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“Não podíamos sair para o mar, as crianças não iam à escola e, para agravar a situação, não tínhamos o que comer” pescadora em Morrumbene

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O Distrito costeiro de Morrumbene foi uma das regiões da Província de Inhambane onde o novo coronavírus só chegou na 3ª vaga, contudo desde Abril de 2020 tem sido obrigado a cumprir as penosas medidas de prevenção da pandemia sem nenhum apoio governamental. “Não podíamos sair para o mar, as crianças não iam à escola e, para agravar a situação, não tínhamos o que comer”, recorda a anciã pescadora Joana Mapengo.

Quase 1 ano da pandemia respiratória decorreu em Moçambique até o Distrito de Morrumbene registar o centésimo caso positivo. Depois os doentes começaram a aumentar, duplicaram, triplicaram até atingir um cumulativo de 392 infectados. Hoje não há casos activos. Talvez por isso o vendedores do mercado central tenham abandonado as bancas, deixando-as entregues ao vazio, preferindo a estrada, onde colocam as suas vidas em perigo. Mas a luta pela vida tem essa prerrogativa de empurrar o Homem aos riscos.

Não precisamos de perguntar ao fiscal, porque é que as pessoas não estão nos seus devidos lugares, seria uma pergunta inconsequente. Também escusamo-nos de questionar sobre o facto de muita gente que está na rua a vender, não usar máscara para se proteger da covid-19, seria supérfluo. Uns dizem que “estamos cansados”, outros simplesmente encolhem os ombros, num gesto onde pode estar implícita a convicção de que “isto já passou”. O que pode não ser verdade.

A estrada principal da vila de Murrombene é um corredor activo. Todo o tráfego rodoviário que demanda as províncias do norte e sul de Moçambique, passa igualmente por aqui, à semelhança de todos os povoados localizados na Estrada Nacional nº1. Os vendedores sabem o que esse movimento de carros representa, porém a vida é urgente. “Se não viermos para a estrada, morremos de fome, e se viermos, corremos o risco de ser mortos pelos carros”. E os cuidados a ter para se evitar o contágio com o coronavirus, é outra conversa. Aparentemente ninguém está preocupado com a máscara. Muito menos em lavar as mãos.

A Polícia parece estar cansada, como toda a gente. Se você passa em frente às autoridades sem usar a máscara, não é interpelado, eles também não usam. Os fiscais do mercado igualmente andam “desmascarados”, e se agem desta forma, significa que todo o resto cá em baixo, vai seguir o mesmo caminho. O importante para eles, é que se venda alguma coisa para se levar pão à mesa. A covid-19 fica para depois.

Sara é vendedora de alho na vila de Murrombene. Já vacinou. Está na rua e não usa máscara. Conhece os perigos da sua negligência, mesmo assim está-se “nas tintas”. “Estamos cansados, papá! Com este calor todo é para vivermos como, com máscara?”. São estas as únicas palavras que ouvimos desta mulher que está na rua, entregue a todos os perigos que os carros que passam por aqui, criam diariamente.

“A pandemia veio mudar completamente as nossas vidas”

De resto a vida vai retomando aos carris. Numa vila que tem o mar aqui perto. Um mar que já não é tão generoso como fora outrora. Esta terra tinha como base de alimentação o marisco, que era levado, por haver em excesso, para o interior, onde era trocado com produtos agrícolas. Agora tudo mudou. Ou seja, o marisco perdeu a sua capacidade de troca, por não haver, ou por haver pouco. Do campo também não vem a comida, ou vem em pequenas quantidades, para gáudio do diabo. Que trouxe a covid-19 para piorar as coisas.

Joana vive perto do mar, do qual busca a sobrevivência. Quando o tempo ajuda, ela própria, na companhia da neta, pega na pequena rede e vai à pesca de camarão. “Não sai nada, pior agora que impuseram a veda. É muito difícil viver assim porque tenho crianças para sustentar”.

Na verdade a vida está cada vez mais difícil, com grande incerteza quanto ao futuro. Por exemplo, no pico da pandemia, a família da Joana experimentou momentos dolorosos. “Não podíamos sair de casa, as crianças não iam à escola e, para agravar a situação, não tínhamos o que comer”. Mesmo assim, esta mulher idosa, não perdeu a esperança, “é por isso que continuo a ir à pesca. Não posso cruzar os braços, vou fazendo o que posso, para o bem das minhas netas”.

Outra mulher por nós visitada, é Evelina, jovem mãe de dois filhos, um a trabalhar, outro ainda sob seus cuidados. “A pandemia veio mudar completamente as nossas vidas, mas graças a Deus as coisas estão a mudar. O que está a acontecer, ultimamente, anima-nos, parece que a COVID está a passar”.

Evelina e seus filhos foram vacinados. Ela faz um apelo a todas as mães, “vamos nos cuidar e proteger as nossas crianças. Todo o cuidado é pouco, sobretudo nas escolas, pois os alunos voltaram à aulas”.

“Dizia-se que a vacina é nociva”

O distrito de Murromebe tinha como meta, vacinar 37.987 pessoas, a poucos dias do término da campanha foram imunizados 81.5 por cento dos grupos pré-definidos com o crucial apoio dos líderes comunitários. “No interior do distrito havia uma grande desinformação. Dizia-se que a vacina é nociva. Que as pessoas morreriam dentro de dois anos após serem inoculadas”, disse o director clínico do Hospital Distrital, Nelson José Manuel.

O @Verdade visitou os postos de vacinação, deparamo-nos com um cenário de pouco movimento. À primeira vista pode parecer que as pessoas não aderem, mas na verdade é o contrário. De acordo com a agente da saúde do posto instalado no jardim público de Murrombene, “as pessoas vieram em massa nos primeiros dias, depois foi aparecendo um por um, até hoje que passamos um dia inteiro sem muito trabalho. Houve aderência”.

Há uma satisfação generalizada por parte dos trabalhadores da Saúde, pois segundo eles, “existe uma consciência na população. Muitos agora percebem que vacinar é um acto de cidadania, por isso vieram em avalanche. Fica subjacente, depois deste trabalho, que aqueles que foram imunizados, estão agora mais à vontade. Compreendem a importância da vacina e sabem também que não devem negligenciar as recomendações sanitárias, apesar de terem passado por este processo”.

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