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FUTEBOL NACIONAL: Algumas das razões do Insucesso

FUTEBOL NACIONAL: Algumas das razões do Insucesso

Para duas perguntas, diversas respostas. Na verdade, muitos erros, quais “grãozinhos de areia”, foram sendo cometidos e que, somados, acabaram “parindo” uma montanha. Neste momento, estamos metidos num atalho, mas se nos unirmos, corrigindo os erros e aproveitando os ventos que sopram a partir da disponibilidade das grandes empresas em apoiar o desporto, poderemos, paulatinamente, encetar a reversão. Afi nal, todos os becos têm saída. De outra forma, a história nos julgará, num assunto em que todos ralham e ninguém tem razão. Viver com o passado mas não do passado O passado orgulha-nos e deve- nos inspirar na construção de um futuro mais risonho. Eusébio, Coluna e Matateu, foram apenas a ponta visível de um “iceberg” que produzia que se fartava e não se fartava de produzir. Abel, Carlitos, Armando Manhiça, Matine, Pérides, Mário Wilson, Vicente, Chiquinho Conde e centenas de outros compatriotas, levaram para a metrópole o perfume do talento natural dos moçambicanos. Pode-se, com segurança, dizer que os futebolistas locais de primeiro nível, naquela altura entravam “de caras” nas principais equipas portuguesas, país que se começou a projectar no mundo do futebol, graças ao talento dos atletas das colónias de então.

 

Mas o passado, hoje, vale o que vale. Os tempos e os ventos são outros. A “Universidade” de Eusébio e seus pares, foram as areias quentes da Mafalala, terrenos baldios que hoje viraram “dumba-nengues” para a sobrevivência das populações dos subúrbios. Na cidade, o cimento sufoca-nos. A ganância também, ao ponto de até colectividades com largas tradicões, aos poucos se vão desfazendo do património que lhes foi legado, para construção de mais e mais edifícios. Um pouco por todo o lado, os terrenos livres foram engolidos, restando à pequenada “jogar futebol” na pele de Cristiano Ronaldo e outras estrelas, através de um exercício com os dedos das mãos – os populares games – marcando golos de antologia no pequeno écran que se chama televisor.

 

BEBEC: NUNCA COMO DANTES

A sigla mudou de SOBEC para BEBEC. O espírito de um torneio infantil de confraternização e competição, que o saudoso Luís Brito corporizou, já desapareceu. Para se jogar no SOBEC era preciso andar na escola. Os árbitros não mostravam cartões, mas davam uns puxões de orelhas. O tratamento era mesmo de “titios” e sobrinhos. O patrono/criador entregou a pasta à Direcção de Desportos da Cidade de Maputo. Esta, por sua vez, endossou as responsabilidades a uma Comissão. O resultado pode ser visto a cada final do ano, com exibições cada vez mais mais desastrosas. Do rico convívio, resta um autêntico desfile de arruaceiros; miúdos orientados para chutar para a frente e partir pernas; prémios de jogo que incluem caixas de cerveja e garrafões de vinho para os papás; treinadores sem conhecimentos básicos de futebol e de psicologia e, como se não bastasse, com o verbo fácil dos impropérios na ponta da língua. No dia da final, há de tudo um pouco. Agressões e choros. Chutos e pontapés. O vencedor faz festa rija pela noite dentro, com o patrocínio de uns tantos cantineiros da zona, numa festa em que o álcool é a figura central. Os miúdos fazem o resultado, para depois assistirem ao teatro das bebedeiras dos papás. Resultado palpável: o Torneio SOBEC lançou no mundo da bola jogadores como Dário, Paíto e Dominguez.O seu “filho” BEBEC não está capaz de proceder à renovação!

 

PARA QUÊ TORCER O PEPINO?

