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Maçaroca assada – Lição de vida

Maçaroca assada - Lição de vida

Com a venda de maçaroca assada, muitas famílias sobrevivem escapando, assim, da pobreza sendo que os praticantes deste negócio são maioritariamente mulheres.

Foto: Jerónimo Muianga
Não são raras as vezes em que a criatividade surge como consequência do aperto que a vida nos oferece. O homem tem de se adaptar a qualquer situação e no caso da pobreza, tenta contornála. É neste contexto que surge o negócio da maçaroca assada nas ruas, sendo Angelina Sabonete uma das suas protagonistas.

Esta mãe de 5 fi lhos, de 49 anos de idade, vende maçaroca desde 1986 e defende que esta actividade não pode ser considerada um pequeno negócio porque é com base nela que educou os seus fi – lhos, construiu uma casa de um quarto e sala e garante o pão de cada dia.

 

Foto: Jerónimo Muianga

Sabonete é uma mulher casada que em 1983 partiu de Mocuba, sua terra natal, para morar com o seu marido na capital do país, no Bairro do Museu. O seu esposo trabalhava como cozinheiro na casa de um português. Quando o seu patrão rescindiu o contrato na empresa, onde trabalhava como chefe de armazém, deixou-o desempregado, embora tenha prestado serviços para ele durante 28 anos. Angelina não se deixou abater, tendo continuado a sustentar toda a família. “Comecei esta actividade no bairro da Polana onde eu e o meu marido morávamos, mas logo que nos mudámos para Magoanine também comecei a vender na avenida Vladimir Lenine, perto do Capuchinho (Mercado Janet).”

Esta vendedora diz que o preço da maçaroca, vai de 4 a 7 meticais, dependendo principalmente do tamanho destas. No entanto, Sabonete lamenta o facto de a maçaroca ser muito cara nos últimos tempos, o que acaba criando transtornos na venda pois tem de ser assada e para isso o factor carvão não pode ser descartado. “Compro mensalmente um saco de carvão em Boane a 430 meticais e 10 a 20 quilos de maçaroca a 10 meticais o quilo e transporto para cá,” refere.

Questionada sobre o lucro diário, Sabonete gagueja e dá a palavra ao marido: “Ela ganha cerca de 100 a 150 meticais. E o que compra acaba no próprio dia ou no dia seguinte porque ela já se tornou popular na praça. Por ser uma mulher de fi bra acabou aprendendo Ronga.”

Após algum tempo em Maputo, o marido de Angeline empregou-se como guarda numa casa no Bairro Central, recebendo mil meticais/ mês. “Com o meu salário compramos produtos como arroz, óleo, açúcar, amendoim e com o dinheiro das vendas da minha esposa compramos caril e pão. Pelo menos, não morremos de fome”, garante.

Respondendo à questão sobre as cobranças “ilícitas”dos polícias municipais, Angelina afi rma que nunca se aproximaram dela, talvez porque aos olhos deles este é mais um pequeno negócio sem lucros. “Eles passam por aqui, mas nada dizem e eu não fujo.”

Sabonete afi rma não saber quanto ganha por mês porque utiliza o dinheiro nas despesas de casa sempre que vende.

Em jeito de conclusão, refere que do futuro não há muito a esperar porque tanto ela como o seu marido já se encontram às portas da velhice. “Só nos resta morrer. Mas sugerimos que muitos moçambicanos que se fazem passar por mendigos façam algum negócio. Por exemplo, este senhor que está aí deitado como um mendigo pode muito bem trabalhar em vez de viver de esmolas. Isso é viver à sombra da bananeira,” concluiu Sabonete. Sem receio, Olinda Matsinhe, de 45 anos, afi rma que nasceu praticamente com este negócio no sangue. Matsinhe é casada, possui oito fi lhos e vive no Bairro Central. Na conversa conta que todos os fi lhos foram criados e educados com o auxílio deste negócio, por isso não se deve menosprezar as coisas quando não as conhecemos profundamente. “Começei a vender maçaroca em 1979. Na altura, o quilo custava 2 centavos e em Mafuiane, onde eu comprava em grandes quantidades, havia grandes produtores (agricultores). Na época não tinham esta tendência de agravar os preços como acontece com os pequenos agricultores de hoje.”

Actualmente, Matshinhe vende maçaroca entre os três e os cinco meticais cada, comprando o quilo a 12 meticais. Segundo esta mãe batalhadora, actualmente a maçaroca não é muito vendida, com o agravo de passados três dias perder o gosto, por isso quando isto acontece, Matshinhe utiliza-a para fazer xima para a família. “Para preparar a maçaroca, compro carvão em latinhas de 10 meticais cada.” Matsinhe confessa que se sente cansada e, aos poucos, gostaria de deixar a rua, começando a dedicar-se mais à família. “Não tenho escolha, continuarei neste negócio,” conclui. O gosto da maçaroca assada…

Foto: Jerónimo Muianga
Simão Nguluve, jovem que trabalha como “barman” num restaurante da Baixa da cidade, conta que actualmente é difícil comprar maçarocas por isso estas vendedeiras são bem-vindas. “Eu compro sempre a maçaroca para matar a sede que frequentemente sinto dela,” explica.

Na opinião de Nguluve, a venda deste produto deveria crescer cada vez mais e em boas condições porque muitas vezes as maçarocas não são assadas no momento. Laura Sumbane, residente no Bairro da Machava, afi rma que gosta da maçaroca e compra sempre na rua. “As pessoas andam tão ocupadas que não têm tempo de assar por isso acabam por comprar na rua.”

Concluindo, Sumbane sugere que se façam melhorias na comercialização deste produto, desde a produção até ao consumo fi nal, sobretudo no que diz respeito à higiene.

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