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Nazir Salé: “Temos de renovar a nossa selecção”

Nazir Salé: “Temos de renovar a nossa selecção”

Depois da conquista da medalha de prata e do apuramento para o Campeonato Mundial de Basquetebol sénior feminino, Nazir Salé faz um balanço positivo do “Afrobasket” de Maputo e fala dos desafios desta modalidade no país.

Para o técnico da selecção nacional, Nazir Salé, em entrevista ao @Verdade, mais do que falar da brilhante participação das “Samurais” no “Afrobasket”sénior feminino que decorreu entre os dias 20 e 29 de Setembro últimos na capital moçambicana, Maputo, há que se pensar de hoje em diante no futuro, ou seja, nos objectivos que o país leva para o “Mundial”. O técnico não quer ir à Turquia “fazer figura”. Quer, sim, competir e representar condignamente o continente africano. Do “Afrobasket” de Maputo Salé revelou ter saído bastante feliz e regozijado pelo espírito combativo das suas jogadoras, a quem apelida de “Samurais”.

@V – Que avaliação técnica faz do Afrobasket sénior feminino de Maputo?

Nazir Salé – Foi um campeonato muito longo, ainda que tenhamos jogado em casa e a contar com o forte apoio do público. Na primeira fase tivemos mais dificuldades em vencer as equipas adversárias em virtude de não termos jogado contra o Zimbabwe no primeiro dia, o que nos obrigou a fazer cinco jogos seguidos e sem nenhum descanso. Apesar de o calendário nos ter colocado diante da Nigéria, uma equipa teoricamente fraca olhando para a posição que assumiu no grupo B, o dia de descontracção que tivemos, à entrada dos quartos-de-final, serviu para potenciar e colocar todos os conjuntos em igualdade de circunstâncias.

Sofremos bastante para ultrapassar a Nigéria, mas não tanto como em relação aos Camarões, que para nós foi uma verdadeira final em função dos objectivos que definimos para esta competição: a qualificação para o “Mundial”. Nesta partida vingaram a dinâmica, a atitude, a perseverança e o carácter das minhas jogadoras, o que lhes levou a acreditar e a lutar até o fim. As minhas jogadoras provaram ao mundo que são autênticas “Samurais”.

@V – Teríamos relaxado no jogo da final por termos garantido a qualificação para o “Mundial”?

NS – Não posso afirmar que tivemos problemas físicos pelo calendário que foi remodelado. Esta equipa podia aguentar um pouco mais. Mas tenho a lamentar a indisponibilidade de várias jogadoras que excederam o número de faltas permitidas num jogo. Muito cedo ficámos sem opções no plantel e por isso jogámos reduzidos. No último período não teríamos como mostrar o nosso poderio, quanto mais no prolongamento que até conseguimos forçar.

Conseguimos manter a nossa frieza, corremos atrás do resultado, estivemos em vantagem e fomos ao prolongamento. Fomos combativos, mas infelizes diante de um adversário robusto. Podíamos ter feito muito mais na final sobretudo porque jogávamos em casa. Mas é preciso esclarecer que nós atingimos o objectivo que havíamos traçado para esta prova: o apuramento para o “Mundial”. Perdemos o ouro mas de cabeça erguida. Há que dar os parabéns às minhas jogadoras pelo esforço que as levou à final da prova, bem como ao “Mundial”. O nosso trabalho foi espectacular.

@V – Vai ao “Mundial” ao lado daquela que é considerada a melhor geração de basquetebolistas do continente africano. Qual é o sentimento que tem?

NS – Como dois países irmãos confesso que estou orgulhoso por saber que Angola e Moçambique vão representar o continente africano no Campeonato do Mundo. Estamos cientes de que vamos para um campeonato que está fora do nosso alcance teoricamente. Sabemos que o nosso basquetebol é, de longe, inferior em comparação com o de outros países. Mas nós não iremos baixar os braços. Pelo contrário, a mesma garra que tivemos aqui vamos manter ou tentar potenciá-la para que possamos representar condignamente o nosso continente. Vamos enfrentar cada adversário com uma certa prudência.

@V – Estamos no “Mundial”. O que tem de ser feito para que, como afirma, se possa representar condignamente o continente africano e o país em particular?

NS – A partir de já nós temos de pensar no nosso futuro e nessa competição que nos aguarda de modo a termos uma prestação brilhante diante das melhores selecções internacionais. Eu parto do princípio de que é conveniente e nem é impossível renovar a selecção. Tem de se fazer um trabalho bastante alargado e seriamente virado para os escalões de formação. Temos de ser mais agressivos na descoberta de novos talentos e na qualidade das jogadoras. Somos forçados a introduzir sangue novo na equipa, mas com uma certa prudência para manter a nossa hegemonia como país.

@V – Olhando internamente para o nosso basquetebol, o que tem de mudar sabido que somos uma potência a nível de África?

NS – Eu acho que temos de olhar muito mais para as camadas de formação. Por outro lado temos de ajustar a nossa calendarização em função daquilo que é benéfico para o nosso país. Se nós olharmos para os trabalhos de preparação de outras selecções mundiais para provas do género, iremos notar que os mesmos decorrem num período de defeso. Em Moçambique é o contrário.

Nós temos de sacrificar os clubes num período em que estão a decorrer as competições internas; queremos ter as jogadoras num alto nível; temos de colocar as atletas a render mais do que nos respectivos clubes; e temos de colocar as jogadoras a trabalhar arduamente para atingirem um grau inexistente nos seus emblemas internos. Não faz sentido que as nossas provas decorram numa altura em que os outros países estão no “descanso”. Isto é prejudicial para nós e acho que, de uma vez por todas, é um imperativo mudar o nosso calendário. Este “Afrobasket” serviu como prova de que nós podemos chegar mais longe se fizermos devidamente o trabalho de casa.

@V – De quanto tempo uma selecção precisa para se preparar para uma competição internacional?

NS – Vamos partir do princípio de que as grandes provas internacionais decorrem sempre, ou quase, entre os meses de Agosto e Setembro. Seria oportuno e estratégico, até porque é o que os outros fazem, as selecções nacionais disporem de quatro meses para a preparação e participação nessas competições, isto depois de as jogadoras terem ganho ritmo competitivo nos respectivos clubes.

@V – Se no “Afrobasket” de Maputo o nosso objectivo era o apuramento, qual é a meta que levamos para o “Mundial”?

NS – Temos de ter os pés bem assentes no chão. O apuramento não nos pode envaidecer. Ainda temos quase um ano para trabalhar devidamente. Eu disse duas coisas anteriormente: a primeira é que temos de renovar a selecção para aquela prova, naturalmente indo atrás de jogadoras talentosas e com alguma qualidade. A segunda é que nós vamos para uma competição séria onde iremos ombrear com as melhores escolas de basquetebol do mundo. É preciso termos prudência e trabalhar como deve ser. Mas que fique claro que é nossa vontade orgulhar o país e o continente africano.

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