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João Paulo II, o Santo do povo

João Paulo II proclamado beato

O papa mais importante e popular da história da Igreja Católica, João Paulo II, uma das mais influentes personalidades do cenário mundial no século XX e o homem que influiu tão concretamente nos destinos económicos e sociais da humanidade, alcança no dia 1º de Maio, em cerimónia de três dias que deve reunir mais de um milhão de pessoas em Roma, a hierarquia celeste católica e torna-se beato em tempo recorde. O próximo passo é a santidade.

Em 84 anos de vida, ele foi muitos homens num só. O órfão que fugiu do nazismo, o operário que passou fome, o actor amador, o aluno de seminário clandestino, o intelectual profícuo, o cardeal de ideias arejadas, um dos responsáveis pelo fim das repúblicas socialistas, o católico que desceu do pedestal e comunicou com as outras religiões, o homem que viajou o correspondente a 29 vezes a circunferência da Terra para propagar a sua fé.

Também foi aquele que fechou os olhos para o escândalo dos padres pedófilos, o responsável por engavetar e retroceder os avanços conquistados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), lufada de modernidade nos ritos católicos, a voz contrária ao homossexualismo, ao aborto, à camisinha, ao sexo antes do casamento…

Doente e alquebrado, expôs a sua finitude em praça pública e morreu como mártir. Karol Wojtyla, 26 anos de pontificado, o primeiro papa não italiano em 455 anos, será beatificado seis anos após sua morte, a 2 de Abril de 2005.

É a beatificação mais rápida da história da Igreja Católica e a primeira vez que um sucessor, no caso Bento XVI, beatifica o seu antecessor. Não há dúvida de que o Vaticano tem pressa de que a figura carismática e globalizada de João Paulo II alcance a esfera celestial. E esta ansiedade está relacionada com a crise do catolicismo no mundo – principalmente na Europa. O Anuário Pontifício de 2011, divulgado pelo Vaticano em Fevereiro deste ano e que toma em conta a variação nos números da Igreja Católica no mundo entre 2008 e 2009, comprova essa tese.

Embora a Santa Sé tenha alardeado que o rebanho aumentou em 15 milhões de seguidores nesse período, o documento revela, de maneira cristalina, o encolhimento do catolicismo no Velho Continente. No berço do catolicismo, onde se concentram 10,6% da população mundial, apenas 24% dizem-se católicos, um índice baixo se comparado com as Américas, por exemplo, que têm 13,6% da humanidade e os incríveis 49,3% de católicos. Ter um aliado do peso de João Paulo II numa missão como esta tem valor inestimável.

A sua biografia, com pinceladas medievais, parece ter sido moldada para servir de inspiração a ovelhas desgarradas. As beatificações, assim como a de Karol Wojtyla, cumprem uma série de funções terrenas, além das espirituais de praxe. No pontificado de João Paulo II, por exemplo, houve uma preocupação em canonizar-se santos dos Estados Unidos, para impulsionar a fé naquele país. O culto e a devoção a um personagem local acende a chama da religiosidade e atrai mais fiéis. Não é por acaso, portanto, que o processo de beatificação de João Paulo II beneficiou de uma série de facilidades.

Um exemplo: as regras estabelecidas pela própria igreja, determinando, entre outras coisas, que uma causa de beatificação só pode começar cinco anos depois da morte do candidato a santo, foram ignoradas, por ordem do papa Bento XVI, no caso de João Paulo II. Os críticos foram rápidos em alertar para possíveis problemas num processo tão corrido.

Mas os especialistas diluíram logo as dúvidas, A irmã Célia Cardorin, responsável pelas causas de Frei Galvão e Madre Paulina, explica: “O que acontece é que figuras mais populares geralmente têm testemunhos de membros importantes do clero, além do apoio político de dignitários de vários países.” Faz sentido. Não são poucos os relatos de líderes políticos exaltando a figura de João Paulo II na Positio, documento sigiloso que é uma espécie de biografia do candidato, cuja função é apresentar a sua fama de santo em vida e as suas virtudes heróicas à Congregação para as Causas dos Santos, espécie de ministério desse assunto do Vaticano.

