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Fixem este nome Lashkar-e-Taiba

Usado pelos serviços secretos paquistaneses como arma para controlar o Afeganistão e destruir a Índia, o Exército dos Puros já é considerado “tão ou mais perigoso do que a Al-Qaeda”. Ashley J. Tellis, senior associate do Carnegie Endowment for International Peace em Washington, foi chamado este mês ao Comité de Relações Externas da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos para avaliar o grau de ameaça do Lashkar-e-Taiba (Exército dos Puros).

A conclusão a que chegou foi lida logo no início da audiência: “Depois da Al-Qaeda, o LeT é o grupo terrorista mais importante e com um alcance global, a operar a partir da Ásia do Sul.” A revista Newsweek, numa das mais recentes edições, já havia feito soar o alarme, citando outros analistas: “O LeT poderá ser uma ameaça maior do que a Al-Qaeda devido à sua sofisticação tecnológica, a uma rede mais vasta de recrutamento e angariação de fundos, aos laços estreitos com protectores no Governo paquistanês e ao facto de permanecer um alvo de perfil baixo para a espionagem ocidental.”

À semelhança da organização de Osama bin Laden, o LeT tem uma ideologia jihadista centrada em estabelecer um “califado islâmico universal”, de Lahore a Londres. Ao contrário da Al-Qaeda, porém, não é um grupo terrorista apátrida, notou Ashley J. Tellis, um dos maiores especialistas em questões de segurança. Os membros do LeT são, na maioria, paquistaneses; a sua principal base de operações é o território paquistanês; o seu grande patrono continua a ser o Estado paquistanês, em particular o Exército e o directório dos serviços secretos, Inter-Services Intelligence (ISI).

O LeT, braço armado do Markaz Dawat-ul Irshad (MDI) ou Centro de Proselitismo e Prédica, existe desde 1987, mas só em 26 de Novembro de 2008, por alguns classificado como “o 11 de Setembro indiano” – uma série de atentados terroristas em Bombaim/Mumbai de que resultaram pelo menos 173 mortos e 308 feridos, entre eles 26 estrangeiros de 15 nacionalidades -, é que o mundo testemunhou a sua força letal. O MDI foi fundado por Hafiz Mohammed Saeed e Zafar Iqbal, numa altura de grande efervescência islâmica no Paquistão, durante a ditadura militar de Zia ul- Haq (1977-88).

Este general ter-lhe-á terá oferecido o terreno para o seu quartelgeneral e centro teológico, mais tarde construídos com dinheiros de Bin Laden, em Muridke, nos arredores de Lahore. Apostado numa educação religiosa mais especializada, incluindo aulas de ciência e inglês, do que os seminários tradicionais (madrassas), o MDI, rebaptizado Jama”at-ud-Dawat (JuD) após uma cisão, combinou sempre os conceitos de da”wat (ensino) e jihad (guerra santa), o que facilitou o recrutamento de combatentes para o LeT. Durante muito tempo, o LeT foi visto apenas como mais um dos vários grupos de guerrilha na Caxemira. No entanto, lembrou Ashley J. Tellis, o LeT “nunca fez parte da insurreição indígena” no território de maioria muçulmana perdido pelo Paquistão em 1947, quando o monarca hindu de Jammu e Caxemira optou por manter estes dois estados na Índia, após a divisão da jóia do império britânico.

Do Afeganistão à Caxemira

A maioria dos membros do LeT provém do Punjab, e é precisamente a sua origem punjabi (como a de muitos oficiais paquistaneses), a lealdade ao Estado, a “ideologia inflexível” e a forma intrépida de combater que tornou este grupo “tão atractivo” para o ISI. As primeiras operações de guerrilha ordenadas pelo amir (chefe) Hafiz Saeed ocorreram nas províncias afegãs de Kunar e Pakhtia, onde o LeT já tinha vários campos para treinar mujahedin na guerra (1979-89) contra os invasores soviéticos – campos que depois seriam incorporados na rede da Al-Qaeda. A missão primeira do LeT era “expulsar os infiéis” comunistas de um país islâmico, mas os seus mentores, os generais Akhtar Abdur Rahman e Hamid Gul, directores- gerais do ISI na época, ambicionavam mais.

