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Gainsbourg, a Vida depois da Vida

Gainsbourg

Morreu há 20 anos. Mas, nestas duas décadas, cumpriu, talvez mais do que nunca, um dos seus objectivos: chegar ao público mais jovem, em todo o mundo. Retrato de Serge Gainsbourg enquanto sobrevivente.

Jane Birkin não conseguia gostar daquele casaco extravagante, de pele de cobra, e não tinha problema nenhum em dizê-lo frontalmente: «Serge, esse casaco é simplesmente horroroso!» O cantor sorria, despreocupado, e respondia: «Ah, quero lá saber, os jovens adoram-no.»

Nesta fase, em meados dos anos ´80, a actriz e cantora inglesa e Gainsbourg já não viviam juntos, mas a sua relação havia de ser sempre de grande proximidade e cumplicidade, até ao dia da morte do músico francês, a 2 de Março de 1991, aos 62 anos, vítima de um ataque cardíaco, na sua casa da Rue Verneuil, n.° 5, em Paris.

Essa preocupação de estar próximo do público mais jovem já vinha de trás. Nos primeiros anos da década de ´60, os da afi rmação de Gainsbourg como cantor e escritor de canções (o primeiro álbum, Du Chant à La Une, data de 1958), o rock anglo-saxónico começava a tomar o mundo ocidental, de forma avassaladora – em modas e danças festivas com nomes como twist ou ié-ié. Gainsbourg parecia encravado entre dois mundos, o da chanson française, em que, necessariamente, dera os primeiros passos, e outro, no qual se falava inglês e que abria novos caminhos e conferia energias à música popular.

Serge não pertencia, verdadeiramente, a nenhum deles, mas sempre se encantou com os sons que chegavam do lado de lá do Canal da Mancha e do Atlântico (como, aliás, acontecia com um dos primeiros a perceber o seu talento, Boris Vian, grande admirador do jazz americano).

Uma teenager loura, com ar de bonequinha, ajudou-o a conquistar os jovens entusiastas dos sixties que queriam cortar com as referências da geração dos seus pais. «Foi a France Gall que me salvou a vida, eu estava no caminho da perdição… com todos aqueles jovens, as guitarras eléctricas…

Não me arrependo nada dessa parte da minha vida», disse ao seu principal biógrafo, Gilles Verlant. A canção Poupée de Cire, Poupée de Son, vencedora do Festival da Eurovisão em 1965 (cantada por France Gall, representando o Luxemburgo) tornou-se o primeiro grande hit popular da carreira de Gainsbourg. Escreveu outros êxitos para a voz de Gall (por exemplo, N’ Écoute Pas les Idoles, Nous ne Sommes Pas des Anges ou Laissez Tomber les Filles), mas à sua maneira, com as suas regras e… o seu humor.

Ficou célebre o episódio Les Sucettes, canção de 1966. France Gall cantava, com ar cândido, ingénuo e entusiasmado sobre chupa-chupas de anis, os favoritos de Annie; toda a letra era uma perversa sucessão de ambiguidades e segundos sentidos (bastante óbvios) sobre sexo oral.

France Gall percebeu-o tarde demais, e quando alguém lhe explicou, passou dias fechada em casa, envergonhadíssima, furiosa com o seu empresário e, claro, com o compositor. Sem falsas modéstias, Gainsbourg diria à revista francesa Rock & Folk: «Sou incapaz de mediocridades. Sou capaz de fazer muitas brincadeiras, como Les Sucettes, mas escrever canções medíocres, mesmo por muito dinheiro, não o conseguiria fazer.»

Um mundo em… Inglês

Muitos, nos anos ´60 e ´70, ouviram falar de Gainsbourg pela primeira vez a propósito da canção-escândalo (a sua mais célebre composição) Je T’ Aime… Moi Non Plus – gravada em dueto com Brigitte Bardot, em 1967, e com Jane Birkin, em 1969 – proibida em vários países pela ousadia da letra e pelos gemidos e suspiros que faziam parte da canção…

A intelectualidade francófona desconfiava do personagem. O seu lugar não era fácil de defi nir: muito pop para os intelectuais, muito francês para o público de pop e rock que despontava entusiasticamente. O percurso de Gainsbourg foi sempre o de afirmação de uma identidade só sua, às vezes contra a corrente, muitas vezes provocadora (exemplo maior: a célebre versão reggae da Marselhesa) – e temos aqui uma primeira boa explicação para a sobrevivência da sua obra pelos anos fora.