O jovem que hoje chega ao clube para se integrar nos iniciados, juvenis ou juniores, nunca jogou futebol de bairro. O técnico tem que lhe ensinar os fundamentos básicos, numa idade pouco propensa à iniciação. Internacionalizações? Em regra só nos seniores! O candidato a craque apresenta- se no clube trazendo na sua folha de serviços uns desafi os esporáricos nos intervalos das aulas, “uma perninha” nos Jogos Escolares, e umas semanas de actuação no BEBEC. O resto é sonhar por uma integração nos poucos clubes que ainda se preocupam com os escalões de formação, onde a competição a sério é igual a zero. Se a lógica do ditado “de pequenino se torce o pepino” fosse para aqui chamada, então o pepino não poderia nunca poderia ser torcido porque uma vez “madala” não se torce: parte-se! 

 

O PESADELO DE GANHAR UM CAMPEONATO

Ganhar o Campenato ou a Taça, entre nós, traz consigo um verdadeiro pesadelo: o da participação nas provas africanas. Enquanto os adeptos da equipa festejam, o presidente e o tesoureiro desdobram-se em contactos para conseguir apoios e vão rezando para que lhes saia no sorteio um adversário aqui à mão, de preferência Suazilândia, África do Sul ou Zimbabwe, para realizarem a deslocação de automóvel. Mas mesmo assim, o pesadelo é sempre grande, pois as receitas são ínfi mas comparadas com as despesas, em moeda externa, para pagar a árbitros e comissários, depauperando as magras economias. Ao contrário do que acontece na Europa, em que a passagem de duas eliminatórias nas provas internacionais pode render mais do que a receita de um campeonato, por cá é exactamente o inverso. Pode pensar-se em progresso, perante um quadro tão negro?  

UM EX-CRAQUE DE BANDEJA NA MÃO!

Na única ocasião em a nossa Selecção Nacional de Sub-17 se apurou para uma fase fi nal do CAN do escalão, em 1991, a prova realizou- se em Bamako, no Mali. Tive o perivilégio de acompanhá-la. Moçambique apresentou-se com uma boa selecção, fi sicamente frágil, mas tecnicamente considerada a melhor. O “papão” era o Gana, que acabou vencendo a prova e, mais tarde, o título mundial no Equador, motivo de orgulho para o Continente. Da super-equipa ganesa de então, rezam as crónicas, apenas dois atletas regressaram ao seu país sem contrato. Os restantes saíram com acordos com PSV, Real Madrid, Chelsea e por aí fora.

QUANTAS CARREIRAS SE PERDERAM ASSIM?

Os nossos Sub-17 nesse CAN, numa memorável partida frente aos ganenses, gelaram o estádio quando abriram o activo e ameaçaram tomar conta do jogo. Valeu aos súbditos de Abedi Pelé, a maior experiência, acabando por vencer por 2-1. Pois bem: seis anos após esse Torneio, encontrei-me com um dos jovens da nossa Selecção, que jogava a segundo ponta-delança, por sinal autor do golo aos ganenses. Onde estava? Algures numa barraca no Bairro Triunfo, com uma bandeja de carapau numa mão e uma cerveja média noutra. Servia à mesa na barraca do seu pai! Quantas carreiras promissoras como aquela terão fi cado pelo caminho? 

 

A TEIMOSIA DO TODOS-CONTRA-TODOS

É a isto que se chama alta competição. No final do jogo, é hora para as visitas a amigos, adeptos e familiares, para repastos em que não faltam os petiscos e as geladinhas. Claro que há excepções: os que levam as coisas a sério e procuram apresentar-se em grande forma, contrastando com os que se apresentam… em forma grande! E se perguntar não ofende, aqui vai esta questão: um país longilíneo como o nosso, com cerca de dois mil quilómetros de alto a baixo, justifi ca-se a teimosia de uma prova de todos contra todos, com os jogadores a andarem de sacola às costas semanalmente? O Brasil, apesar do fanatismo do seu povo pela bola, ainda realiza os campeonatos estaduais, que culminam depois no brasileirão!

