Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Heroínas do palco!

Depois de regressarem da escola, cuidarem do lar, ensaiarem as suas composições musicais, na noite de oito de Março – altura em que se celebrou o Dia Internacional da Mulher – as Likute realizaram um concerto musical. Inspira(ra)m a mulher moçambicana. No show elas foram as heroínas do palco…

Há mulheres preguiçosas. Aquelas que gostam de encontrar tudo preparado para, apenas, consumirem. Em Moçambique, como em qualquer parte do mundo, mulheres desta natureza são muitas. Falando sobre a fundação da banda Likute, constituída por Tinoca Zimba, Nguilozy Aleixa, Neia Naene incluindo Lídia Mate (instrumentista), que dissocia as suas colegas de tal defeito, a preguiça.

“A Likute é resultado da acção das mulheres que tinham um sonho em comum: edificar uma banda feminina no país. Elas foram muito corajosas. Não podemos deixar de referir isso. Foi necessário, como ainda é, que houvesse muita coragem. Muitas portas fecharam-se-nos. Muitas palavras de desencorajamento foram emitidas”, explica Lídia antes de argumentar.

É que “muitas pessoas diziam que – por ser constituído apenas por mulheres – o nosso projecto redundaria em fracasso. Quando nós realizamos concertos as pessoas dizem, em tom de preconceito, que vamos assistir ao espectáculo das mulheres. O que elas irão tocar? Este tipo de discriminação é marcadamente propalado por todas as pessoas, incluindo alguns colegas de música”.

Ainda que, em determinado momento, essas palavras que – logo à partida são interpretadas pelas Likute como de desencorajamento – tenham o seu fundamento, naquela noite de Março, não fizeram sentido. As Likute, que são uma colectividade artística que faz uma fusão entre instrumentos de música tradicional africana, com destaque para a moçambicana, e outros de música moderna, posicionaram-se como um conjunto de mulheres que soube respeitar o seu dia.

Expuseram, em público, um conteúdo musical oportuno, actual, brincando (no bom sentido) com as nossas tradições, a falar sobre assuntos inerentes ao trabalho, à educação, à fome, a fim de instigar o público – mesmo que de forma lúdica – a travar um debate sempre necessário: Quem trabalha/estuda? Onde? Em que condições?

Visualizar Moçambique

De uma ou de outra forma, foi (quase) impossível sair do Auditório do Centro Cultural Franco-Moçambicano – o palco do concerto que se revelou inadequado para acolher o evento, cuja selecção para o efeito divide as opiniões – sem se ter ficado com a mínima ideia sobre Moçambique.

Aliás, a banda Likute é composta por pessoas originárias de algumas partes do norte e do sul do país, que procuram – nas suas composições – fundir instrumentos musicais de todo o país, e explorar o changana, o swahili, o macua, o makonde, entre outros idiomas nacionais. É deste modo que a referida colectividade artística constitui a metáfora do nosso país.

“Somos a imagem da unidade nacional”, comenta Tinoca Zimba, esta ecléctica dançarina e intérprete popularizada nos Timbila Muzimba. Se o concerto começou por apresentar um cenário visual que nos remete à ideia da vida nas zonas rurais – que contém signos como o cesto, a peneira e a sua utilização completada por uma indumentária típica local – o recital que, logo se expôs, fez-nos visualizar o dia-a-dia do campo.

Podia-se, também, ter explicado o significado de Likute: “um batuque, um instrumento que se confunde com a cadência da dança Mapiko. Ou seja, quando este tipo de dança inicia há um compasso próprio que anuncia a entrada, no palco, do lipiko que é o bailarino da dança Mapiko. O utensílio musical, associado ao próprio ritual, chama-se Likute”, explica Lídia Mate.

Pólos de emoção

Ainda que o mundo seja uma aldeia global, há aspectos culturais que fazem de África, da Europa aquilo que são. Como tal, perante muitos cidadãos europeus, seria deveras de se admirar que se não estranhasse a presença de um grupo de quatro mulheres rodeadas de tambores – nas suas diversidades – e do mbira, incluindo outros instrumentos modernos a dizer que irá cantar, tocar e dançar.

