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Toma que te dou: Last way*

Os habitantes da cidade de Tete chamam “Last way” à rua que sai da morgue do hospital provincial para o antigo cemitério da cidade do carvão. Last way é uma expressão inglesa que quererá dizer “Última rota” e, na verdade, quando se parte da casa mortuária com o corpo na horizontal, ainda por cima embutido num caixão, não haverá a menor dúvida de que se está na “Last way”.

Lembrei-me deste termo comicamente e belo saído da memória dos tetenses – no contexto em que se usa – quando vi, na última semana, o portentoso lagarto Marcelino dos Santos, caminhando, com os joelhos a ranger, mas determinado, em direcção à mesa onde eu o esperava, depois de termos combinado que nos encontraríamos na esplanada do restaurante Cristal, em Maputo, ali onde a estridência das buzinadelas e dos apelos dos chapeiros aos passageiros já fazem parte das inúmeras sinfonias do diabo que a capital de Moçambique inocula todos os dias.

Marcelino dos Santos parece um velho dançarino de Mapico que já não consegue pôr o lombo na vertical. Parece um leão exausto, sem juba e sem garras e sem dentes, prestes a entrar na “Last way”. Mas lá vem ele, arrastando a carcaça cansada de inúmeras batalhas, desprezando a morte que apressa a vida, como disse uma vez Daniela Mercury. É belo ver um velho tigre com a alma ainda fresca, avançando como um bisonte.

Ele mantém o sorriso de sempre, cínico, imutável, preserva a clareza das ideias como se estivesse constantemente a virar goela abaixo um gole de scotch para nos lembrar aqueles dois jovens que, quanto mais embriagados, mais lúcidos. Levantei-me para saudar um homem pertencente a todos os tempos, ao futuro também. Capaz de dizer a toda a gente aquilo que pensa.

– Alguma vez vociferou perante Samora Machel?

– Se nunca o tivesse feito, então a Frelimo não seria eu.

– Continua a acreditar nessa Frelimo?

– Não acreditar na Frelimo seria o mesmo que desacreditar-me a mim mesmo. A Frelimo é um partido de grandes dimensões históricas, um partido que vai prevalecer por todo o sempre, o que está a acontecer é que algumas pessoas lá dentro estão a tentar desviar o leme deste grande barco, e essa gente não estará a fazer mais nada do que insultar o povo moçambicano, que merece um grande respeito por parte de todos nós, incluindo esse punhado de déspotas.

– Já veio a terreiro dizer que não vai votar na Frelimo. Mantém essa afirmação?

– Eu não falo à toa. As minhas palavras têm fundamento, não vou entregar o meu voto de confiança a gente que nos pode levar ao naufrágio.

– Vai votar em quem?

– (Risos)

– Vai votar em quem, senhor Marcelino dos Santos?

– Eu disse que não vou votar na Frelimo, na devida altura eu depois hei-de ver o que faço à boca da urna.

Olho para Marcelino dos Santos e vejo nos seus olhos um homem tranquilo, obstinado, disposto a esbater as feridas que poderá ter plantado no passado. Estamos sentados frente a frente na esplanada do restaurante Cristal bebendo café. A entrevista é, de tempos a tempos, interrompida por gente que se aproxima dele para o saudar, com carinho e ele corresponde jovial, mostrando permanentemente a cremalheira no seu sorriso cínico. Está de costas para a estrada, para as pessoas que passam, parece não ter medo que alguém lhe enfie uma bala pelas costas.

– Senhor Marcelino, por aquilo que fez no passado, não tem medo de levar um tiro pelas costas?

– (Risos) A morte é certa, meu caro, a morte é certa, temos que estar preparados para recebê-la quando chegar a hora.

– Já foi várias vezes acusado de ser um homem perseguidor de catorzinhas. Tem conhecimento disso?

– Nunca me preocupo com hipocrisias, a minha dimensão é maior. Você não gosta de catorzinhas?

– (Risos)

– Responde, Alexandre, você não gosta de catorzinhas?

– Não desdenho.

– (Risos)

O grande lagarto pediu mais dois cafés, estava bem disposto, mantinha-se recostado na cadeira sem se preocupar com as pessoas que lhe flagelam com os olhares.

– É verdade que o senhor já escreveu o seu livro de memórias, a sua autobiografia, e que só será publicado a título póstumo?

– Não seja como a morte, não apresse a vida, deixa as coisas acontecerem com naturalidade.

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