiros, que lhes pagavam a escola e pizzas.

A minha esposa, que já me respondia alto e torto, arranjou no vizinho um saco azul. Quando por falta de pagamento cortaram a energia e quase cortaram água, foi o vizinho, com quem muitas vezes fora vista, quem regularizou as facturas.

Um dia, desesperado, deparei com uma oportunidade, aquela que faz o ladrão. Mas no meu caso foram as dificuldades que quase me fizeram ladrão.

Em desespero roubei um telemóvel e ti ve tratamento de ladrão. Enquanto uns me pontapeavam e outros assistiam sem pena, caí aos pés duma mulher de pouca idade. Era a minha filha de 14 anos. Endireitou os óculos escuros e, como se não me conhecesse, entrou para o carro do senhor que lhe melhorava o PIB per capita, fazia parte do rancho lá de casa.

Chefia da família em final de mandato, Demiti do do cargo de pai e de marido, senti -me despromovido da condição de homem. Naquela tarde, com os hematomas ainda frescos, olhos morti ços, recostei-me no balcão do bar, inclinando penosamente a cabeça sobre a palma da mão, e o braço apoiado no tampo.

Racionalizando o que me restava no copo de cerveja, até que uma alma caridosa me oferecesse outro, falava sozinho, nem os meus botões me queriam ouvir. Decidi: vou-me suicidar!

Àquela hora ninguém estava em casa. A única corda que tínhamos era a do estendal. Cortei-a e amarrei-a no candeeiro da sala. “Por vingança, vou-me suicidar aqui mesmo, no meio da sala” pensei.

Fiz na corda aquele nó de gravata, cachecol dos desesperados. Subi para a mesa de jantar, onde deixei um bilhete claro com o título bem visível: “Adeus”. Com o laço no pescoço, saltei da mesa.

Antes de sentir a forca estrangular-me, senti um baque doloroso. A corda rebentou. “Sou um falhado, nem suicidar-me consigo”, pensei. Naquele instante a minha mulher entrava na sala com o “coc!, coc!” do salto alto em que se emancipou, e um cesto de compras feitas provavelmente com o cartão de crédito do vizinho.

Olhou para mim, caído naquela posição caricata, com a corda no pescoço. Leu o bilhete suicida em cima da mesa, abanou a cabeça e com a boca torta disse: “Tsc!”, e foi para a cozinha.

Eu quis chorar, mas em vez de lágrimas tive um súbito ataque de risos, e comecei a rir-me da minha desgraça. No dia seguinte, o salário veio. Já era tarde, eu tinha decretado falência. Saí de casa, falava e ria com o vento. Até hoje moro na rua, e nunca mais parei de rir.

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