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“Nós somos órfãos culturais neste país”

“Nós somos órfãos culturais neste país”

Gilberto Mendes afirmou que os artistas moçambicanos vivem numa situação de orfandade cultural devido ao secretismo – na divulgação e aplicação da legislação cultural –, existente no país, que concorre para a precariedade da sua condição social.

O artista que falava no âmbito dos debates promovidos pelo Festival Encontrarte, recentemente terminado, considera que há uma necessidade de se edificar uma sociedade cultural aberta a fim de se conduzir o país a uma revolução cultural.

Uma forma de estruturar esse desejo, de lhe conferir uma dimensão existencial actuante, é a criação “da Confederação das Associações Culturais de Moçambique, uma organização similar à CTA para a área cultural”.

O actor que culpa o secretismo – com base no qual se constrói a nossa sociedade – de estar a contribuir para a miserável condição dos artistas, afirma, seguramente, que “só assim é que eles poderão começar a ouvir-nos cada vez mais. O problema é que nós vivemos numa sociedade em que tudo é secreto”.

Para demonstrar que em Moçambique tudo se esconde de todos, Gilberto Mendes perguntou se, excluindo Chude Mondlane, alguém dos presentes já tinha ouvido a voz de Eduardo Mondlane. Apenas três pessoas é que responderam favoravelmente.

“Será que é tão secreto que se oiça a voz de Eduardo Mondlane? O problema é que essa situação se espalha em todos os sectores. Nós vivemos num país em que quase tudo é proibido”.

É em função desta realidade que o director do Cine Teatro Gilberto Mendes conclui que “nós, os artistas moçambicanos, somos órfãos culturais. Praticamos as actividades culturais ao deus-dará porque já não temos pai”.

Um contra-senso

Ao actor não faltam argumentos. Por exemplo, “as pessoas que criaram a Companhia Nacional de Canto e Dança, os mesmos que vêm da gesta da luta de libertação nacional, já não existem ou não já têm palavra na referida colectividade. Por isso, hoje, essa colectividade cultural foi substituída pela CTA”.

Gilberto Mendes recorda-se de que nos primeiros anos da independência nacional, “sempre que viajasse para o estrangeiro, o Presidente Samora Machel levava consigo a Companhia Nacional de Canto e Dança, a fim de mostrar ao mundo os seus artistas e, por essa via, a nossa identidade cultural, criando bases para a cooperação entre ambos os Estados”.

É que nos dias actuais, “o Presidente Armando Emílio Guebuza apenas viaja com os empresários da CTA, exibindo-os como se fossem aquilo que culturalmente nos identifica. Essa prática reiterada influencia também as nossas manifestações culturais. O nyau, por exemplo, é uma manifestação artístico-cultural secreta”.

Gilberto Mendes céptico quanto ao que seria dos artistas moçambicanos se não existissem instituições internacionais a operar, no campo cultural, em Moçambique.

Uma história necessária

A Cooperação Italiana criou o projecto Cinema Arena, vocacionado para a luta contra a SIDA e na promoção da saúde sexual e reprodutiva. “No âmbito do mesmo, nós, os artistas, percorremos os distritos e ensinámos as pessoas a usar o preservativo para se prevenirem de doenças e de gravidezes indesejadas. Trabalhámos com o cinema – que é uma forma fácil de captar a atenção humana”.

“Conversávamos com as pessoas, que eram filmadas, e na primeira noite montámos um grande ecrã em que se transmitiam as entrevistas que se havia feito. No distrito, onde o sinal da televisão não chega, essa experiência teve grande impacto”. Aparentemente, sem nenhum precedente, o chefe da aldeia e a comunidade local estavam a ser vistos no ecrã. Como é que eles entraram naquela máquina? Essa é que era a grande curiosidade entre os presentes.

De acordo com Gilberto Mendes, as pessoas diziam que se estava diante do feitiço dos brancos, referindo-se ao cinema. Então, “nós captámos a sua atenção através da projecção de filmes e depois fazíamos o teatro. Éramos sempre seguidos porque as pessoas queriam aparecer na televisão na noite seguinte”.

Imbróglio em Tete

Na província de Tete, como explica Mendes, os artistas filmaram secretamente um ensaio da dança nyau, a par do qual se projectou um filme de Charlot dublado para a língua nyau. “Quando a personagem começou a falar nesse idioma, geraram-se murmúrios. Como é que esse branco fala a nossa língua? O filme continuou e as pessoas – que compreendiam a mensagem – comentavam”.

“Diante da projecção da dança nyau, que eles mesmos praticam, abandonaram o espaço. Depois veio um mafumo – que é uma espécie de chefe tradicional – e perguntou-nos onde é que se havia encontrado as imagens. Explicou que era proibido projectá-las e que, pelo facto, devíamos pagar uma multa. E não devíamos fazer aquilo sob pena de encontrarmos a morte por espancamento”.

Segundo Mendes, essa experiência revela o grande secretismo que há em volta do nyau. Mas o pior é que “aquilo que torna esta dança especial pode ser um entrave para o seu desenvolvimento e o da tradição. É que se dá mais incentivos a quem domina o baile do que quem vai à escola”. Por isso, “desde os seus primeiros anos, os miúdos priorizam a aprendizagem do nyau do que o ensino”.

Há, nesse sentido, algumas práticas na nossa sociedade que, nos dias actuais, temos de quebrar. “O problema é que se as quebrarmos, teremos problemas com a tradição. Ficamos com este problema sobre o valor das coisas. O que é mais importante entre a manutenção da tradição e o desenvolvimento?”

A lei não funciona

Recuperando o tema do secretismo, Gilberto Mendes critica o facto de “nós vivermos num país em que se promovem mais as leis punitivas, em detrimento das que beneficiam o cidadão”.

“Temos uma Lei do Mecenato que não é divulgada como se divulgam as mensagens para se votar num determinado candidato à Presidência da República ou de um município. Sinto que caso seja aplicada como está elaborada, a Lei do Mecenato pode beneficiar todos os públicos de interesse na produção artística. Mas não interessa a ninguém que ela seja divulgada, porque a situação social do artista iria melhorar muito”.

De acordo com Mendes, a Gungu TV, a sua estação televisiva, edificada com base na aplicação da Lei do Mecenato prova a sua funcionalidade.

“Foi utilizando a Lei do Mecenato que a nossa companhia de teatro acabou por evoluir até o nível actual, em que temos uma estação de televisão. Ora, se nós conseguimos usar esta Lei, porque é que os outros não conseguem? O problema é que ela não é divulgada”.

“É por essa razão que quando nós nos aproximamos do Ministério das Finanças, para viabilizar a Lei, eles dizem-nos: ‘Ó Gilberto, a gente vai deixar isso passar só porque se trata de vocês. Mas não divulguem. Porque se divulgarem, todos os artistas virão. E como são muitos, nós não teremos dinheiro para todos’”.

Mas as coisas não podem ser feitas desta forma. “Há mecanismos próprios para que os fazedores das artes e cultura – sem transgredir nada, porque está tudo legislado – irem buscar o financiamento para as suas actividades. O problema é que o secretismo, mais uma vez, impede que a nossa sociedade evolua. Então, mais uma vez, somos órfãos e somos atirados para o segundo plano”.

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