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Levitas preocupados com a situação da Igreja

Cursam áreas de conhecimento que lhes podem colocar em posições de prestígio social. No entanto, não perdem de vista o foco da sua vida. Mais uma vez, deram indicações de que estão seguros em relação às suas escolhas: “Queremos que a Igreja volte para Deus”. Na semana passada, realizaram um concerto no bairro de Malhangalene, em Maputo. Chamam-se Levitas da Rima e cantam Rap Gospel.

Os Levitas da Rima são cinco jovens, todos universitários, que dedicam parte do seu quotidiano ao canto coral, a que chamam Rap Gospel. Dentre eles, o mais velho, de 25 anos de idade, Frenque Guerra, frequenta o terceiro ano de Gestão de Empresas. O mais novo que, por coincidência, é o líder do grupo, Nísio Dionísio, tem 19 de idade e estuda Informática. Emmanuel Mário, Sílvia Flórida e Sandra Feliciano, de 20, 21 e 24 anos de idade, são estudantes de Arquitectura, Contabilidade & Auditoria e Engenharia Civil, respectivamente.

Há três anos, Frenque Guerra e Emmanuel Mário decidiram criar uma colectividade artística para explorar a música Gospel. Nesse sentido, procuraram jovens que comungassem do mesmo ideal, mas a adesão foi fraca. Algum tempo depois, Nísio Dionísio juntou- se ao grupo que, primeiramente, ficou conhecido pelo nome MBK Records, antes de ser Filhos de Deus.

Emmanuel Mário recorda-se de que “a nossa primeira aparição oficial aconteceu em 2010, quando nos juntámos a outros cantores do Rap Gospel das cidades de Maputo e da Beira a fim de realizarmos um . Em 2012, mudámos de nome para Levitas da Rima. O objectivo era responder, de forma cabal, àquilo que são as nossas pretensões artísticas e da pregação da mensagem de Deus”.

Entretanto, desengane-se quem pensar que a mudança de nome (para Levitas da Rima) foi movida por razões de estilo e etiqueta. “Rebelando-se” contra a situação em que a Igreja dos nossos dias se encontra, os artistas inspiraram-se na história do povo Levita (um dos primeiros clãs de cristãos) que, essencialmente, era composto por cantores.

Entretanto, ainda que admita que (com uma melhor elaboração) a história dos Levitas posa ser lida no respectivo livro (Levíticos) na Bíblia, Nísio Damião narra o que sabe. “Inicialmente, nós éramos conhecidos pelo nome de Filhos de Deus. A dado momento apercebemo- nos de que devíamos ser Levitas porque a nossa mensagem era diferente da que muitos pregadores difundiam. Ou seja, nós não estávamos só preocupados em transmitir a mensagem de Deus para os descrentes, mas também, e acima de tudo, para os crentes”.

“É por essa razão que o nosso primeiro álbum terá como título Unindo a Igreja a Deus. Concluímos que muitas igrejas perderam o seu foco, a fé em Deus. Queremos que as pessoas que lá se encontram voltem ao caminho do Criador”.

Por exemplo, “na Bíblia explica-se que Levita foi o terceiro filho da esposa de Lia. Quando nasceu chamava-se Levi mas a sua mãe, que não era apreciada pelo esposo, entendeu que o bebé devia chamar-se Levi já que isso lhe aproximaria do seu marido. A tribo onde Levi nasceu era conhecida por Levitas porque era composta por cantores”, explica Nísio. É essa a metáfora que os Levitas da Rima aplicam nas suas acções e apresentações artísticas.

Ou seja, “nós, Levitas da Rima, associamos essa história às pessoas que trabalham para Deus. Há a necessidade de os nossos contemporâneos, aqueles que servem a Deus, se aproximarem cada vez mais de Si. A parte da Rima é justificada por fazermos um estilo de música Rap”.

Por essa razão, “o nosso foco no Evangelho é mais para os crentes. De modo que estes voltem ao primeiro amor que tinham em relação a Deus. Só assim é que eles podem ter condições de pregar a sua palavra perante os descrentes”. Convenhamos que esta posição, por um lado, mostra maturidade de quem a toma, mas, por outro, também é passível de questionamento. Com que base os Levitas da Rima afirmam isso?

A verdade é que “já fomos questionados. Em certa ocasião, um irmão perguntou-nos se o que estávamos a dizer havia sido investigado nas igrejas. Eu expliquei-lhe que não. Havia uma necessidade de se parar para pensar no facto de que, recorrentes vezes, os jornais e a televisão difundem informações sobre pastores que discutiram por causa do dinheiro da Igreja. Isso significa que o foco da Igreja se perdeu. A nossa missão não é, necessariamente, criticar a situação, mas é chamar as pessoas à reflexão”.

