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Era uma vez… um vencedor

Era uma vez... um vencedor

Na sua ânsia por um futuro melhor, muitas vezes, os pais procuram – a todo o custo – definir as profissões a que os filhos se devem dedicar. O drama é que, para os descendentes, tais escolhas impostas nem sempre significam bem-estar. Ao longo da sua carreira, o autor da melhor canção moçambicana do ano 2013, Stélio Mondlane, contrariou os ditames da mãe a fim de trabalhar na música e, da primeira vez que concorreu, venceu o Ngoma Moçambique. Estimado leitor, a seguir, apresentamos a conversa travada consigo…

@Verdade: Na sua primeira participação no Ngoma Moçambique, tornou-se vencedor. Como reagiu quando soube que era um dos laureados?

Stélio Mondlane: Acho que esta vitória representa uma experiência de aprendizagem muito ímpar. Fui um pouco ousado ao concorrer com a música “Ni Langui Wene”, tendo em conta que sou um artista ainda em fase de revelação. Também acredito que a primeira experiência – em tudo na vida – é sempre arriscada.

@Verdade: Porque foi arriscado concorrer com esta música?

Stélio Mondlane: É que normalmente se diz que não é sempre que a primeira experiência dá certo. No entanto, para se saber dos resultados que daí se podem produzir é preciso participar. Então, esta foi a sensação que tive quando resolvi participar no Ngoma Moçambique com a obra “Ni Langui Wena”. O meu receio em relação à conquista da vitória – com esta música – deve-se ao facto de que ainda estava numa fase de experimentação.

@Verdade: Fale-nos sobre a história da criação deste tema.

Stélio Mondlane: Criado em 2006, quando tinha apenas 16 anos de idade, o título “Ni Langui Wena” faz parte das minhas primeiras composições musicais. Recordo-me de que na altura, também fui nomeado um dos vencedores do Concurso Pequenos Cantores promovido pela Rádio Moçambique. Além disso, em 1998 frequentei a Escola Nacional de Música, onde aprendi a tocar instrumentos musicais.

@Verdade: Como fica a sua outra paixão – a capoeira.

Stélio Mondlane: Comecei a dedicar-me à capoeira entre 2002 e 2003, mas, estranhamente, apesar de tal relação ter sido interrompida, ainda tenho o desejo de praticá-la. Eu gosto de luta. As artes marciais e a música não têm diferença nenhuma – ambas requerem que se confronte determinados obstáculos. Na música ou mesmo na luta, qualquer distracção é fatal. Gostaria imenso de voltar a praticar a capoeira. Receio, porém, que por causa da natureza da actividade, posso sofrer algum acidente – o que pode colocar em causa a minha carreira musical.

@Verdade: Quando é que começa a envolver-se na música?

Stélio Mondlane: Canto desde a minha infância. No entanto, a minha relação profissional com a música iniciou em 2006 depois de, em 2005, aperfeiçoar o meu domínio sobre a bateria. Inicialmente tocava Jazz, tendo participado em vários concertos de especialidade no palco do Café e Bar Gil Vicente. Durante dois anos, estudei na Escola Nacional de Música, mas acho que, na verdade, o meu talento, o meu amor pela música, incluindo o domínio que possuo sobre os instrumentos, são atributos genéticos.

Por exemplo, na minha família, um dos meus tios e o meu irmão mais velho possuem algum envolvimento com a música. Um é músico e o outro é técnico de som. Cresci a ver, na minha casa, grandes figuras da música moçambicana como, por exemplo, Hélder Gonzaga, Stewart Sukuma que vinham realizar ensaios ou gravar as suas obras. Influenciado por este ambiente artístico, aos 14 anos de idade, comecei a fugir de casa a fim de participar nuns Jam Sessions, em que tocava alguns instrumentos musicais. No entanto, porque era miúdo, enfrentei muitas dificuldades para continuar a frequentar o referido programa, porque os meus pais não me deixavam.