Fama de santo é o que não faltou a esse polaco de olhos azuis profundos. Já no seu funeral, a multidão presente bradava: ‘Santo súbito!’ A sua espiritualidade transbordante, a sua diplomacia inata, que conquistava milhões só com o simbólico gesto de beijar o chão de um país visitado, a sua inteligência e fina ironia colocadas em segundo plano ante a sua humildade missionária, a sua disposição incansável em se desencastelar dos muros do Vaticano e participar no mundo como um agente transformador.

Tudo isso embalado por um carisma autêntico, de efeito globalizante, tão próprio do seu tempo, João Paulo II é um santo para a sua época, assim como houve outras gerações nos altares ao longo desses séculos de cristianismo, cada uma reflectindo a sua sociedade. Ainda em vida, João Paulo II foi louvado, em inúmeras ocasiões, como símbolo de grande liderança na arena internacional.

Atribui-se a ele, por exemplo, pelo menos parte, a responsabilidade pelo fim de regimes ditatoriais de esquerda no Leste Europeu, como na sua Polónia e nas vizinhas Hungria, Checoslováquia, Roménia, Alemanha Oriental e, finalmente, na União Soviética. Trata-se de uma influência que ele construiu, com muito esforço, por meio de uma riquíssima produção intelectual e de viagens que misturavam religião e política. Foram 104 jornadas a 129 países, com distância total percorrida de mais de um milhão de quilómetros. Para efeitos de comparação, o papa anterior que mais tinha viajado, Paulo VI, havia feito 12 viagens.

Avesso ao comunismo e às ditaduras de esquerda dos quais fora vítima, enquanto apoiava o levantamento de trabalhadores polacos contra o governo socialista do país, ele alinhou-se à política de Ronald Reagan (1981-1989), presidente dos Estados Unidos, que dava suporte a movimentos supostamente democráticos contra governos legítimos com inclinações socialistas. Críticas ao seu pontificado estendem-se ainda ao que alguns entendem como intransigência e outros como coerência em assuntos como homossexualidade, sexo fora do casamento, fertilização “in vitro”, aborto e uso de métodos contraceptivos. O papa polaco foi rigorosamente contrário a todos.

No fim, nenhuma das suas opiniões lhe custaram a continental popularidade. Iniciativas históricas, como o encontro ecuménico da “Oração pela Paz” em 1986, na cidade italiana de Assis, o sofrimento público tanto depois do atentado sofrido em 1981 como no fim da vida, a profunda espiritualidade, que o faziam mortificar-se com jejuns rigorosos e autoflagelar-se com uma cinta de couro garantiram uma espécie de imunidade às críticas mais pesadas. Poucos momentos sintetizaram tão bem a devoção pelo polaco como o seu funeral, a 8 de Abril de 2005. Mais de 200 lideranças políticas de todo o mundo reuniram-se na Praça São Pedro para acompanhar a missa de requiem, transmitida ao vivo para mais de um bilião de pessoas.

Gritos de “santo!” já eclodiam da massa de fiéis que testemunhavam a cerimónia, pedindo a canonização imediata. O documento cabal que validou os anseios populares e testemunhos como de diversas personalidades veio com a história da irmã Marie Simon, freira francesa curada da doença de Parkinson invocando o nome de João Paulo II – a primeira de muitas intervenções milagrosas do papa, que se devem multiplicar nos próximos anos.

Com mais um milagre reconhecido oficialmente, ele se tornará santo. Não há dúvidas de que isso acontecerá em breve. Segundo o postulador da causa, monsenhor Slawomir Oder, já foram recebidos mais de 1,5 mil relatos convincentes de milagres atribuídos ao santo padre. Entre 80 e 100 e-mails e cartas chegam diariamente ao seu escritório com histórias de graças alcançadas nos mais variados países, inclusive por não católicos que, por simpatia à figura de João Paulo II, pediram a sua intercessão. Há notícias de bebés que nasceriam com malformações, mas vieram ao mundo saudáveis, doentes cardíacos e que sofrem de cancro curados instantaneamente e casais dados como inférteis que tiveram filhos.

Essas intervenções supostamente milagrosas, embaladas pela mística e o carisma desse polaco, fazem cair por terra todas as contradições e as sombras do seu pontificado. Até porque a função de um santo não é ser perfeito. O papel de um santo é ser um retrato da sua fé. E isso Karol Wojtyla tentou. Com todas as suas faces.

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