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Mataram o Cão-Tinhoso e nós nascemos das suas cinzas

Mataram o Cão-Tinhoso e nós nascemos das suas cinzas

O relançamento da obra Nós Matámos o Cão-Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, ocorrido em Maputo, meio século depois da sua criação, é considerado um evento celebrativo. É que a criação continua a mexer com o imaginário de muitos leitores, instalando-se-lhes inúmeros problemas, não obstante o contexto – perturbador e de opressão do sistema colonial português – em que se gerou o livro, há 40 anos. Entre a grande expectativa que se tem em relação ao livro – a necessidade de se tornar, mais uma vez, a predileta no ‘must read list’ de qualquer moçambicano que se preze – e os motivos que fizeram com que ela marcasse gerações há uma grande pergunta: Que novas imagens a obra é capaz de criar no imaginário do leitor?

Ao associar a necessidade de se reposicionar o livro Nós Matámos o Cão-Tinhoso, na lista dos mais lidos no país, o secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, Ungulani Ba Ka Khosa, argumenta: “É uma obra pendular que marca a modernidade da literatura moçambicana, porque de há alguns anos para cá (por razões cujo controlo nos foge) ela desapareceu do circuito escolar, o que faz com que os alunos não tenham a sua referência”.

Além de importante é simbólico que isso ocorra, porque – como diz o autor de Ualalapi – se “eles mataram o Cão-Tinhoso, nós nascemos das suas cinzas. Ou seja, quando falamos da prosa, a literatura moçambicana tem como suporte os nossos ancestrais e aqueles a quem prestamos tributo são, sem dúvida nenhuma, Luís Bernardo Honwana, José Craveirinha e Malangatana nas artes plásticas”.

O que se pretende explicar, aqui, é que embora seja verdade que muito antes destes autores houve outros precursores como, por exemplo, João Dias, autor da obra Godido e Outros Contos, Luís Bernardo Honwana e a sua obra têm a particularidade de nos darem as balizas daquilo que, por ventura, veio a ser a nossa literatura.

Além dos mais, Nós Matámos o Cão-Tinhoso é uma obra constituída por diferentes histórias que fazem a focagem do quotidiano no microespaço – a família, o trabalho, os bairros – e isto acaba por ser uma fotografia de um tempo, o colonial, com todos os conflitos que o caracterizaram. Trata-se de um misto de realidades marcantes e comoventes para quem lê o livro, na medida em que despoleta consciências, mantendo-o actual.

A Perenidade

Em relação a este tema, que factores contribuíram para que Nós Matámos o Cão-Tinhoso se mantivesse actual? O professor de literatura, Aurélio Cuna, afirma que “a perenidade de uma obra literária é intrínseca à respectiva criação”. O docente enfatiza que “costumamos dizer, sem grandes argumentos, que se uma obra literária se mantém perene é porque, de facto, ela possui atributos literários que asseguram a sua eternização. E aquela que se perde, no curso do tempo, algo teria acontecido no processo da sua criação ou, se calhar, na crítica”.

Talvez seja por essas razões que, no entender de Ungulani Ba Ka Khossa, a obra de Luís Bernardo constitui uma espécie de pedra angular da nossa literatura: “Independentemente das linhas que se seguem, na actualidade, na narrativa moçambicana, se olharmos para a nossa ancestralidade percebemos que a criação de Luís Bernardo é marcante sob o ponto de vista do conhecimento da nossa história literária”.

Para se ler

Como sempre foi apanágio da história da Imprensa, primeiramente os textos dessa obra circularam nos jornais. Talvez, em 1964, esta obra não tenha sido de leitura obrigatória, mas o facto de ela ter sido publicada nesse ano – altura em que havia uma censura profunda – é significativo, porque o livro era ideologicamente questionável.