 

UNS EM GRANDE FORMA OUTROS EM FORMA GRANDE

Correm o país semanalmente, reduzindo o espaço e o tempo para um treinamento a sério. Não raras vezes, são vítimas dos cancelamentos de voos e noutras alimentam-se e alojam- se inadequadamente. Os campos, na sua maioria, não reúnem condições. As arbitragens, em regra, são viciadas. Os imprevistos fazem parte do dia-a-dia, do nosso Moçambola, quando não são componentes do hora-a-hora. A maior parte do tempo é consumido com as preocupações que um pseudo-profi ssionalismo “caloteiro” impõe. Salários e prémios em atraso, equipamento inadequado, falta de medicamentos… Saunas e massagens, nem sempre constam do cardápio.

 

O “cancro” principal: POLITIQUICES AO INVÉS DE POLÍTICAS

Enquadrado na política socialista do pós-Independência, alguém decidiu que o jogador de futebol – dizia-se – não se pode comparar a uma mercadoria. Logo, não é vendável. Assim, ao contrário do que sempre aconteceu no mundo, inclusivamente nos países socialistas de então, o futebolista moçambicano não podia ser vendido. A solução foi o corte de fronteiras. Um bico-de-obras quando selecções e equipas saíssem do País. Todo o cuidado era pouco, chegando-se ao extremo de se “confi scar” passaportes ao longo do percurso, para evitar fugas. Moral da história: aqueles que se sentiam com condições para outros voos, saltaram o arame. Acabaram por ter difi culdades em singrar, sobretudo porque lhes era negada a Carta Internacional, obrigando-os a mudarem de nacionalidade e de nome, em esquemas que os deixavam nas mãos de mafi osos. Quando o cenário mudou, tinhamos perdido uma parte das tradições do jogo da bola e já não havia estrelas para exportar. Chegou-se ao cúmulo de pesquizar nas divisões secundárias e terceárias de Portugal, “moçambigueses” seleccionáveis para virem dar uma mão aos Mambas. futebol do país de Eusébio se encontra num nível tão baixo? Que tsunami terá passado pelo Oceano Índico, por alturas da a em nome de Portugal? s da queda livre

 

De Portugal por Moçambique: AMOR DESCEU DO CORAÇÃO PARA O INTESTINO GROSSO

Em dia de jogo/grande do Campeonato português, os moçambicanos vibram. A “química” dos velhos tempos não passou e, ao que tudo indica, não vai passar. Mas estamos a falar de uma auto-estrada num só sentido. Vejamos.Há uns tempos, alguns clubes moçambicanos regressaram à designação colonial, fazendo renascer os Benfi cas, Sportings e outros. A expectativa era de se benefi ciarem de algum apoio, a partir da fi liação. Debalde. Houve quem recebesse um jogo de equipamentos em segunda mão, outros enviaram um dirigente para vibrar ao vivo com um eventual “derby” entre leões e águias e pouco mais. A FMF, a determinada altura, até pediu à FIFA para “sacudir” Portugal do papel de interlocutor, preferindo, salvo erro, a França. É esta a “paga” para quem forneceu milhares de estrelas que deram glórias e títulos aos súbditos de Camões. Longe dessa é a fi losofi a dos franceses, ingleses e holandeses, que se afi rmam como parceiros privilegiados relativamente às suas ex-colónias. É lá que promovem escolas de jogadores, é lá que ajudam na candidatura e na organização dos grandes eventos. Os especialistas e “olheiros”, das várias áreas dão o seu saber praticamente sem custos para os locais. 

