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No Chamanculo superando dores

Gabriel Chiau está doente!

A dor nunca se esquece, supera-se, dizia isso uma vez Oprah Winfrey, dirigindo-se a Mike Tyson, que passava a vida a chorar quando se lembrasse da filha, que morreu ainda nos primeiros degraus da vida. E eu repeti essas palavras da Oprah, num dia desses, em casa de Gabriel Chiau, quando me dizia assim: “Eu sofro muito quando olho para o meu Chamanculo e sinto que já não é o mesmo”.

Na verdade, o bairro do Chamanculo, nos arredores da cidade de Maputo, já não será o mesmo dos tempos em que você podia ser esfaqueado num daqueles becos execráveis pelos “mabandidos”, sem que a Polícia se preocupasse com o assassino.

Aliás, se Gabriel Chiau já não é o mesmo de ontem, como é que ele quer que o bairro onde habita desde que nasceu seja o mesmo? Mas há uma coisa que reconforta o espírito deste músico que de repente pode misturar o khwela com a marrabenta e saltar depois para o violão, pendurar-se, com entusiasmo, no trompete e libertar depois a laringe com a guturalidade de uma voz que você não vai precisar de perguntar de quem é: a música!

E não será apenas por causa da música que fomos à casa de Chiau, numa manhã de quinta-feira, porque este homem vai para além disso. Queríamos conversar sem regra, escutar, sobretudo. Rever uma casa de madeira e zinco onde ele mora, para nos lembrarmos, sem que alguma vez tivéssemos estado lá, do bairro onde vivia o mítico Duke Ellington, antes de os negros serem ostracizados pelo dinheiro nos arredores de Nova York.

Sim, se no Chamanculo não tivesse nascido e morasse Gabriel Chiau, provavelmente não nos lembrássemos desse monstro do jazz norte-americano. Ou seja, este bairro seria como tantos outros que andam por Maputo e pelo mundo, pobres e sombrios. Mas está lá esse vulto, que não pode ser contornado: ou vais ao seu encontro para te acolher, ou vais contra ele para derrubá-lo, o que é muito pouco provável porque na Bíblia está escrito… e nenhum apocalipse te vai abater.

Se fosse para abater Chiau, a primeira pessoa a fazê-lo seria a Dulce e Aurélio Lebom, que fizeram um périplo pela Europa e gravaram, entre muitos temas, a música Wena unga yali, da autoria deste músico, “e depois vieram – o Lebom e o Wazimbo – fintar-me dizendo que estava tudo a ser tratado para eu ser pago. Já passam muitos anos e eu ainda não vi nem um chavo dessa minha música que fez parte do sucesso do Marrabenta Moçambique de Auélio Lebom”.

Esta é uma das feridas de Chiau que, mesmo assim, o tempo está a encarregar-se de esbater. “Quando soube desse plágio de muito baixo nível em termos éticos, cheguei a colocar a possibilidade de deixar de gravar porque, para além de não ganhar nada com os meus trabalhos, são os outros a tirarem proveito disso. E pior que tudo, naquele tempo eu não tinha onde ir queixar. É muito frustrante”.

Personagem presente

Só os iluminados é que vão perceber a grandeza de Gabriel Chiau e, um músico da sua dimensão, não pode ser medido pelo número dos discos que gravou, mas pela perfuração do seu trabalho. Pela capacidade de se manter na linha férrea sem ser trucidado, ou melhor, pela sua capacidade de estar permanentemente a trucidar os cépticos.

E são poucos os que percebem isso, como o Standard Bank, que ofereceu uma aparelhagem completa ao Gabriel Chiau, aquando do seu aniversário natalício, em 2010: fazia 70 anos.

Este equipamento funcionou como uma mola de impulsão espiritual para Gabriel Chiau, susceptível de oscilações de espírito como qualquer mortal. Sacudiu aquele corpo que não será propriamente pequeno, levantou os braços do coração e gritou para dentro da alma: “Aí vou eu”.

A HelpAge movimentou-se também no circuito de Gabriel Chiau e elegeu-o como embaixador dos idosos moçambicanos. “Se me escolheram como embaixador dos idosos, não terá sido por acaso, alguma coisa viram. Com certeza que tenho algum valor, e isso enche-me de contentamento”.

Se os males nunca vêm só, os bens também não vêm só. Quer dizer, no dia em que Chiau era escolhido como embaixador dos idosos, a Rádio Moçambique abre-lhe as portas para gravar um álbum.

“Esta oportunidade que a RM me dá provoca em mim um sentimento indescritível. É algo maior”. E Chiau nunca achou este momento tardio.

“Só os pequenos é que podem considerar tardio este momento em que entro em estúdio para gravar o meu álbum, pois todas as outras gravações foram feitas em single. Um artista não tem tempo. Para o artista não tem cedo, não tem tarde. Este é que é o meu tempo, para gáudio da minha família, daqueles que me amam e dos que se entusiasmam com o meu trabalho. Muito obrigado”.

Chiau, neste trabalho discográfico, vai incorporar temas nunca registados em disco, e outros muito conhecidos e gravados, como sejam Wena unga Yali, Nkata uya kwini, Mpfilumpfilu, A ku Thlelela ka wu tsongwana, A wu ni tenderi, e Xipalapala.

Felizes os demónios

Já estão felizes os espíritos de Gabriel Chiau. Com certeza! “Estamos – eu e a minha banda – a fazer os últimos preparativos para entrarmos em estúdio e queria agradecer à Rádio Moçambique e em particular ao Domingos Macamo, que se tem mostrado bastante empenhado neste projecto que assume como dele também”.

Pois é: e se nos dissessem hoje que há uma proposta para que uma das ruas de Chamanculo levasse o nome de Gabriel Chiau, não nos espantaríamos. Ninguém se espantaria. Por tudo aquilo que este homem que se tornou personagem fez. Tem feito. “Ainda entrego a minha alma ao trabalho. Tenho mais de 70 anos. Já me doem as costelas e todas as articulações, mas eu estou pouco me lixando para essas dores. A terapia para tudo isso é a música que faço.

Casa de animais

Ele próprio é um chacal, que vive na selva da música. E se os chacais têm um faro extraordinariamente apurado, Chiau tem- -no a dobrar, porque um homem que toca violão, guitarra, bateria, trompete e canta, só pode ser um chacal.

No quintal de Gabriel Chiau paira um cheiro de aves e de macacos e de cobaias. “Gosto de criar estes animais, em particular os macacos, que me oferecem um espectáculo de exaltação à criatividade quando estou cheio de nervos que a vida, às vezes, me dá de presente. Criar animais é amar a natureza e eu amo a natureza, porque eu próprio sou um animal, mas de outra estirpe, naturalmente!”.

É uma casa velha, onde vive este músico, respeitado em todo o lado por onde passa: na rua, nos clubes noturnos, nos casamentos, nos becos de Chamanculo, porque o seu cheiro é muito forte. Não podes deixar de senti-lo. Ele vive no seu recanto limpo, com mobiliário antigo que resiste, pelos cuidados que recebe, ao tempo. Exala a tranquilidade na casa de Chiau. “Sou um homem sereno e se você me vê chateado, é porque você me chateou mesmo”.

Sim, senhor: quando se está com Gabriel Chiau é melhor não fazer perguntas. Escuta tudo o que ele te disser, contempla tudo o que o circunda e depois vai-te embora. Quando chegares à casa dirás: estive em casa de um monstro, com um monstro!

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