O próprio autor refere, numa entrevista, que a publicação do livro foi motivada por interessados a partir de fora de Moçambique que tinham lido um dos seus contos. As pessoas, em referência, fizeram de tudo para que se publicasse Nós Matámos o Cão-Tinhoso. “Depois da independência, em 1975, os seus contos promoveram-no ao estatuto de um livro de leitura obrigatória por fazer um recorte temporal da nossa história que era preciso que fosse transmitida aos jovens, sobretudo o espírito de nacionalismo”, refere o professor Cuna.

É por essa razão que a expectativa é grande em relação ao projecto da sua recolocação no topo das obras mais lidas no país. Como argumenta Aurélio Cuna, as razões são simples: “Esta obra não morre e, cada vez que se fala sobre ela, o interesse de absorvê-la cresce. Como pude perceber, o seu relançamento foi acompanhado de uma grande expectativa porque ela fala sobre nós. Diríamos até que se trata de um nós que vem de trás para a frente. Portanto, ela consegue antever um novo cenário político e social em Moçambique”.

Atentos ao futuro

Há, sem dúvida nenhuma, várias formas de interpretar – e criar imagens a partir dos contos que constituem – a obra Nós Matámos o Cão-Tinhoso. E este livro, rompendo com as ideologias viventes na época colonial, abriu campo para se pensar as relações humanas de forma diferente e até melhor. Por exemplo, diz o professor Cuna, no conto As mão dos pretos, há uma passagem em que os personagens chegam à conclusão de que todos, independentemente da raça, “somos iguais. A diferença é que uns pensam de uma maneira enquanto outros de outra. Ora, antes de 1964, altura em que o sistema colonial português contribuía para que as diferenças raciais enraizassem a segregação sociais, era impensável falar sobre a igualdade entre as pessoas”.

Por exemplo, a escritora moçambicana Lília Momplé, que foi docente de língua portuguesa, encontrou nesta obra o material para ministrar aos seus alunos. Sobre a sua experiência reporta o seguinte: “Recordo-me de que pela primeira vez que o li, fui confrontada com um livro verdadeiramente moçambicano. Uma obra de ficção em que os personagens são africanos e moçambicanos e não sombras – como acontecia com muitos livros que eu absorvia de autores estrangeiros, em que o africano aparecia sempre como uma silhueta e não como o protagonista da história”. Como se sabe, a sombra sempre faz com que os objectos tenham mais destaque.

Contrariamente, com este livro, “pela primeira vez, aparecem personagens genuinamente moçambicanos, o que foi maravilhoso. Além do mais, sempre que fizéssemos a encenação dos contos de Nós Matámos o Cão-Tinhoso, os meus alunos ‘deliravam’ porque se reconheciam naqueles personagens. Nesse sentido, este é um livro que deve ser consumido continuamente”.

Imagens do passado

Uma das questões que nos colocámos tem a ver com o tipo de novas imagens que a leitura deste livro, actualmente, é capaz de gerar no imaginário do leitor. A resposta só pode surgir depois de várias leituras. Diz o seu autor que “o carácter simbólico das histórias, que toda a gente pressente, leva a todo o tipo de hipóteses, e aí temos no Cão-Tinhoso uma espécie de texto cabalístico a reclamar esforços de decifração. Esta situação tem a ver com as características próprias do texto, decorrendo, naturalmente, do facto de o livro ter surgido num momento particular do nosso processo sociopolítico”.

Luís Bernardo Honwana admira- se com o facto de que a mesma curiosidade que têm as pessoas comuns, a suspeita de o Cão-Tinhoso ser mais do que aquilo que é dito no texto, “tiveram os meus interrogadores da PIDE. A diferença é que eles não queriam apenas que eu lhes dissesse o que é que significa o Cão-Tinhoso – queriam que eu confessasse”.

Nesse sentido, a enfatizar a singularidade da obra, Ungulani Ba Ka Khosa afirma que “quer queiramos quer não, quer gostemos do homem Luís, quer não, o seu livro é um marco, uma referência na literatura moçambicana”. Por sua vez, a autora de Suhura, Lília Momplé renova as suas expectativas: “Espero que este livro não desapareça como, muitas vezes, aqui acontece: as boas obras desaparecem a favor daquilo que não presta”.

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