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Não há gás, mas o preço do carvão não subiu

Em 2006, a PETROMOC prometeu uma refinaria. Volvidos cinco anos, não há refinaria e o país atravessa novamente uma “crise de gás” doméstico. Há promessas de que a 15 de Novembro a situação mude para melhor…

@Verdade andou em tempo de ronda pelos postos de venda de gás de cozinha. Viu, ouviu e indagou.

Nem uma só pessoa conseguiu comprar gás pelo preço normal nos últimos dias. Quando haverá afinal disponibilidade do produto? De resto, esta pergunta, mal sonante, está a esconder muita coisa.

Se é verdade que este produto tem de vir da África do Sul, não é menos verdade que hoje, volvidos cinco anos, a refinaria da Empresa Petróleos de Moçambique (PETROMOC) já devia estar a funcionar em pleno.

Efectivamente, tal empreendimento, segundo Francisco Casimiro, administrador-delegado da PETROMOC, levaria 20 meses a concretizar, para o qual o Estado Moçambicano teria investido 16 milhões de euros para a montagem de duas refinarias, uma de gás doméstico e outra de petróleo de iluminação.

Esta hipótese, diga-se, foi avançada em 2006 após uma crise com contornos semelhantes aos actuais. Ou seja, faltou gás e o horizonte tratou de esboçar uma refinaria. Mas o tempo, dono e senhor da razão, levou-nos à situação actual: sem refinaria e sem gás.

Especulação

Longe ainda e já o célere odor da velha e anacrónica Baixa da Cidade nos fala dos preços exorbitantes da botija de gáse da revolta que efectivamente haveríamos de encontrar nos depoimentos daqueles que amavelmente quiseram referir- se-lhes.

Há gente por todo o lado. Deparámos também com algumas donas de casa (mas estas alheias ao drama das senhoras que procuram gás doméstico) em demanda de carvão que lhes sirva para confeccionar o almoço.

Uma e outra vez uma palavra mais ríspida, solta quando não se encontra o gás desejado ou quando o preço da botija subiu mais do que as economias podem comprar… Por mais espantado que o leitor fique, a verdade é que estas palavras – e aliás perfeitamente compreensíveis – são proferidas por senhoras que sempre cozinharam com gás.

Como que escapam, sem querer, e lembram, ali, um grande cartaz onde ficam inscritos os sentimentos de revolta contra um estado de coisas que não pode nem se deve prolongar por mais tempo.

Motivo: nos postos de venda não se encontra o rasto do famigerado gás de cozinha. Ainda assim, há quem consiga adquirir uma botija por mil e duzentos meticais nos retalhistas. Na verdade, o gás doméstico, o mesmo que alguns consumidores interpelados pelo jornal ainda não viram nas bombas de combustível e nas mercearias, é vendido nos prédios e em alguns mercados por não menos do que 1000 meticais.

O preço do carvão

@Verdade andou pelos principais mercados da cidade de Maputo e verificou que o preço do carvão se mantém inalterado. No Janete, por exemplo, há carvão ao preço de 5, 10, 30 e 50 meticais. O saco, esse, custa 700 meticais. No Xipamanine encontrámos os mesmos preços para as pequenas quantidades. O saco é cinquenta meticais mais barato.

Contudo, à medida que nos afastamos do centro da cidade o custo do carvão baixa relativamente. Por outro lado, a sensação da falta de gás é maior no centro da cidade. Na periferia de Maputo, pessoas há que nem se aperceberam de que falta gás de cozinha.

Rute Silvestre é um exemplo disso. Vive no bairro Luís Cabral e nunca usou gás para confeccionar alimentos. Por isso, “não me faz falta desde que haja carvão”. Teodora Fumo é outra senhora que vive do carvão vegetal e desde que a crise do gás assola Maputo a anciã de 56 anos, natural de Gaza, continua a comprar carvão nos mesmos moldes.

“Uma lata de 25 meticais é suficiente para todas as refeições (na verdade é uma refeição). Também não tenho como comprar o saco. 650 é muito dinheiro, com esse valor compro um saco de arroz”.

Na verdade, a equação de Teodora é simples. Compra o carvão cedo, mas só cozinha no final do dia. É que, se nas manhãs consegue comprar uma lata de 25 meticais, o resto do dia serve para vender tomate, cebola e alface. Da receita desse negócio é extraído o valor para o carvão e para o jantar.

O que diz a IMOPETRO

Em comunicado distribuído nesta terça-feira, a Importadora Moçambicana de Petróleos (IMOPETRO) refere que esta semana o país vai importar apenas 200 toneladas de LPG, o gás usado para cozinha, contra 6400 toneladas que normalmente importa por semana, devido à suspensão do fornecimento da Engen.

“A refinaria da Engen, de onde é importado o gás que abastece o mercado moçambicano, vai retomar a sua produção apenas a 30 de Novembro e as outras três refinarias da companhia que produzem o LPG também reduziram a produção”, refere a nota da IMOPETRO.

A impossibilidade temporária do fornecimento de gás da Engen levou a IMOPETRO a comprar gás da Malásia, mas “devido a questões de segurança operacional” o mesmo só chegará a Moçambique entre 10 e 15 de Novembro próximo, adianta a nota de imprensa.

O plano de o gás importado da Malásia entrar pelo porto de Maputo foi descartado, porque não existe um gasoduto no Porto de Maputo pelo que o gás será descarregado em Port Elisabeth, na África do Sul.

Moçambique tem enormes reservas de gás natural em exploração e outras ainda na fase de prospecção, mas ainda não pode aproveitar esse recurso para consumo interno por falta de refinarias e gasodutos.

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