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Genes egoístas podem revolucionar combate da malária

Há décadas que a malária é combatida por drogas que matam o Plasmodium ou através de tentativas de erradicação dos mosquitos que carregam este parasita. A engenharia genética começa agora a dar cartas. Um artigo publicado esta quinta- -feira, na edição impressa da revista Nature, utiliza genes egoístas que aniquilam outros genes, como uma nova arma contra a doença que mata 800 mil crianças todos os anos.

Os genes egoístas não são uma invenção artificial. São complexos de genes que existem apenas em cromossomas de certos organismos unicelulares. Geram proteínas que atacam locais específicos da molécula de ADN do cromossoma homólogo, que não tem este genoma egoísta, e fazem com que esta cadeia se abra.

Quando a maquinaria da célula vai em socorro “coser” o cromossoma partido, utiliza a informação correcta do cromossoma intacto para copiar as letras do ADN e “coser” a molécula que foi cortada. Neste processo acaba por copiar os genes egoístas, que deste modo se reproduzem para o novo cromossoma.

Nunca ninguém tinha demonstrado que este parasita genético também funcionava em seres mais complexos. A equipa liderada por Andrea Crisantini, do Imperial College de Londres, provou esta possibilidade utilizando o Anopheles gambiae, uma das espécies que transmitem o parasita da malária.

A equipa produziu algumas populações geneticamente alteradas deste mosquito. Numa colocou um gene que produz a proteína GFP, que é fluorescente, e pode ser observada. E noutra população, colocou os genes egoístas. Neste caso, o sistema desenvolvido pelos cientistas fazia com que as proteínas fabricadas a partir dos genes egoístas cortassem o ADN no local dos genes da GFP. Deste modo, substituíam o gene da GFP pelos genes egoístas.

Os cientistas juntaram depois as duas populações para se reproduzirem e verificaram que ao longo das gerações havia cada vez menos mosquitos a produzirem a proteína fluorescente e cada vez mais com os genes egoístas. Passado 12 gerações, 60 por cento da população de mosquitos já não produzia a proteína GFP. Se em vez do gene da proteína fluorescente, estivesse um gene essencial para a transmissão do parasita, os genes egoístas teriam apagado a capacidade do insecto ser um vector.

“O próximo passo é conseguir romper genes que interfiram com o desenvolvimento do parasita, o comportamento do mosquito e a sua fertilidade”, explicou ao PÚBLICO Andrea Crisanti, que defende que estes resultados demonstram um grande potencial para o controlo de mosquitos que são transmissores de doenças.

“A nível molecular é uma ferramenta muito poderosa”, disse ao PÚBLICO a cientista Maria Mota, líder do grupo que faz investigação em malária no Instituto de Medicina Molecular, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Segundo a cientista, será preciso agora tornar este sistema viável para um gene específico que trave o ciclo do parasita da malária e depois introduzir centenas de mosquitos na natureza. Teoricamente, “em 10 ou 20 gerações do mosquito” a substituição genética estaria integrada na população natural, numa região endémica.

Mas a investigadora portuguesa alerta para o optimismo destas descobertas. “Cada passo a seu tempo”, disse, explicando que é preciso encontrar um gene eficiente e é necessário verificar que o processo funcione na natureza.

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