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Falta consciência na população para tratar do lixo

Falta consciência na população para tratar do lixo

A limpeza dos bairros suburbanos da cidade de Maputo sempre deixou a desejar, apesar da criação de associações para a recolha de resíduos sólidos, apoiadas pela edilidade, porque o “conceito” saneamento do meio ambiente ainda não faz parte das práticas diárias dos cidadãos, segundo Fabião Sitoe, presidente da Associação de Água e Saneamento do Bairro da Urbanização (ADASBU), pioneira da iniciativa de recolha do lixo a nível dos bairros. Ele disse ao @Verdade que a urbe está infestada de lixo por causa da falta de consciência em relação à higiene por parte da população, e não devido à ineficácia das autoridades municipais.

@Verdade (@V): Como é que surge a Associação de Água e Saneamento do Bairro Urbanização (ADASBU)?

Fabião Sitoe (FS): A ADASBU surge na altura das enxurradas do ano 2000. O bairro da Urbanização foi o terceiro mais afectado a nível de Maputo. Na altura, apareceu um grupo de Médicos Sem Fronteiras que se ofereceu a dar apoio e quando chegou à “Urbanização” comunicou às estruturas sobre o plano, que tinha a ver com o controlo do nível freático de água e de doenças como a cólera.

@V: O que é que os médicos faziam de concreto quando cá chegaram?

FS: Os médicos tinham uma diversidade de actividades: propuseram a construção de uma vala de drenagem que minimizou o problema do nível freático de água. Antes, quando chovia, o bairro ficava inundado e o solo demorava a absorver a água. Depois da construção de valas, a situação mudou. Tínhamos 15 fontanários e apenas dois funcionavam. A ADASBU recuperou alguns. A água não subia até às torneiras da região. Outra actividade que os médicos iniciaram foi a recolha de lixo através de “txovas” (carrinhas de mão cuja circulação depende da força braçal).

Começámos com uma, em regime experimental, e mais tarde aumentámos. Esta actividade é realizada a nível do bairro da Urbanização. Esvaziamos latrinas e fossas dentro e fora do bairro (…). Para fazer este trabalho nós temos um grupo de activistas que anda de casa em casa a sensibilizar as populações sobre como se precaverem de doenças. No princípio, os médicos ofereceram latrinas melhoradas à população, pois no bairro da Urbanização as pessoas tinham boas casas, mas faltava-lhes boas latrinas: as pessoas faziam latrinas usando pneus ou tambores. Hoje em dia, posso- -lhe assegurar que ninguém vive nessas condições.

@V: Quanto tempo trabalharam com os Médicos Sem Fronteira?

FS: Os Médicos Sem Fronteira chegaram cá em 2000 e saíram três anos depois. Eles doaram as instalações que hoje temos. Não temos nada adquirido com os nossos fundos. Salvo em situações de avaria de tractores ou “txovas”, aí temos de pedir ajuda para a sua reparação. Os nossos trabalhos não são lucrativos. Fazemos trabalhos com recurso a valores simbólicos, sobretudo quando se trata de recolha de resíduos sólidos, que é totalmente grátis. Apesar de não se cobrar nada pela recolha do lixo, celebramos contratos com pessoas que são remuneradas para realizarem certos trabalhos.

@V: Há trabalhos que são realizados apenas para benefício do bairro da Urbanização? Quais são?

FS: A recolha de lixo tem em vista o bairro da Urbanização. O saneamento abrange outras partes porque somos os únicos que desempenhamos este papel de recolha de lixo.

@V: Têm apoio ou parceiros governamentais?

FS: Não. Apenas temos a prerrogativa de interagir com as Organizações Não-Governamentais para nos apoiarem onde puderem, mas, neste momento, não estamos a receber nenhuma. Temos dificuldades em reparar nossos instrumentos de trabalho. Por exemplo, quando é um tractor ficamos muito tempo sem trabalhar e temos de recorrer a entidades como o município de Maputo. Outro exemplo do trabalho que fazíamos era a distribuição de água, que parámos desde o ano passado porque a actividade foi retomada pelas Águas da Região de Maputo.

@V: Falou da recolha de lixo, uma actividade que exercem desde a criação da agremiação. Depois da recolha, onde é depositado o lixo?

FS: Temos alguns contentores dentro do bairro onde o lixo é depositado, mas os contentores são depois removidos para a grande lixeira por uma empresa contratada pelo Conselho Municipal de Maputo.

@V: Na sua opinião, acha que o Governo está a dar prioridade à recolha do lixo a nível de Maputo?

FS: Eu creio que sim, porque tudo faz para a minimização do saneamento. Temos aqui perto o MICOA, por exemplo, que ajuda na sensibilização para a recolha do lixo nos bairros periféricos. Achamos que o Governo, ao fazer isso, fá-lo com a intenção de ajudar a comunidade.

@V: Quando se apercebe da situação de bairros como Maxaquene, Mafalala, Chamanculo e outros, continua a pensar que o Governo está a melhorar o saneamento para a população que lá mora?