A verdade é que “as pessoas se questionaram sobre como é que nós iríamos gerir tamanhas actividades. No entanto, de repente, no decurso do espectáculo, elas começaram a chorar de emoção quando nos viram a manifestar a nossa cultura”, comenta Lídia Mate ao mesmo tempo que esclarece que “é nesse momento que as pessoas – sobretudo na Europa – se apercebem de que nós não somente levamos connosco o nosso Moçambique, em termos culturais, mas também representamos a nossa África. Isso, sim, para nós é muito marcante”.

Além de se associar à análise de um percurso musical de cinco anos – apenas como uma das mentoras da banda Likute – Tinoca Zimba considera que “enfrentámos muitas dificuldades no decurso dos cinco anos. Superámos obstáculos muito maiores à medida que o tempo passava. Não tem sido fácil partilharmos uma série de actividades, funções e papéis – como, por exemplo, ser mãe, esposa, estudante – com o palco. Sobrepor-se a estes desafios tem sido algo muito gratificante”.

Lídia Mate rebusca o tema dos aspectos marcantes da banda Likute chamando a atenção para o facto de que não se devem ignorar os negativos. Diz ela, por exemplo, que “para mim, é muito negativo (e acredito que para as minhas colegas também) que um empresário moçambicano do ramo das actividades culturais agende a realização de um concerto – o que, para nós, implica preterir outros eventos – e quando chega a hora do show, sem nenhum pré-aviso, a pessoa simplesmente cancela”.

“Foi essa a realidade contraproducente – muito comum no ramo dos eventos culturais em Maputo – que nos obrigou a ser cada vez mais exigentes. Já não aceitamos fazer um trabalho sem contrato e um valor correspondente a 50 porcento adiantado. Essa é uma forma de nos defendermos”, realça.

Uma utopia realizável

O concerto alusivo ao oito de Março foi um exemplo (apesar de alguns problemas técnicos ocorridos que denunciam a escassez de algum acompanhamento no aspecto da engenharia sonora para a banda) de que, ao longo dos cinco anos, as Likute produziam obras com qualidade suficiente para editarem um trabalho discográfico.

Sobre o assunto, Lidia Mate afirma que se está diante de um problema estrutural do país. “ Em Moçambique, os verdadeiros músicos – aqueles que fazem música tocada e não produzida no computador – não têm trabalhos discográficos.

A maioria dos que possuem um disco no mercado é constituída por aqueles que num dia apenas podem gravar 20 músicas”. Para si, “o outro aspecto é que nós não somos promovidas, todos os dias, pela televisão. Mas, provavelmente, trabalhamos muito mais que as pessoas que bombardeiam as televisões com os vídeos”.

Então, de uma ou de outra forma, “nós pensamos que a gravação de um disco é um processo que leva o seu tempo. Agora temos quatro músicas gravadas. Continuamos a trabalhar para o nosso projecto a médio e longo prazo. A publicação de um disco é uma utopia realizável. É que nós gostaríamos de produzir obras com uma boa qualidade”, considera Tinoca.

A luta continua

As Likute estudam Gestão Cultural no Instituto Superior de Artes e Cultura, ISArC, na cidade da Matola. Neste ano irão concluir a licenciatura. A opção pelo curso tem a ver com a sua relação com a música. “Queremos perceber a nossa actividade para que possamos defender- -nos”, contextualizam.

Dizem que “estamos a levar a mulher ao palco, para lhe dizer que a luta continua. Acho que não somos feministas, mas, em certo grau, lutamos pela igualdade dos direitos humanos”. Aliás, se for o caso de assumir o feminismo, Lídia Mate interpreta- a como a possibilidade de pensar e interpretar a vida como mulher, sem conflituar com o homem.

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!