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Heliodoro Baptista – escolhe dia da sua morte

Heliodoro Baptista - escolhe dia da sua morte

O escritor Adelino Timóteo escreveu isso: conforme dizia ainda outro dia António Cândido Franco, “Os poetas escolhem sempre um dia para morrer”. Franco referia-se então a Rui Knopfli que morrera no dia 25 de Dezembro de 1997, em pleno natal. A profecia de Franco talvez se repetira quando neste 1 de Maio Heliodoro Baptista perdeu a vida, depois de, ao longo do dia, ter andado com amigos, que mal se aperceberiam que na noite daquela data ele acenaria a despedida, para todo o sempre. Heliodoro faleceu em sua casa, cerca das 22 horas, no “Prédio da Grelha”, perto do “100 à Hora”, na Beira. De ataque cardíaco.

 

 

O país solar que ele sonhou nunca viu. E desencantado com um país, lançou-se em críticas aos adeptos do liberalismo que delapidaram a banca, não poupou críticas até aos países ricos que sustentam a elite à custa da dívida externa que deverão pagar as próximas gerações de moçambicanos.

Heliodoro foi um visionário alvo da censura do Conselho Superior de Comunicação Social.

Em 2005 burilou um poema, publicado no Savana em 2006:

T. S. Eliot The Shadows of Rainbow (Ao Ricardo Rangel e ao Kok Nam)
1. The formal word exact without vulgarity

A história agora é o Iraque, já que nós, bronzeos, e a história somos o molde. Na voz do sangue, há sempre um negro ou cigano de violão azul.
Há um tempo para as estrelas dormirem e outro para fazerem amor; quer dizer, copular de olhos acesos ou já mortiços. E inútil esbracejar ante os verdugos.
Diriam: espera assim, vergastado, pois virá a escuridão. Teremos luz, o vinho, a dança, a orgia, porque, sabes, os cavalos também se abatem. E as flores!
(Não é cada poema o caixão, o epitáfio, o ilegível mármore?)

2. Temos, há muito, sibilas, na boca e na garganta índicas.

Angoche ou Zavala são só luzes fixas pela “Nikon”?!
Temos a perturbação no vórtice das aves, na plena rotação de iluminações luarentas; e há veios raivosos de conversas cerca das gazelas e da pose eterna das garças.
Há rostos no oculto e este cheira a crime, a incursão de uma balada de tiros, com odor perfeito, único, do espumoso aberto às nossas 24 horas. Mas é do lar da amizade ou da submissão? As praias e as reservas devoram turistas e seus iates, aviões a jacto (ou, poeta, da jactância?), pela agitação de tanto cascalho marinho.
And do not think of the fruit of action

3. É inútil esbracejar, se hispar a artéria do jazz de um encenado morremorrer na Julius Nyerere ou nos pês-agás da Coop. Ei-lo, o grito de Átila!
E ele tem alvos; não cessa o que, ímpio, enlameia esta tecla (secas, fome; dilúvios, miséria!) de Dali, de três metros suficientes para um poeta dizê-lo: “Temos a cama franca, a mulher, útil paixão!” Into another intensity; o fim é sempre evolução.
Heliodoro morreu praticamente isolado. Uns criticaram-lhe devido à sua, se permitem, leviana opção pela poesia. Uns questionavam a posição do homem incorruptível numa fase de liberalismo económico. Mas Heliodoro viveu de uma fé, que o deverá ter traído, enquanto aguardava por um reconhecimento que nunca lhe chegou. Um reconhecimento cujo valor superaria a fortuna, porque a fortuna fizera-o ele em três livros: “Por Cima de Toda a olha”, “A Filha de Thandy” e “Nos Joelhos do Silêncio”. São livros que “podem ter vários cheiros, como a caju, a lanho, a jasmim, ao bolor das paredes das cadeias desumanas, a vida.
E também a sangue, a pólvora, a corpos podres mas iluminados pela luz eterna de quem deseja justiça. Das tumbas anónimas, rebenta, todos os dias, a música inimitável e pássaros, muitas aves”, citámo-lo na entrevista ao Rogério Manjate. Talvez o reconhecimento lhe chegue postumamente. Porque o nome de Heliodoro não se desdenha numa literatura que não é suficientemente rica para recusá-lo. Heliodoro é um vulto, a par de José Craveirinha e Rui Knopfli.

Reconhecer a sua dimensão o faria descansar em paz, pois da dor com que Heliodoro viveu pouco acredito que efectivamente possa estar em paz. A cidade da Beira não o mereceu totalmente porque a dimensão de Heliodoro superava esta cidade-escombro – apenas agora a desabrochar – sancionada pela sua opção rebelde, entregue a carências de vária ordem como Teatro, Museu, Galerias, como ele várias vezes me dizia.
Grande parte dos seus resgates à vida deve-se a uma mulher que soube compreender as batalhas em que ele estava envolvido, embora não o aprovasse de todo.

Estou a falar de Celeste Mac-Arthur, que tinha uma presença circular ao que ele escrevia, e que sabia apoiá-lo e também apelar-lhe para que vivesse.

“Já não estou, afinal, doente; para sempre fui e morri. Mas pela noite África, oceânica, regresso. Renasci,” in “Nos Joelhos do Silêncio,” afinal este é um testamento, livro premonitório com que encerra o ciclo, a triologia acima referida. Heliodoro Baptista nasceu a 19 de Maio. Faria este mês 65 anos. Era casado com a jornalista Celeste Mac-Artur, editora fotográfica do Diário de Moçambique, diário que se publica na Beira.

Deixa viúva e quatro filhos.

* Excertos do texto de Adelino Timóteo em homenagem ao poeta Heliodoro Baptista

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