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Flamingo nos últimos voos

“O Último voo do Flamingo” aterra hoje em Maputo

Durante mais de um mês e meio, a vila de Marracuene foi Tizangara, dando corpo à adaptação cinematográfica do obra de Mia Couto “O último voo do Flamingo”. Amanhã, dia 2 de Maio, quando o último tac da claquete soar tudo volta à rotina naquela pequena vila.

O vento empurra, como uma vela de um navio, a enorme tela alva que difunde a luz emitida pelo foco de 12 mil watts. “A luz não é a melhor”, esclarece José António Loureiro, director de fotografia que tem a seu cargo toda a concepção da iluminação, estética, cor, quadro e composição dos planos. A teimosia da tela, arrastada pelo vento, faz com que quase toda a equipa esteja à sua volta. “Dá muito trabalho esta tela”, atira alguém em esforço.

De facto, o artefacto revela-se de domínio complicado: levanta, faz barriga, sacode-se. Finalmente, quando se regista um abrandamento da intensidade do vento, as coisas resolvem-se. O frenesim é grande. E tem sido sempre assim desde o início, há seis semanas, das filmagens da película “O último voo do Flamingo”, realizado por João Ribeiro e co-produzido pelo próprio e pela ‘Fado Filmes’ de Portugal.

Todo este corrupio de gente tem, sem dúvida, trazido uma vida suplementar à pacata e vetusta vila de Marracuene, localizada 50 quilómetros a norte de Maputo. Por estes dias a antiga Vila Luísa é Tizangara, o pequeno povoado onde decorre a acção do livro de Mia Couto. Aqui, agora, está-se num tempo que ainda cheira a guerra, e os soldados de manutenção de paz percorrem o país, vigiando o Acordo assinado na capital italiana. Pelo meio há umas expulsões, uns quantos mortos da ONUMOZ, muito enigma e muita intriga.

A câmara avança pela calha fazendo zoom sobre Massimo Risi (Carlo D’ ursi) e Ana Deusqueira (Adriana Alves). A cena passa-se sob o alpendre da casa da Deusqueira, a prostituta de Tizangara que “conhece os homens pelo pénis.” A cena é ousada, de apalpões mútuos, e termina com o italiano, que é soldado da ONU, e retirar-se de uma forma irritada.

João Ribeiro, o realizador, entra e sai da casa vezes sem conta para dialogar com os actores. Há sempre alguma coisa que parece não estar a 100%. Provavelmente tiques de quem persegue a excelência. Carlo tem dificuldade em pronunciar algumas palavras e o ELE e ELA na sua boca confundem-se. Adriana ajeita-se, estudo os trejeitos, recebe retoques de última hora e numa ladainha decora as próximas falas: “Quem explodiu está explodido… “O Brasil é que é meu.”

A cena 28 tem 1,45 minutos mas na realidade demora um bom par de horas. Aquilo que o espectador consome entre duas pipocas representa um trabalho de horas, às vezes mesmo de dias, para um actor. Adriana queixa-se de dureza da cena: “Poxa! Você quase me arrancava o maxilar. Me chama o ortopedista!”

Armando Picana Objama tem 68 anos e é um dos figurantes no filme. “Sou do Conselho de Anciãos da aldeia”, esclarece. O sr. Picana, como é conhecido, adora participar nas filmagens e conviver com “esta coisa das câmaras.” “É muito bom para nós porque ganhamos um bom dinheiro. Pagam-nos 200 meticais por dia mas se formos para longe já são 700 meticais.”

Um dia em cheio de filmagens é um extenuante dia de trabalho. Pode começar por volta das 5,30 da manhã e prolongar-se até ao pôr-do-sol. Nem sei se alguma vez alguém contabilizou mas as palavras som, acção e corta são, seguramente, as mais pronunciadas. Talvez cheguem à centena naqueles dias em que as coisas não saem logo.

Horácio Novela, o segundo assistente de câmara, bate a claquete mais uma vez. Logo a seguir vem a palavra mágica: acção! É só mais uma.

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