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Festival nacional de talentos desperdiçados

Festival nacional de talentos desperdiçados

Quando foi criado há 33 anos, o maior encontro de jovens estudantes que acontece de dois em dois anos na pérola do Índico tinha como um dos seus objectivos ser o viveiro onde germinariam novos atletas. Para nossa infelicidade, nas últimas edições é cada vez mais evidente a ruptura no aproveitamento dos talentos, de forma a completar-se o ciclo escola, formação e alta competição.

Quem presenciou a competição, durante os nove dias do 10º Festival que decorreu na província de Maputo, e viu as finais renhidas e disputadas até ao apito final renova a convicção de que os talentos existem por todo este enorme país.

Jovens como Vanélia Alberto, a capitã das zambezianas que conquistaram o ouro no futebol, que tem 15 anos e joga num clube do campeonato provincial, o ABC.

Vanélia está a fazer o ciclo de progressão normal – começou a jogar em Marromeu, despontou nas mini-ligas, jogou no Bebec e agora está num clube pequeno da sua província mas sem futuro – e, tal como milhares dos estudantes que têm passado pelo Festival dos Jogos escolares não vai chegar ao desporto de alta competição.

Edilson Manuel é um dos campeões de basquetebol masculino deste festival. A sua selecção, da província de Nampula, derrotou a selecção de Manica por 80 a 77 depois de ter estado a perder grande parte da partida. Foi uma final disputadíssima e, quem assistiu, pôde presenciar bons momentos de basquetebol.

Onde estava o seleccionador nacional dos sub 16 que não viu estes, nem os outros jovens que vieram mostrar o seu potencial? Ainda recentemente as selecções sub-16 de Moçambique, de masculinos e femininos, fizeram participações desonrosas em campeonatos africanos da bola ao cesto.

Com 16 anos de idade, dez dos quais a jogar no Ferroviário de Nampula, Edilson foi o patrão da sua equipa e marcou os pontos que garantiram as medalhas de ouro, e a taça.

O seu clube não disputa o campeonato nacional de basquetebol e por isso ele vai continuar a sonhar com o dia que um dos tradicionais clubes de Maputo o descubra para fazer carreira profissional. Na selecção sub-16 é que já não poderá brilhar.

Em Quelimane todos os fins-de-semana Hélio Amade e um grupo de amigos encontram-se para fazerem aquilo de que mais gostam: jogar andebol. Com 17 anos, Hélio é um andebolista que se destaca dos demais.

A sua selecção ficou com a prata neste festival, numa final vencida pela província de Maputo pela margem mínima: 19 a 20 golos foi o resultado. Ele é rápido, forte, com alto poder de impulsão e principalmente apaixonado pelo andebol.

Na Zambézia não existem clubes que pratiquem andebol, nem mesmo na sua escola Hélio joga andebol. Este foi o seu último festival escolar, para o ano talvez consiga entrar para uma universidade na capital do país onde possa continuar a jogar.

A única certeza que ele tem, depois da final do 10º Festival dos Jogos Escolares, é que vai continuar a jogar andebol até ao dia da sua vida não importa que esteja num clube ou apenas com os seus amigos.

No final de mais um festival, que custou mais de 30 milhões de meticais (custou porque não foi investimento em nada que vá dar frutos no futuro), ficam as mesmas perguntas já habituais das edições anteriores: que aproveitamento efectivo vai ser feito das centenas de talentos que foram revelados?

Qual é a cadeia de aproveitamento e continuidade do desporto escolar a alta competição? Que atletas-referência temos hoje nos nossos clubes e selecções nacionais que tenham partido dos Jogos Escolares? Infelizmente creio que daqui a dois anos, quando terminar o próximo festival em Tete, estas perguntas continuarão sem resposta.

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