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Malária: um inimigo ainda ignorado

Malária: um inimigo ainda ignorado

Os casos de malária no país baixaram, mas a ignorância em torno dos meios de protecção caminha no sentido inverso. Para os moçambicanos, desde que se tenha uma rede mosquiteira pode-se viver à beira dos viveiros de mosquitos porque, no imaginário popular, o importante é a hora de dormir. Aliás, até os programas de prevenção têm como bandeira a rede mosquiteira.

“Vivo neste bairro há 37 anos”, conta Mário Tomás, residente do Chamanculo. “Sei que a malária é causada pelo mosquito, mas poucos por aqui, eu incluso, sabem exactamente o que se faz para se prevenir dela. Entre o ano passado e este, não houve qualquer queixa na minha família, graças a Deus”.

Contudo, este homem de 70 anos, casado e pai de quatro filhos, receia que a qualquer momento, ele ou um dos seus venha a contrair a doença. Tomás vive de forma vulnerável e carece de meios para adaquirir redes mosquiteiras e insecticidas.

O espaço onde habita está ao lado de um prédio, cujo esgoto estoirou e provocou um charco em frente à sua residência principal. “Acredito que muitos mosquitos que circulam por aqui provêm dali, mas nada podemos fazer”, conta.

Acrescido a isso é que com ou sem chuva, a natureza do bairro Chamanculo faz com que o mesmo esteja sempre alagado, a exalar um cheiro nauseabundo e com charcos por todo o lado. “Mas, já andamos preparados. Sempre que sentimos uma dor de cabeça mandamos comprar comprimidos na farmácia e tomamos”, diz conformado.

Regina Macaringue é outra residente de Chamanculo. Não sabe que idade tem e muito menos a data em que chegou àquele bairro. Com base nos seus relatos conclui-se que vive por ali desde o tempo colonial. “Houve tempos em que dava prazer viver aqui, o ar era saudável. Mas, desde a independência para cá, as coisas mudaram. O lixo não é recolhido, há capim e imundície em todo o lado”, conta.

Dadas as condições precárias em que vive, diz que gostaria de fixar residência noutro bairro, mas nem por isso deixa de cumprir os métodos de combate à malária, pois, diferentemente de Tomás, ela sabe apenas que é preciso usar redes mosquiteiras, por isso luta para que todos os sete membros da sua família tenham acesso à rede nem que seja uma ou duas vezes por semana. “Fora da rede, desconheço outros métodos”, diz.

Impacto directo na saúde

Casos desses não têm conta em Moçambique, havendo também os que acabam em mortes e outras desgraças, ora porque não há condições para adquirir os meios de prevenção e, o mais grave, porque geralmente falta informação para que o povo saiba, por exemplo, como, onde, porque e quando prevenir, num momento em que malária é a principal causa de problemas de saúde e é responsável por 40% de todas as consultas externas no país. 60 porcento de doentes internados nas enfermarias de pediatria são admitidos como resultado da malária severa.

Os números projectados pelo Instituto Nacional de Estatística, INE, em Março de 2010 apontam-na como a principal causa de mortes em Moçambique com as cifras a atingirem 29 porcento. A estimativa de prevalência no grupo etário de 2 a 9 anos de idade varia de 40 a 80 porcento, com 90 porcento de crianças menores de 5 anos de idade infectadas por parasitas da doença em algumas áreas.

O Ministério da Saúde (MISAU) já olha para a doença como o principal desafio para a saúde pública e para o desenvolvimento sustentável em Moçambique. Com base nos dados dos últimos cinco anos do sistema de vigilância epidemiológica, a malária conta com uma média de 5,8 milhões de casos diagnosticados clinicamente por ano, sendo a principal razão de consulta externa (44 porcento) e de internamento no serviço de pediatria (57).

Acesso restrito aos cuidados

Uma das causas do crescimento galopante da doença é o acesso restrito aos cuidados de saúde. Sendo um dos dez países mais pobres do mundo, em Moçambique 50 porcento da população vive a mais de 20 quilómetros da unidade sanitária mais próxima. Muitos inquéritos revelam que os níveis de consciencialização sobre a transmissão da malária e os métodos para a sua prevenção e tratamento são baixos, particularmente na população rural.

Reconhecendo essa situação, o Ministério da Saúde está a desenvolver uma estratégia de envolvimento comunitário para o controlo de doenças, visando acomodar todas as iniciativas abrangendo a comunidade e a trabalhar com organizações baseadas na comunidade e líderes tradicionais.

O MISAU entende que as comunidades são parceiras fundamentais na promoção de melhores condições de saúde para si próprias. Visando reforçar as actividades, o Governo aprovou um decreto (2000/15), que confere aos líderes tradicionais a qualidade de a mais periférica autoridade na governação.

À escala nacional, celebram- -se anualmente dois dias de reflexão sobre a malária. Contudo, apesar de vários esforços de sensibilização, a realidade no terreno traça cenários negros que exigem mais trabalho. “Além do fraco desenvolvimento do país, existe a falta de informação correcta, bem como a fraca capacidade em reconhecer e reagir de forma apropriada aos sinais e sintomas da doença. É preciso mais trabalho”, referem analistas.

Com base no Inquérito de Indicadores de Malária (IIM) realizado em 2007, a partir de um grupo de 115 crianças com febre, menos de 30 foram tratadas num período de 24 horas. Na mesma óptica, numa entrevista feita a 205 mulheres com idades entre os 35 e os 40, apenas 20 sabiam que as redes mosquiteiras protegem da malária. Geralmente, a doença é encarada como sendo normal, negligenciando-se, por isso, as suas consequências incluindo a morte.

“É preciso educar cada vez mais a população e garantir os medicamentos nas unidades sanitárias”, alerta Emanuel Capobianco, responsável pela Secção de Saúde da Criança e Nutrição, do UNICEF.

Dentre várias actividades, a distribuição gratuita de redes mosquiteiras tem sido uma das formas de combate à malária em Moçambique. No entanto, a partir deste ano, a distribuição das redes será alargada a pessoas de outras faixas etárias e de sexo diferente, e não apenas a mulheres grávidas e crianças, como vinha acontecendo anteriormente.

Pretende-se com a medida aumentar os beneficiários e espera-se atingir 80 porcento da população. Cabo Delgado, Zambézia e Nampula são as províncias que registam maior índice de malária em Moçambique. O programa de combate à malária no país conta com vários parceiros de cooperação entre eles o UNICEF, que vai disponibilizar um milhão e meio de dólares norte-americanos para o combate à doença no país.

O impacto socioeconómico

Para além do impacto directo na saúde, existe um impacto socioeconómico nas comunidades e no país em geral, particularmente nas populações mais pobres e vulneráveis. Apesar da escala exacta de perdas económicas atribuídas à doença em Moçambique não ser bem conhecida, não há dúvidas de que contribui para elevadas perdas económicas, altas taxas de absentismo escolar e uma fraca produtividade agrícola.

Um estudo apresentado ano passado na capital do país pela Malaria Consortium, uma organização não governamental que apoia políticas e programas para combater doenças transmissíveis, concluiu que cerca de 80,4% das faltas por doença que acontecem nas várias empresas moçambicanas são causadas pela malária. Para aquela entidade, o mais grave é que muitas empresas ainda não encaram a doença como um problema sério.

Numa amostra de 51 empresas seleccionadas aleatoriamente com representatividade em vários sectores, 15,7% possuem algum tipo de programa para a prevenção da doença, das quais 7,8% pulverizam as instalações da empresa e 5,9% distribuem gratuitamente redes mosquiteiras aos seus funcionários.

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