Nísio Dionísio considera que “se os pastores acham que nós estamos a criticar é porque eles têm problemas. Antes de responder, um bom pastor escuta e reflecte. Ele é uma pessoa que conduz as suas ovelhas. Se disser que o rebanho está desorientado e não o orienta, então ele tem problemas”.

Não há harmonia

Olhando para as pessoas da sua idade, Emmanuel Mário chama a atenção para o facto de que “a geração actual, sobretudo os adolescentes, tem múltiplas personalidades. Por exemplo, sob o ponto de vista de carácter, a pessoa que está no Facebook não é a mesma com que convivemos. Falar sobre isso não significa fazer um juízo de valor, mas convidar as pessoas para que retornem ao primeiro amor de um cristão em relação a Deus”.

“Não basta só falar. O testemunho é muito importante. Deus não falou muito. Ele enviou-nos o seu filho para morrer por nós. Teve uma atitude”. Então como os Levitas perceberam que determinadas pessoas – além de não ajustarem as suas condutas às orientações de Deus – têm múltiplas personalidades, criaram a música Vida Dupla. Mas no seu reportório musical também falam sobre os temas do arrependimento, da batalha espiritual, do retorno a Deus, os quais, segundo crêem, “ajudam a reflectir em torno do que somos”.

Projectos e planos

Porque os Levitas da Rima têm a consciência de que seguir uma carreira artística secular é muito difícil, consideram que não haveria um ambiente de facilidades no canto coral. Por isso, como diz Emmanuel, “além da pregação do Evangelho não temos outra motivação. É verdade que gostamos do Rap, mas, como queremos transmitir a mensagem de Deus, sentimos que estamos a associar o útil ao agradável, fazendo o Rap Gospel. Não actuamos muito pelo comércio, mas sim pelo Evangelho”.

De uma ou de outra forma, Frenque Guera afirma que “a curto prazo, o nosso plano é lançar o nosso trabalho discográfico. Gostaríamos também de fazer concertos em todo o país, anunciando as boas novas de Deus através das nossas músicas”.

Por exemplo, “há muita gente que pensa que o Gospel é um estilo de música sem dinâmica – em que se repetem as palavras “aleluia” e “hosana” – o que não é verdade. Nesse sentido, com a publicação do nosso álbum, as pessoas terão a oportunidade de perceber que a realidade é diferente do que pensam”.

Não vivemos para o mundo

Percebe-se que, como jovens, os Levitas da Rima são um exemplo para as pessoas da sua faixa etária. Mas qual é o custo de buscar a exemplaridade? Sandra Feliciano, uma das coristas do grupo, considera que “nós não somos perfeitos (e isso significa que também pecamos, cometemos os erros que os jovens comuns cometem). Mas, a par disso, seguimos Cristo”.

Emmanuel diz que “não vivemos só para hoje. Temos a crença da vida depois da morte, no paraíso vindouro. Sabemos que o destino da vivência secular é o inferno. Passar por cima de todas as paixões mundanas que nos rodeiam é muito difícil porque somos jovens. Mas a nossa focalização é a santidade porque é disso que Jesus precisa”.

De uma forma mais elaborada, Sandra Feliciano explica que “nós, os jovens, enfrentamos desafios porque queremos muitas coisas. É verdade que fazemos a música Gospel – que nos aproxima a Deus – mas também existe o mundo que nos seduz com os seus bens. Temos os nossos amigos que não são crentes. No ensino, por exemplo, somos atraídos para o mundo pelos nossos amigos que não são crentes. Há muitas situações que podem desviar-nos. No entanto, apesar de não sermos perfeitos, sabemos que o nosso foco é Jesus Cristo. Tentamos viver à altura da vontade de Deus”.

Unindo a Igreja a Deus

No sábado passado, quatro de Maio, os Levitas da Rima (a par dos grupos Afro J, Ebenezer e Filipe Saimone) realizaram o seu 134º concerto. Tinham imprimido, para a venda, 100 bilhetes. No entanto, tiveram de reimprimir outros já que a procura foi grande. Foram vendidos pouco mais de 130 bilhetes para um concerto cujas entradas custavam 50 meticais.

Depois de Moçambique, o seu blog (levitasdarima.blogspot.com) é, maioritariamente, visitado por pessoas dos Estados Unidos, Brasil e Alemanha. É nesse sentido que Nísio considera que “em Moçambique, o Rap Gospel ainda não conquistou o seu espaço. Nos Estados Unidos a situação é diferente”.

“Unindo a Igreja a Deus” é o nome do disco dos Levitas das Rima que já está gravado. Falta-lhes, no entanto, financiamento para publicá-lo. O concerto do fim-de-semana passado foi uma forma de colectar dinheiro para a concretização do referido projecto.

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