FS: Isso é aparência. Olha que a sua pergunta tem a resposta. A população a produzir e a espalhar o lixo. Esta culpa não é muito bem do Governo, porque se eu produzo lixo e não sei levá-lo aos contentores, o problema já não é do Governo. Este criou condições e em cada espaço há um contentor para se depositar lixo e, como isso não bastasse, ainda criou microempresas que se encarregam da sua recolha. (…) Eu posso sair contigo, agora, para qualquer contentor e vamos encontrar crianças a carregarem lixo para os contentores mas elas não depositam o lixo dentro dos contentores.

E eu pergunto: será que é culpa do Governo? A questão é: a comunidade constitui boa parte do caos, participa no atentado contra a própria saúde. A criança espalha o lixo. Tanto ela como o mandante participam na criação do lixo. (…) Portanto, partindo deste princípio, eu tenho dificuldades em dizer que o Governo nada faz. Acho que nós, quando somos desleixados, também fazemos parte do problema. @V: Quando o lixo não é depositado no lugar certo quais são as implicações que o mesmo pode trazer para a saúde pública? FS: Contrair doenças. Doenças como malária e cólera contraem-se por falta de higiene, mas as pessoas levam muito tempo a perceber esses aspectos, que parecem pequenos mas são muito importantes.

@V: Quais são os custos do vosso trabalho?

FS: Como disse anteriormente, os nossos trabalhos não são lucrativos. No trabalho de limpeza de fossas, por exemplo, nós cobramos um valor abaixo do valor real a nível do bairro da Urbanização, 300 meticais, mas quando se trata de fazer um trabalho fora do nosso bairro cobramos 450 meticais. Este dinheiro não cobre as necessidades porque o funcionamento e a circulação da máquina com a qual realizamos esse trabalho custa dinheiro. Há gastos de manutenção, tais como peças, óleos, etc. Apesar disto tudo, estamos cientes de que a nossa existência não visa obter lucro.

@V: Tem ideia de quais seriam os bairros com mais e menos problemas de saneamento na cidade de Maputo?

FS: É muito difícil classificar os bairros em melhores ou piores condições. A razão é simples: se a pergunta fosse, por exemplo, nas épocas chuvosas, quais os bairros que registam mais problemas. Eu diria que é o bairro de Maxaquene “A”. Esta zona tem um nível freático elevado. Basta pouca chuva para o bairro ficar submerso. É verdade que se trata duma questão de saneamento, mas não é possível resolver o problema com facilidade porque faltam acções fortes. Quando chove, as latrinas transbordam, espalhando doenças. Temos crianças que brincam sobre aquela água. A nível do bairro da Urbanização este problema está minimizado.

@V: Então, voltando à questão que coloquei anteriormente, sobre se o Governo está ou não a fazer o seu papel. Acha que a população ou uma associação está em condições de reestruturar aquele bairro?

FS: Não só uma associação, como também do lado do Governo existe preocupação para o efeito. Tem havido orçamento, mas todos sabemos que a cidade é grande. Há algumas prioridades para certos bairros e outros parecem que ficam atrás, mas o sofrimento é o mesmo. Eu penso que o Governo devia disponibilizar um fundo destinado apenas a minimizar os problemas do bairro da Maxaquene, que passa necessariamente pela construção de valas de drenagens. A culpa não é da população de Maxaquene, mas não vamos também atirar a culpa toda ao Governo, porque alguma coisa tem feito, mas se calhar não é satisfatória.

@V: Já não distribuem água pelos bairros e esse papel já é do Governo, mas há zonas aqui no bairro da Urbanização que continuam sem água.

FS: O que tem acontecido é que há algumas zonas que, apesar de termos torneiras, a água não chega às casas. Isso é uma realidade dentro do nosso bairro, o problema é canalizado aos responsáveis e alguma coisa tem sido feita. A região chamada “Magude” regista muito desses problemas, mas estão a ser minimizados sem a intervenção da ADASBU.

@V: Na sua opinião, sendo uma pessoa que trabalha no saneamento e tem experiência no que diz respeito à água, quais seriam as soluções para manter os bairros limpos, incluindo os esgotos?

FS: Não cuidamos de esgotos, essa não é nossa área. É-nos difícil fazer a limpeza de esgotos porque são tubos colocados há muitos anos, aquando da construção de grandes estradas, como as avenidas Acordos de Lusaka e Angola. Há prédios com esses problemas de esgotos mas nós não intervimos porque não é a nossa especialidade.

@V: Quais são os projectos e metas que a ADASBU tem?

FS: Se calhar não é possível falarmos de metas da associação porque nós existimos mas não dependemos de nós mesmos. Esse é que é o problema. É difícil estabelecer uma meta naquilo que para a gente conseguir tem de estender a mão. Por vezes, apresentamos projectos e não temos o apoio de ninguém (…).

@V: A associação confronta-se com a falta de pagamento de trabalhadores de limpeza?

FS: Não, porque os trabalhadores ligados à recolha de resíduos sólidos e saneamento são pagos pelo Conselho Municipal de Maputo. Para além de salários, temos problemas de avarias das nossas máquinas, pois são velhas e não temos dinheiro para a sua reparação.

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