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Kerygma: Mulher-Poema

Eu gosto de andar à toa pelas ruas da cidade de Maputo. Alguns dos enfermos mentais, muitos dos quais permanecem nos semáforos, conhecem-me. E alguns chamam-me quando precisam de alguma coisa: “Bahule atira aí uma moeda. Quero comprar um cigarro”. Dada a compaixão que cultivei na catequese, ofereço-lhes algo: comida, vestuário, água ou uma refeição. Lembro-me de que num dia de frio tive de tirar a minha camisola e o meu gorro para oferecê-los a um demente, na paragem da Pandora. Contudo, isso não faz de mim um santo porque tenho pecados maiores que o Monte Binga e mais sarnas que os buracos das estras do meu país.

Porém, a melhor caminhada é a que faço no meu bairro, Khongolote. Andar por aqueles becos, ruelas e ruas ajuda-me a perceber que nem toda a arquitectura se ensina na universidade. Além do mais, quando caminho não deixo de apreciar as mulheres. Caminhar é uma forma que encontrei para afugentar a má disposição. Quando estou aborrecido bebo muita água ou uma cerveja bem gelada.

Mas, vou lutar contra este último vício – a bebedeira – porque é mais dispendioso e não me dá os resultados desejados. Estou a trocar o álcool pela água. Descobri que em alguns lugares quando passo, durante a caminhada, as pessoas acertam os seus relógios. Por passar, à mesma hora, pelos mesmos locais, as pessoas habituaram-se à minha comparência ao ponto de duvidarem do fuso horário dos seus instrumentos de medição do tempo. Sou exageradamente pontual e metódico com o horário.

Sempre que caminho, escuto música no meu ipod de marca Samsung YP-Q2 acompanhado de auscultadores de logótipo Sony que comprei em Rianxo. Caminho sempre entre as dezasseis e as dezassete horas, nos dias laborais: esse é um bom momento para ver o pôr-do-sol. Ontem, quando caminhava, uma linda jovem cruzou o meu caminho. Ou eu é que cruzei o seu caminho. Para ser preciso, os nossos caminhos cruzaram-se. Enquanto ela aproximava a mim, baixei a música e tirei os escutadores das orelhas. A tentar inventar um charme como o de Laurence Fishburne, para vincar a minha veia masculina de um “ndota”, machão, cumprimentei-a.

– Olá! Estás bem?

– Sim, estou bem.

Respondeu com um sotaque bem requintado.

A jovem era bem recheada. Tinha aquele “matsamelo”, assento, de que nós, os africanos, gostamos: redondo e bem cheio. A saia que ela trazia permitia que eu visse a perna grossa. A coxa-de-freira era bem saliente. Não vou falar da blusa que salienta as curvas para não criar calafrios aos machistas do meu país. Parecia uma boneca. Se alguém me dissesse que estava diante de Beyoncé, eu acreditaria. Fiquei nervoso. Mas isso não poderia impedir a minha remetedura. Quando ela tencionava acelerar o passo, aticei a conversa com uma proposta.

– Não queres que eu declame um poema para ti?

– Um poema! – Exclamou com um gesto de encolher os ombros.

– Sim, quero declamar um poema para ti. – Insisti para ver se ganhava alguns pontos.

– Eh … – Disse, hesitando na fala antes de responder: – O meu nome não é poema. O meu nome é Aminah.

Deu-me vontade rir. Tentei conter-me para não rir. Mas, honestamente falando, virei um bocadinho como se estivesse a olhar para algo que estava longe e soltei uma gargalhada ténue. Ela apercebeu-se de que eu estava a rir. Para não levar sarilhos para casa eu disse:

– Tudo bem Aminah. Fica para a próxima vez.

Aminah continuou a sua caminhada. Eu também. Quando ela se distanciou, fartei- -me de rir. As pessoas que passavam por ali quase que me vestiam uma camisa-de- -força. Aquela cena perturbou a minha caminhada. Aminah é bonita. Tirou o meu chão em todos os sentidos. Pejorativamente pensei: “Como uma pessoa bonita não sabe o que é um poema?” Interrompi a caminhada e voltei para a casa.

Depois de muitas gargalhadas, compreendi que ela talvez se rebaixasse – em sinal de humildade – para um acto nobre e sublime que eu queria fazer: “Declamar um poema”. Ela não é um poema. Sente-se inferior a tamanha arte das palavras de tal sorte que prefere acanalhar-se à inexaurível arte lírica. Mas nunca me esquecerei da frase que ela proferiu: “Eu não sou um poema”.

Na verdade, eu é que sou ignorante. Eu é que não aboquei a realidade que vinha da beleza dela. Eu preocupei-me com “matsamelo” e não com o conteúdo. Aminah é uma mulher perfeita. Bonita, inteligente e perspicaz em relação às palavras. Não percebi a sua resposta. Eu ouvi palavras, mas não apreendi a mensagem. Há coisas que não devemos aceitar por elas serem sublimes e superiores a nós: essa foi a sua atitude.

Essa frase – “Eu não sou um poema” –, vinda de uma mulher, tem uma tonalidade de verdade absoluta. Mas a verdade, e eu acredito na minha infinita abnegação, é que «toda a mulher é um poema». Acreditem no que disse e escrevi, pois aconteceu. Mas acreditem mais na seguinte verdade: “Toda a mulher é um poema”. Se o másculo acredita nessa verdade devia, em cada estação lunar, declamar ou escrever um poema para a sua amada.

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