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Há vidas com um antes e um depois

Há vidas com um antes e um depois

 

Por imposição ou escolha, o ser-humano tem de se adaptar às circunstâncias da vida, para não sucumbir. Gabriel fez um pouco de tudo, passando de assalariado a biscateiro. Não tem sido fácil, mas parar é morrer.

Gabriel Elias, de 41 anos, solteito, natural de Gaza, depois de ter morado três anos no bairro de Maxaquene, mudou-se de armas e bagagens para um dos locais mais inóspitos do Grande Maputo: O bairro hoje havido por Mingueni. Uma mudança bastante significativa, já que em 1991 aquele lugar estava coberto de machambas. Passados 18 anos as hortas perderam terreno e, pouco a pouco, foram crescendo residências, umas atrás das outras. Aliás, foram, efectivamente, as enxurradas de 2000 que levaram para o bairro o grosso dos actuais residentes. Gabriel é dos mais antigos, viu o bairro a crescer sem ordem.

Contudo, há instantes que mudam uma vida. Para Gabriel tudo recomeçou com uma bateria de automóvel. Num dia em que o negócio de bebida corria de vento em popa, precisamente quando o ponteiro do relógio marcava 23 horas o único dispositivo de que dispunha, para alimentar o seu radiocassete, “deu o berro”. Foi-se a carga e, logo, foi-se a música e com esta a clientela. A casa de Gabriel ficou deserta e sobrou muito
“thonthonto” por vender. Desde aquele dia, Gabriel sabe que depois daquele episódio, na sua vida, há um antes e um depois. “Pela primeira vez, tive a consciência de que tinha de arranjar formas para recarregar e arranjar pessoalmente a minha bateria”.

Na primeira pessoa explica-se melhor: “À época vendia bebida tradicional, mas para ter clientes tinha que tocar música e, como o bairro não tinha energia comprei uma bateria que recarregava no bairro de Mavalane. Muitas vezes a batéria não levava carga suficiente. Daí, comprei um carregador e os vizinhos começaram a aparecer para recarregar as suas baterias, só que algumas vezes não levavam carga suficiente e os proprietários deixavam-nas ficar. Foi assim que aprendi a consertá-las”.

Até esta data, por aí 2000, Gabriel era, aos 33 anos, mais do que o vendedor de bebida tradicional com maior clientela no bairro. Era um verdadeiro faz-tudo. Vendia produtos de primeira necessidade, procedia
instalações eléctricas, consertava aparelhagens e cuidava de uma pequena horta. Isto depois de ter passado por dois empregos, primeiro na Bonifica, uma empresa italiana onde trabalhou até ´93. A seguir na Mozagua, uma empresa moçambicana que fazia furos de água, trabalhou até 2000.

Num bairro em que a energia só chegou em 2006, as lâmpadas da casa de Gabriel só acendiam graças à bateria que ia recarregar, sempre que fosse preciso, no bairro de Mavalane até que, finalmente, comprou
um carregador. Uma semana fechado em casa obrigou-o a olhar para a bateria e decidir-se definitivamente a
abrir um novo capítulo na sua existência: Tornar-se “mestre de baterias”. Num espaço de um mês, Gabriel tornou-se o principal fornecedor de energia ao bairro do Mingueni. Consertava, carregava, vendia e alugava baterias. No início, cobrava 90 Meticais para consertar e 10 para recarregar. No melhor período no negócio
chegou a cobrar 250 Meticais para consertar e 20 para recarregar e alugar, preços que vigoram ainda hoje.

Mas o que é que um ex-empregado de escritório podia fazer, num bairro sem luz e água canalizada, perdido nos confins do distrito urbano nº 4? “Eu era uma espécie de EDM deste bairro. O que não foi fácil. Foi preciso muita dedicação e uma força de leão para sobreviver neste meio”, lembra Gabriel.

“Cheguei a ter 200 baterias que alugava, nesse época, era praticamente o único no bairro. Foi com esse negócio que construí esta casa”, explica.

 

 

Projecção de filmes

O negócio de baterias levou-o a descobrir um outro: a projecção de filmes. Em 2002, quatro anos antes de a energia chegar ao bairro comprou um televisor e um aparelho de videocassete. Numa instalação construída para esse próposito, na parte de trás da sua residência, começou a projectar filmes e a cobrar as entradas. Primeiro 1 Metical, depois 1, 50 centavos. Conta que, nessa altura, ao contrário de hoje, se fazia muito mais dinheiro. Aliás, “além de não haver energia, as pessoas não tinham aparelhos e vinham quase todos ver filmes aqui”, explica. “O dinheiro não dá para muita coisa, mas com este negócio não se passa fome. Nunca falta pão à boca”. Hoje, contas feitas, Gabriel faz 4500 Meticais por mês, gasta em manutenção e aluguer de dvd´s e cassetes 2500 e paga de energia 700 Meticais. Por dia, em média, embolsa 250 Meticais de receita, mas já chegou a fazer, no início do negócio, o dobro. Nesta espécie de cinema não há cartaz, o público é quem escolhe o que quer ver. A maioria decide, mas são os filmes de acção que reúnem consenso. O número de sessões também não é uniforme. Às vezes são seis, às vezes quatro. Tudo depende do período de duração dos filmes. Uma boa parte dos filmes projectados é adquirida
na baixa, outra nos videoclubes e em trocas com amigos que também fazem o mesmo negócio. “Um bom filme não passa dos 100 Meticais”, refere.

 

Quando a energia chegou…

Em 2006 chegou a energia ao bairro e o negócio “ficou fraco”. Que fazer? “Desde logo, pensar positivo. Se a isso juntarmos criatividade, sempre surgem soluções para sobreviver”. O negócio já não é o que era, mas de quando em vez aparecem alguns clientes. Com o iminente crepúsculo do negócio que gerou três casas,
Gabriel, nascido sob o signo de Leão, pessoa optimista e destemida, apesar de ter sido tocado pela depressão, pensou em se deixar levar pelo desgosto. Pegou nas economias, com o apoio de dos irmãos, um elevando-lhe o moral outro emprestando-lhe dinheiro. Durante um ano “saltou a fronteira” para comprar produtos na África do Sul e revender em Maputo. Um negócio que durou pouco tempo.

 

 

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