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Mais do que uma artista, uma vovó multifacetada

Mais do que uma artista

Carinhosamente tratada por “vovó amiga”, Cristina Januário é uma idosa apaixonada pela arte. Até porque, desde pequena, sempre nutriu uma desmensurada paixão pela produção de coreografias, poesias, peças teatrais e música. Desenvolveu a habilidade na Missão São Pedro em Nampula, onde foi acolhida logo após a morte da sua progenitora. Porém, por ter sido forçada a casar-se aos 13 anos de idade, ela viu-se obrigada a reprimir a sua vocação. Hoje, não obstante a idade, a sexagenária tem o sonho de imortalizar a cultura.

Ao contrário de outras crianças moçambicanas, Cristina Januário, ou simplesmente “vovó amiga” não teve o carinho materno, pois, aos dois anos de idade, a progenitora perdeu a vida. Em consequência disso, ela foi acolhida na Missão de São Pedro, no bairro de Napipine, arredores de Nampula, onde a sua veia artística começou a sobressair, tendo iniciado com a declamação da poesia “(…) sou pequenina do tamanho de um botão, tenho o papá e a mamã no coração (…)”, na altura com apenas quatro anos de idade. “Cada dia que amanhecesse, eu tinha pelo menos uma música completa (letra e melodia) e, na noite enluarada, as inspirações eram voltadas para o mundo da poesia”, afirma Cristina.

Mergulhada num mar de incertezas, “vovó amiga” decidiu experimentar a dança, o teatro, a música e a literatura para entreter a congregação da Igreja Católica em dias especiais, nomeadamente o Natal e a Páscoa. Na altura, ela tinha apenas cinco anos de idade. O resultado foi satisfatório, uma vez que passou a animar as visitas do Presidente de Portugal, por exemplo, entre outras figuras no tempo colonial com algumas peças teatrais, coreografias e textos aprosados.

“O mundo artístico batia à porta cada vez mais e eu ficava sem tempo para estudar, porém, as atenções eram voltadas para aquilo que eu fazia, mesmo sem remuneração. O amor à cultura persistia a cada dia ensolarado que passava”, conta.

Forçada a casar-se prematuramente pela irmã mais velha, vovó Cristina viu-se obrigada a interromper a vida artística para cuidar do seu lar. Tinha apenas 13 anos de idade, quando se juntou a um homem muito mais velho. A união resultou um bebé de sexo feminino. Volvidos cinco meses, o casamento dissolveu-se quando o marido a abandonou.

Após a decepção, Cristina passou a viver momentos difíceis da sua vida. Desempregada, Cristina remava contra a maré para sustentar a sua família. As ondas do elevado custo de vida abalavam o seu dia-a-dia, e, aos 14 anos de idade, viu-se obrigada a casar-se novamente com um homem também muito mais velho para garantir o seu sustento. Neste relacionamento, teve oito filhos e, em 2009, divorciou-se.

Devido ao divórcio, não havia outra alternativa para a vovó Cristina senão abraçar o comércio informal. Passou a dedicar-se à venda de refeições para os vendedores do mercado grossista da Resta. O valor amealhado era destinado ao sustento do seu agregado familiar e não conseguiu dinheiro para garantir a formação dos seus filhos que se viram obrigados a desistir dos estudos devido à falta de condições financeiras para o efeito.

“Não tive sorte no casamento, embora o último tenha durado mais de 20 anos. Em algum momento, penso que a infelicidade surgiu porque fui obrigada a casar-me e, consequentemente, tive de interromper a minha vida artística”, afirma.

Mas o amor à arte falou mais alto. Em 2010, Cristina Januário voltou a brindar o público com as suas criações artísticas, mas dessa vez fê-lo como modelo. Mesmo sem experiência, num grupo de mais de 400 mulheres, vovó Cristina foi apurada para o VI Festival Nacional de Cultura realizado na cidade de Chimoio, capital provincial de Manica, onde representou a província de Nampula.

“Foi uma experiência inédita sagrar-se vencedora da província de Nampula como modelo. Não sabia nada sobre isso, mas graças ao apoio das professoras da Casa Provincial de Cultura no treinamento, consegui realizar mais um sonho”, conta Cristina. Uma nova época artística da vovó Cristina renasceu com a conquista do título no festival de cultura. Mais tarde, passou a receber convites para desfilar em casamentos, aniversários, baptismos, além de declamar poesias nos orfanatos, e não só. Pelo elevado carinho e afecto que tem pelas crianças, ela passou a ser chamada por avó amiga.

Ainda em 2010, com imensas dificuldades financeiras para a gravação das suas composições, ela lançou uma música que retrata o casamento actual, onde a mulher é a mais sacrificada no lar. Sem álbum gravado e apenas com duas músicas no mercado, Cristina Januário considera-se uma artista, até porque possui mais de 20 temas escritos. A violência doméstica contra a mulher e a rapariga, a infidelidade entre os casais e a poligamia são os principais assuntos abordados nas suas composições musicais e prosas versificadas.

Publicar um livro é um dos muitos sonhos de “avó amiga” por materializar. Trata-se, na verdade, de uma obra literária que retrata o seu percurso artístico e pessoal por ela escrito, que contém as suas poesias. Um desejo que, segundo ela, é impossível de se concretizar, uma vez que se encontra afogada num mar de incertezas em que a cultura de realização de espectáculos ao vivo e o financiamento dos artistas é uma miragem.

Cristina Januário diz ter um forte vínculo com a cultura. De acordo com a sexagenária, a música é a melhor via de transmissão dos conselhos para o público. “Os meus ensinamentos podem ser conservados se os mesmos estiverem em forma de canções para que as gerações vindouras consigam aceder a elas”, refere Cristina que não se importa com a remuneração do seu trabalho.

Para “avó amiga”, a criação de uma escola de formação tradicional para os adolescentes a nível da província de Nampula seria um exemplo de imortalização da tradição. “Actualmente as pessoas levam crianças aos ritos de iniciação e ficam a saber de coisas que só um adulto é que deve fazer e quando experimentam resultam em gravidez precoce”, sustenta.

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