 

 CIDADE DE MAPUTO: “Evaporação” de clubes reduziu futebolistas

No tempo colonial, na capital do país movimentavam-se 28 clubes, em três divisões. Eram eles:

I DIVISÃO

Ferroviário, Desportivo, Sporting, 1.º de Maio, Benfi ca, Central, Alto Maé, e Indo Português. Todos estes clubes eram obrigados a ter reservas e juniores. Total: 8 clubes + reservas + juniores à média de 20 jogadores = 480 jogadores

II DIVISÃO

Atlético Nacional, Malhangalene, Belenenses, Académica, Beira- Mar, Rodoviário, Munhuanense Azar, e Mahafi l Issilamo. Total: 8 clubes + juniores x2x20 = 320 jogadores II DIVISÃO Vasco da Gama, Caju Industrial, Metal Box, Alumínios, Atlético Mahometano, S. José, Nova Aliança, Gazense, Inhambanense, Nacional Africano, João Albasini, IMA, Texlom e Zixaxa. Total: 12 clubes, sem reservas nem juniores, obrigatoriamente = 240 jogadores

CLUBES QUE SE “EVAPORARAM” (17): Central, Indo Português e Malhangalene (fundidos no E. Vermelha), Belenenses, Rodoviário, Vasco da Gama, Caju Industrial, Metal Box, Alumínios, Atlético Mahometano, Nova Aliança, Gazense, Inhambanense, Nacional africano, João Albasini, IMA e Texlom.

NOVOS CLUBES (4): Matchedje, Estrela Vermelha, Liga Muçulmana e Ferroviário das Mahotas. As formações da Migração, Águias Especiais, Águia D’Ouro e Conseng, surgiram e desapareceram. Esta é a situação nos federados. Paralelamente, havia uma regular movimentação nos subúrbios, entre equipas de bairros, mais o futebol dos trabalhadores (entre empresas) e os campeonatos militares. Por falta de interesse, organização, campos ou terrenos baldios, grande parte desta actividade está reduzida a zero.

 

INTEGRAÇÕES

E se é verdade que a realidade acima não ajudou, as integrações que vieram a seguir, ainda por cima feitas à pressa, acabaram por produzir fi lhos e enteados. Os clubes que se integraram em empresas com boa saúde fi nanceira e sensibilidade para o desporto, tiraram o “jack-pot”. Os outros fi caram entregues a si mesmos. De premeio, o anúncio em comício e sem pré-aviso da obrigatoriedade da mudança de nomes dos clubes com raiz colonial, religiosa ou regional, instalou um absentismo que cortou praticamente pela raiz a “carolice” que dominava os clubes, em especial os dos subúrbios. Convencer fanáticos religiosos do Mahafi l ou Atlético Mahometano, de que o seu clube fi ca melhor com a designação de Flamingos ou Centro de Cultura, foi uma operação, à partida condenada ao insucesso. 

 

UM BECO COM SAÍDA

Também no futebol é necessário que se desenhem claramente, políticas assentes nesta realidade, mas não estando alheios às opções e tendências mundiais do futebol. Os principais “nós” de estrangulamento são de todos conhecidos e é sobre eles que se tem que actuar.

Pergunta-se:

– Vale a pena manter, teimosamente, um campeonato em que os jogadores tem que abdicar de estudar ou mesmo trabalhar a tempo parcial, para corporizar uma prova que já nem adeptos atrai para encherem as bancadas centrais?

– É racional falar em profi ssionalismo, com jogadores que no seu clube não têm água quente para o banho e por vezes nem dinheiro para o chapa?

– Aceitamos testemunhar, passivamente, à delapidação do restrito património dos clubes, com promessas de reposição que tardam e/ou nunca mais se concretizam?

– Haverá algum futuro para o nosso futebol, quando um jovem que se destaca nos Jogos Escolares tem que esperar pela “montra” do Torneio Coca Cola, ou então pelo BEBEC, para dar vazão ao seu talento, numa carreira intermitente com mais dias de paragem do que de competição?

– De técnicos qualifi cados não reza a história, exceptuando os poucos que volta e meia “botam a sua faladura” nos jornais. E porque é que nas permanentes deslocações pelo país, nunca são chamados para palestras ou mesmo “clinic’s”? 

 

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