“Controlar o Afeganistão foi um objectivo que dominou as políticas estratégicas de Islamabad durante os anos 1980 e 1990”, declarou Tellis, num anterior depoimento em 2009, perante o Comité de Segurança Interna do Senado norte-americano. A derrota infligida pelos mujahedin apoiados pelo ISI à URSS incentivou parte do establishment militar paquistanês a “prosseguir um desígnio ainda maior: a destruição da Índia”. O ISI começou a transferir a área de acção do LeT do Afeganistão para a Caxemira, em 1993, quando percebeu que poderia mais facilmente controlar o Lashkar-e-Taiba do que uma débil organização de resistência local, como a Frente de Liberta- ção de Jammu e Caxemira, facilmente esmagada pelas forças indianas quando se sublevou em 1989.

Fiéis da doutrina wahhabita (Saeed e Iqbal formaram-se em Medina, na Arábia Saudita), os radicais do LeT introduziram “uma brutalidade sem precedentes nas suas operações militares, porque não tinham quaisquer afinidades com a população local”, observou Tellis. Numa entrevista, em 1999, Saeed disse que a Caxemira era “a porta de saída para conquistar a Índia”, e prometeu que o LeT não iria parar até que a Índia seja “integrada no Paquistão”. Para atingir estes objectivos, o ISI ofereceu-lhe, segundo Tellis, “um forte apoio operacional, material e financeiro – incluindo bases no Nepal, no Sri Lanka e no Bangladesh”.

A convicção, entre os militares paquistaneses, era a de que “a guerra nunca poderia ser ganha se as hostilidades se confinassem a Jammu e Caxemira”. Assim, com a bênção do ISI, o LeT, membro da Frente Islâmica Mundial de Bin Laden, expandiu a luta armada a outras regiões da Índia: ataques em Nova Deli, em 2001 (um arrojado assalto ao Parlamento) e 2005; em Bangalore, em 2005; em Varanasi e Nagpur, em 2006; em Bombaim/Mumbai, em 2006 e em 2008.

A Hollywood indiana

Embora em Julho de 2006 as sete bombas que destruíram vários comboios em Bombaim tenham causado mais vítimas (209 mortos e 700 feridos), “a audácia, complexidade e diversidade de alvos” dos atentados de Novembro de 2008 mostraram que o LeT passou a outro nível na guerra contra a “aliança de cruzados, sionistas e hindus”, constatou Tellis, num relatório da Rand Corp., de que foi co-autor. A cidade que é centro de negócios, entretenimento e moda, considerada pelos indianos “o seu Wall Street, a sua Hollywood, o seu Milão”, ficou paralisada ao longo de 60 horas.

Os terroristas chegaram por mar, para evitar os postos de controlo nas fronteiras terrestres e aéreas. Usaram armas sofisticadas e tecnologia topo de gama para localizar os seus alvos. Atacaram em simultâneo dez símbolos de modernidade e prosperidade, designadamente, os hotéis Oberoi Trident e Taj Mahal Palace & Tower, o emblemático Leopold Cafe, frequentado por turistas, um cinema e um centro judaico. O LeT negou o seu envolvimento, mas o único atacante capturado com vida incriminou a organização de Hafiz Saeed.

Em Outubro de 2009, um americano de origem paquistanesa, David Coleman Healey, foi preso em Chicago, sob a alegação de ter colaborado com o LeT (e com o ISI) nos atentados em Bombaim/Mumbai. Planearia igualmente um ataque contra o jornal dinamarquês que publicara caricaturas de Maomé em 2005. Informações extraídas a Healey pelo FBI permitiram que o Bangladesh detivesse, posteriormente, vários operacionais do LeT que estariam a preparar- se para fazer explodir as embaixadas dos EUA e da Grã-Bretanha em Dacca. O LeT terá oferecido, sem condições, os seus campos de treino e fundos a todos os jihadistas interessados em atacar na Europa ou na América, em combater no Iraque e no Afeganistão.

Continuará a dar abrigo a fugitivos da Al-Qaeda e estará a cooperar com os taliban, apesar das diferenças teológicas que os separam. Os taliban são deobanditas, seguidores da escola hanafita de jurisprudência sunita, enquanto o LeT pertence à seita Ahl-e-Hadith (Povo das Tradições do Profeta) que só aceita o Corão e as palavras e actos de Maomé, rejeitando como “imitações” as escolas do direito islâmico.

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