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O massacre de garimpeiros em Montepuez

O massacre de garimpeiros em Montepuez

As comunidades de Mucolotho, Muapeya, Nakala e Namujo, no posto administrativo de Namanhumbir, distrito de Montepuez, em Cabo Delgado, transformaram-se em campos de extermínio, onde jovens de diversas nacionalidades, cuja maioria é moçambicana, atraídos pela abundância dos recursos minerais, são assassinados impiedosamente pela Polícia. Os agentes justificam a sua atitude alegando terem recebido supostas ordens superiores para expulsar os nativos, uma medida que visa dar lugar à exploração de minérios pela Montepuez Ruby Mining.

Segundo Mohamed Ismael, de 44 anos de idade, residente na comunidade de Nzembia, além dos assassinatos que acontecem nas minas, os agentes da Polícia visitam algumas zonas residenciais para extorquir os comerciantes e, quando alguém se recusa a colaborar com eles, é morto com recurso a arma de fogo.

Trata-se de pessoas que se dedicam a actividades comerciais para o sustento das respectivas famílias, através de acções empreendedoras, e aproveitando-se das oportunidades de negócios desdobram- -se em trabalhos de geração de rendimentos. “Exigir que todas as pessoas, incluindo os naturais de Namanhumbir, se retirem das suas terras é uma injustiça que está a ser cometida pelo Estado para simplesmente alimentar os desejos empresariais de um punhado de pessoas”, disse o nosso entrevistado.

Um operador de mototáxi, identificado pelo nome de António Piquete, residente na comunidade de Nzembia, não entende porque é que há necessidade de se usar diversas forças governamentais para atormentar as famílias que já habitam aquelas terras há bastante tempo. O nosso interlocutor questiona: “Será que nascer numa região onde abundam os recursos minerais é sinónimo de viver num clima de sofrimento e pobreza para o resto da vida?”

Piquete defende a necessidade de as autoridades se preocuparem com os comerciantes que se dirigem a Namanhumbir para fomentarem a prática do garimpo ilegal sem observar as regras de segurança. “Os agentes da Polícia limitam-se a semear terror no seio dos residentes das localidades onde se extraem os recursos minerais. Na verdade, os cidadãos estrangeiros é que promovem a prática do garimpo ilegal, usando os nacionais como capa”, disse.

Noites sem sono

No período nocturno, a população que reside nas localidades de Mucolotho, Muapeya, Nakala e Namujo não tem sossego. Os moradores daquelas zonas residenciais passam as noites em vigília, devido ao ruído provocado pelo barulho das armas.

De acordo com a anciã Pia Mamo, residente na comunidade de Namujo, os agentes da Lei e Ordem, quando se apercebem da presença dos garimpeiros ilegais, disparam indiscriminadamente.

A nossa interlocutora garantiu ao @Verdade que não há registo de casos de morte originados por uma bala perdida, mas em cada dia que passa muitos jovens que praticam o garimpo ilegal morrem vítimas de baleamento, além da acção dos famosos “Nacatanas”.

A anciã lamentou o facto de ter ocorrido um incêndio, em Namujo, provocado por indivíduos desconhecidos, que causou a morte de um jovem cuja identidade não foi possível apurar, porque a família mudou de residência para a sede distrital. O incidente destruiu também cerca de 100 habitações.

Salve-se quem puder

Em Namanhumbir, as populações vivem num mar de incertezas, de tal modo que “quando anoitece não sabemos qual será a vítima”, afirmou Essimela Juma, um cidadão que desenvolve a sua actividade comercial há sensivelmente cinco anos.

De acordo com a experiência do nosso entrevistado, quando este começou a exercer o seu negócio naquela região, o mesmo era efectuado de forma livre e sem medo e, muito menos, intimidações. Contudo, depois de os gestores da empresa Montepuez Ruby Mining se terem apercebido de que os garimpeiros ilegais ganhavam dinheiro, através da extracção daquele minério, mobilizaram forças policiais e segurança privada para impedir o acesso aos campos.

Desde essa altura, disse Juma, semeou- se um clima de tensão caracterizado por medo e insegurança pública. Os estabelecimentos comerciais pertencentes a cidadãos nacionais e estrangeiros têm sido invadidos pelos agentes da corporação, que saqueiam e extorquem os negociantes.

Os operadores de mototáxi também não escapam a tais acções. Ao longo dos caminhos que dão acesso aos campos foram instaladas umas espécies de postos de controlo, onde os garimpeiros são obrigados a desembolsar cerca de 500 meticais como condição para se fazerem ao local de extracção de rubis.

Vida condicionada

Ângelo Fernando, de 30 anos de idade, é natural do posto administrativo de Namanhumbir. Há sensivelmente cinco anos ele dedica-se à prática do garimpo ilegal. Desde esse período, a actividade tornou-se a única fonte do seu sustento. Neste momento, o jovem está incapacitado de realizar trabalhos pesados em virtude de ter sido vítima de baleamento, em Maio do ano passado, protagonizado por um agente da Polícia da República de Moçambique (PRM), identificado pelo simples nome de Burro. “Nesse dia, eu estava a passear na minha motorizada. Não estava a sair das minas. Mas quando o senhor Burro me encontrou resolveu disparar contra mim, tendo atingido a minha perna direita”, recorda.

A vítima tentou, sem sucesso, apresentar o caso às autoridades. Primeiro, ele foi ao posto policial de Namanhumbir, depois deslocou-se até à sede do distrito de Montepuez e, finalmente, fez-se à cidade de Pemba. Porém, as respostas nunca foram satisfatórias.

O nosso interlocutor afirmou que a única ajuda que precisava das autoridades era assistência médica. Além disso, na capital provincial de Cabo Delgado, Ângelo disse ter sido ameaçado pela Polícia para desistir das diligências que tem vindo a tomar para resolver o caso.

Todas as despesas inerentes aos cuidados médicos foram custeadas por si mesmo, mercê do dinheiro amealhado durante o tempo que esteve a praticar o garimpo. Mas os enfermeiros do Hospital Provincial de Pemba não extraíram a bala do corpo por se tratar de uma situação que ultrapassa as suas capacidades, e o doente não tem condições para se deslocar à capital do país para o efeito.

Polícia ladrão

Além dos saques que os comerciantes têm sofrido, em plena luz do dia, nos seus estabelecimentos, há indivíduos de má-fé que arrombam as barracas e roubam os seus pertences. A situação começou a deixar desgastada a população até que, certo dia, esta interpelou um ladrão em flagrante delito a roubar numa loja de um cidadão estrangeiro.

A insensibilidade das autoridades policiais quando a população denuncia casos do género fez com que os populares decidissem fazer a justiça pelas suas próprias mãos, facto que culminou com a morte do indiciado por espancamento.

Mais tarde, quando alguns agentes da Lei e Ordem se aperceberam do sucedido, ficou-se a saber que o suposto gatuno, ora falecido, era um membro da corporação porque, além da identificação, o meliante levava consigo uma arma de fogo.

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