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Erapala: Os talentos do subúrbio

Erapala: Os talentos do subúrbio

Nas zonas mais recônditas da província de Nampula existem vários jovens talentosos que, devido a factores económicos, sociais e políticos, não são bem-sucedidos. Situação similar acontece com o Grupo de Dança Erapala, da vila municipal de Monapo, que se dedica à produção coreógrafa de danças tradicionais. O problema é que na sua urbe a promoção das artes continua um tabu.

Entrevistámos os membros do Grupo de Dança Erapala que se dedicam à produção coreógrafa de danças tradicionais no município de Monapo. Aquele agrupamento é um dos mais antigos da província de Nampula e ainda persiste em desenvolver as danças tradicionais, ao mesmo tempo que revitaliza a cultura dos seus antepassados.

A colectividade foi fundada em 1959, por um grupo de nativos da vila municipal de Monapo, com o objectivo de animar as noites dos portugueses. Na altura, com apenas oito membros, este grupo de artistas actuava num contexto em ligado às vésperas do início da luta de libertação nacional. As coreografias baseavam-se em factos vividos na época em que o nosso país se encontrava sob a dominação do sistema colonial português.

O sofrimento da população e as humilhações perpetradas pelos colonialistas inspirava os integrantes daquele agrupamento cultural, fazendo com que gerassem as suas obras e manifestações artístico-culturais. As danças eram acompanhadas por tambores e batuques que animavam e enriqueciam os conteúdos abordados. Depois de os seus membros se esforçarem muito esforço na sua actividade, o Grupo de Dança Erapala começou a ganhar terreno e atenção dos colonialistas portugueses.

A sua influência tornou-se importante de tal sorte que acabou por ser usada para vigiar e controlar os passos dos portugueses. Com o início da guerra de libertação nacional, o agrupamento viu-se obrigado a encerrar as portas, pois já não podia dançar com o som das armas. Alguns integrantes da colectividade foram recrutados para fazer parte do exército das forças dos movimentos de libertação nacional que se uniram para fundar a Frelimo.

A guerra que durou 10 anos desmembrou os integrantes do Grupo de Dança Erapala. Porém, com o cessar-fogo, voltaram a unir-se e, novamente, surgiu o agrupamento, na altura, mergulhado em várias dificuldades uma vez que acabava de terminar o conflito. A falta de instrumentos musicais como, por exemplo, batuques e tambores, foi o que mais defraudou o Grupo de Dança Erapala

.“É um calvário viver numa vila onde a promoção da cultura continua a ser deficitária. Nós somos pouco conhecidos pelo povo, embora tenhamos fundado o grupo há muitos anos. Por isso, diariamente, lutamos para que o nome do nosso agrupamento se torne imortal”, refere Albino Joaquim, representante da colectividade.

Após a proclamação da independência nacional, em 1975, o grupo voltou a desenvolver as suas actividades. Desta vez, com mais garra e dedicação, o agrupamento iniciou uma nova temporada, livre das humilhações do sistema colonial. Com a independência nacional proclamada, Erapala viu-se obrigado a mudar de ângulo de abordagem nas suas melodias e coreografias.

Afinal, para os integrantes já não fazia sentido nenhum contestar a escravidão recém-terminada. Dentre as várias sugestões propostas pelos membros a que venceu foi a de se fazer da dança uma forma de diversão salutar. Novos movimentos harmoniosos do corpo e da mente foram introduzidos a fim de se fazer face ao novo contexto sociopolítico e cultural do país.

“Depois de renascermos, as dificuldades eram enormes e, nas nossas coreografias, já não podíamos ilustrar o sofrimento por que passámos no tempo colonial. Desta vez, a dança era mais potenciada pelos valores desportivos e da ginástica a fim de se promover bons hábitos de saúde de forma divertida”, explica Joaquim.

Deste então, a colectividade sonhava em representar a província de Nampula em festivais de dança em vários lugares do país. E, se tal actividade fosse remunerada, os bailarinos sentiam-se estimulados.

Movidos pelo entusiasmo de concretizar esse ideal, anualmente, participavam em diversos concursos nacionais que juntavam artistas talentosos originários dos bairros suburbanos.

O sonho só veio a ser concretizado em 1975, o ano da proclamação da independência nacional, em que os membros do grupo actuaram na cerimónia em representação da província de Nampula. Recorde-se que no referido evento juntaram-se agrupamentos culturais provenientes de diversos pontos de Moçambique.

“Sempre sonhámos em representar a chamada capital do norte em qualquer evento cultural. Embora estejamos situados num subúrbio, temos o orgulho de fazer parte do mosaico cultural da província de Nampula. Portanto, com um pouco de sorte, conseguimos expor as nossas danças na cidade de Maputo, a capital do país”, afirma Joaquim.

Em nome da província de Nampula, os Erapala actuaram a convite num evento organizado pelo Governo em que surpreenderam os governantes com as suas performances e estilo de dança. Porém, a sua participação no referido evento não estava condicionada a nenhum tipo de remuneração.

“Participámos por uma questão de honra e não de dinheiro”, refere Joaquim. Depois de mais uma etapa alcançada, a colectividade nunca mais observou algum tipo de interregno. O drama é que, actualmente, enfrenta dificuldades financeiras para gravar os seus trabalhos discográficos.

Constituído por quatro instrumentistas e quatro bailarinos que, igualmente, são vocalistas, o Grupo de Dança Erapala também almeja chegar a altos patamares do activismo artístico-cultural no país. A necessidade de se tornar uma referência em Moçambique, realizar shows no estrangeiro e promover a sua cultura nos pontos recônditos da pátria-amada são alguns planos que continuam a ser um verdadeiro desafio para os integrantes do Grupo de Dança Erapala.

“As danças tradicionais estão a desaparecer”

Na província de Nampula, os grupos que se dedicavam à produção coreógrafa de danças tradicionais tendem a extinguir-se, no entanto, desconhecem-se as causas do fenómeno. É por essa razão que Albino Joqauim, o representante da colectividade, suspeita que o problema seja causado pelo desenvolvimento socioeconómico que se verifica em Nampula.

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