Os francófonos militantes, aqui e em toda a parte, só podiam desconfi ar de alguém com um fascínio tão óbvio pela cultura anglo-saxónica, de Londres aos EUA. São muitas as suas canções com títulos em inglês ou referências a esse imaginário: Intoxicated Man, Black Trombone, Comic Strip, Bonnie and Clyde, Ford Mustang, Harley Davidson, New York USA, Relax Baby Be Cool, para citar só algumas…

Quando morreu, a 2 de Março de 1991, Gainsbourg preparava- se para embarcar, no dia 20, em direcção a Nova Orleães, onde ia finalizar um disco inspirado nos blues. Anos antes, tinha rumado a Kingston, Jamaica, entusiasmado com o reggae, para gravar com músicos locais os discos Aux Armes et Coetera (1979) e Mauvaises Nouvelles des Étoiles (1981). E, na verdade, desde sempre gostou de tocar com músicos ingleses (já o seu primeiro EP, Vilaíne Fille, Mauvais Garçons, de 1963, tinha sido registado em Londres).

Renascimentos

Em França, hoje, Gainsbourg é uma instituição. Na passagem do 20.º aniversário da sua morte, reeditam-se os primeiros discos em vinil, publica-se uma impressionante caixa Intégrale com 20 discos, 270 títulos, fotos, textos, alguns manuscritos, edita-se uma compilação com os muitos intérpretes de canções de Gainsbourg… Nada que surpreenda, quando a indústria musical quer homenagear um grande artista do passado, a pretexto de uma efeméride.

O que surpreende em Gainsbourg é a sobrevivência, e mesmo a renovação da sua obra, depois desse 2 de Março de 1991. E como é que isso se vê? O ano passado viu-se em grande formato, no filme Gainsbourg, Vida Heróica, estreia na realização de Joann Sfar, que se tinha afirmado como autor de banda desenhada. Ao francês Eric Elmosnino coube a difícil tarefa de interpretar Gainsbourg (prova superada).

O filme fintava as convenções clássicas de um biopicy saltando para um nível onírico e imaginário, personalizado por uma espécie de gigantone – La Gueule – de nariz e orelhas enormes, alterego e fantasma do cantor. A nível musical, foram muitos os renascimentos, e para quase todos os gostos – na área da electrónica, dançável ou não tanto (I Love Serge, Electronica Gainsbourg, de 2002, por exemplo); dub e reggae com novas remisturas em 2004; vários grupos e músicos de pop e rock, mais ou menos indie, contemporâneo em Monsieur Gainsbourg Revisited (2006); traduções em espanhol, várias versões em japonês por exemplo em L’Homme à la Tête de Sushi (divertido trocadilho com o título do disco L’Homme à la Tête de Chou), de Kenzo Saeki…

Mas as mais sistemáticas versões foram as de Mick Harvey (um dos músicos mais importantes da história dos Bad Seeds, de Nick Cave) em dois discos: Intoxicated Man e Pink Elephants, onde o músico australiano arriscou (e conseguiu) passar para inglês várias letras de Gainsbourg. E como é que isso se explica? Gainsbourg era um tipo complexo, com várias contradições. Elegante e escatológico; delicado e provocador; feio e sexy (ou, pelo menos, sempre acompanhado pelas mulheres mais sexys); perfeccionista e intuitivo; alcoólico e lúcido; perverso e pudico. Doutor Jekyll e Mr Hyde? A sua música era reflexo de tudo isto, o que tem conseguido alimentar a curiosidade de sucessivas gerações – os jovens a que ele queria chegar, afi nal. Na sua vida, Gainsbourg não teve oportunidade de ouvir falar de Internet.

Mas, hoje, se escrevermos «Serge Gainsbourg» no Google, o motor de busca devolve-nos mais de 2 milhões de respostas. Uma delas particularmente útil para quem quiser saber mais sobre o músico francês, nascido Lucien Ginsburg, em 2 de Abril de 1928: www.gainsbourg. net. De certa maneira, Serge Gainsbourg é um artista vivo.

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