Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Morreu Jaime Gonçalves, ex-arcebispo da Beira, mediador do acordo de paz em Moçambique

Morreu Jaime Gonçalves

DW Marta BarrosoO arcebispo emérito da Beira e mediador católico do Acordo Geral de Paz em Moçambique, Jaime Gonçalves, morreu na madrugada desta quarta-feira(06). “Partiu hoje para o Pai”, disse à agência Lusa o vice-reitor da Universidade Católica, Rafael Sapato.

Jaime Pedro Gonçalves, de 79 anos de idade, faleceu na cidade da Beira, vítima de doença, e que o funeral está previsto para sábado.

Jaime Gonçalves foi o mediador da Igreja Católica moçambicana e do Vaticano no Acordo Geral de Paz, assinado a 04 de outubro de 1992, em Roma, e que encerrou 16 anos de guerra civil entre o Governo da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana).

Na sua última entrevista, divulgada pela Lusa a 18 de Fevereiro, defendeu que o entendimento de Roma ainda é a solução para os conflitos no país e deve ser revisitado pela Igreja, quando Moçambique vive uma nova crise política e militar.

“O documento do Acordo Geral de Paz continua a ser o mais actual e ainda é a luz para a solução dos conflitos em Moçambique”, sustentou o autor do livro “A Paz dos Moçambicanos”.

O partido Renamo não reconhece os resultados das eleições de Outubro de 2014, ganhas pelo partido Frelimo, no poder desde a independência, e ameaça tomar pela força seis províncias onde reivindica vitória, tendo pedido mediação da África do Sul, União Europeia e Igreja.

Na entrevista à Lusa, o arcebispo emérito da Beira afirmou que povo espera um novo diálogo mas também questiona “onde estão aqueles que fizeram a reconciliação”, assinalando que os acordos de Roma “foram obra da Igreja Católica”.

Para Jaime Gonçalves, os acontecimentos recentes em Moçambique deixaram claro que “o Acordo de Paz não está a ser praticado pela Frelimo”, argumentando que a linha dura do partido se recusou a integrar os homens armados da Renamo, que ficou um “movimento descamisado”, e que há um plano para eliminar o seu líder, Afonso Dhlakama.

“Para mim foi uma humilhação terrível o Presidente da República [Filipe Nyusi], o mais alto magistrado da nação, ir a Angola aprender como mataram Savimbi”, afirmou.

Recuando aos tempos de Roma, o mediador católico do Acordo de Paz atribuiu ao ex-Presidente norte-americano George Bush influência decisiva junto do Governo moçambicano para aceitar um diálogo directo, e que até então parecia recusar, com a oposição em 1992: “Quem tinha esse poder era Bush”.

Antes das negociações, num período em que Moçambique ainda vivia sob regime de partido único e falar da Renamo era potencialmente crime contra a segurança do Estado, Jaime Gonçalves recordou como foi levado de avioneta por um jovem piloto português até uma pista sinalizada por militares da Renamo de fachos na mão, e o próprio Dhlakama apareceu de moto para transportar o religioso e, “admiravelmente, aceitar o diálogo”.

Os dirigentes católicos, observou, precisaram de “muita imaginação, muito trabalho e muito risco” e os grandes êxitos desses esforços foram levar a Frelimo às negociações em Roma e o Vaticano aparecer como mediador no entendimento histórico.

Jaime Pedro Gonçalves nasceu em Nova Sofala a 26 de Novembro de 1936, tendo frequentado o seminário em Zobué, província de Tete, e prosseguido os estudos em Maputo, Namaacha, Canadá e Roma.

Após os estudos superiores em Educação, Ciências Sociais e Teologia, assumiu a diocese da Beira em março de 1976, menos de um ano após a independência de Moçambique.

Condecorado pelo Estado moçambicano, em 2014, voltou a juntar-se a Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama num evento da Universidade Católica, em Setembro de 2015, na Beira, acusando os políticos de ameaçarem a paz com seu “orgulho e medo” e de promoverem uma democracia de ódio.

“Estão todos os dias enchendo a boca a dizer paz, paz, paz! Qual paz? Paz de vergonha? Onde está a paz?”, questionou.

Jaime Gonçalves sofria de uma doença renal crónica, e, segundo o vice-reitor da Universidade Católica, não recebia tratamento de hemodiálise por opção.

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on telegram
Telegram

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

error: Content is protected !!