Por isso, para mim, cantar foi sempre uma experiência desafiadora. Com um pouco mais de atrevimento e insistência, acabei por conseguir participar no Festival Umodja, realizado em Maputo. É nesse contexto em que começa a minha relação profissional com a música. Afinal, alguns anos depois, recebi o convite para fazer parte de uma das melhores bandas sul-africana de Hip Hop, a WXP. Lembro-me de que quando me solicitaram, inicialmente, era para actuar com eles ocasionalmente. No entanto, como os membros da colectividade apreciaram a minha actuação, acabaram por contratar-me.

Trabalhei com o grupo durante um bom tempo, antes de voltar para Maputo onde me associei a Stewart Sukuma. Todavia, o meu objectivo não era ficar definitivamente em Moçambique. Insistindo na mesma ideia, sempre teimosa, a minha mãe não queria que eu praticasse a música como profissão. Quando, em 2012, parei de ir à África do Sul, fundei um movimento que convencionei chamar Stélio Mondlane Project. Acho que essa é uma forma de afirmar que o Stélio Mondlane não caiu do céu. Estou há muito tempo na indústria musical. Já há bastante tempo procuro conquistar os palcos.

@Verdade: Além da oposição da sua mãe, que dificuldades enfrentou ao longo da carreira?

Stélio Mondlane: Há pessoas que não entendem nada de música. Por isso, pensam que tocar é fácil. No entanto, conforme disse, nós os músicos sabemos que qualquer distracção pode ser fatal. Há várias coisas que se deve ter em conta na produção musical. Por exemplo, a cadência, a respiração e o compasso são factores fundamentais que se devem ter em consideração. A minha grande dificuldade foi quando toquei com a banda WXP. Eles faziam Hip Hop e, contrariamente, eu só tocava Jazz. Escolheram-me para ser membro do grupo por causa da minha dedicação, mas ainda não tinha o domínio da cadência e da respiração. Aparentemente, o domínio sobre esta área é de importância miúda mas, para um bom músico, é essencial.

@Verdade: Como é que a sua mãe reagiu ao seu prémio? E como é que agora encara o seu envolvimento na música?

Stélio Mondlane: Ela já está diferente. A boa-nova do prémio foi uma experiência comovente. Fê-la reformular os seus princípios. No domingo passado, levei o prémio à Igreja a fim de que fosse abençoado. No entanto, o aspecto importante de tudo é que a minha mãe me pediu desculpas diante da comunidade, expressando o seu arrependimento pelo facto de não ter facilitado a materialização da minha relação com a música.

O prémio

@Verdade: Que sensação experimentou quando anunciaram o seu nome, na qualidade de vencedor de uma das categorias do Ngoma 2013?

Stélio Mondlane: Na verdade, eu não estava à espera de receber este prémio. Quando chamaram o nome de Albino Mbié, para o prémio Revelação Masculino, esgotaram-se as minhas esperanças. É que ele também estava numa fase de descoberta – o que significa que éramos dois laureáveis na mesma categoria. Comentei com a minha namorada, ao meu lado, que estava a perder a esperança. No entanto, para meu espanto, logo a seguir, soou o meu nome como o vencedor do Prémio Melhor Canção. Foi uma experiência emocionante.

@Verdade: O que retrata a composição vencedora?

Stélio Mondlane: A música fala de um homem que ama muito a sua esposa, mas, por causa de determinados atritos no relacionamento, ele sofre – o que o move a fazer uma declaração de amor, na esperança de melhorar a situação relacional: “Eu amo-te. É a ti que escolhi. Casa-te comigo”.

 

O primeiro disco

@Verdade: A sua cara é nova no Ngoma Moçambique e, imediatamente, sagrou-se vencedor.

Stélio Mondlane: É verdade. Há pessoas que pensam que eu caí no Ngoma e, imediatamente, ganhei o prémio, mas eu vinha a trabalhar muito, mesmo antes de concorrer. Apareci tarde porque ao longo dos anos estava a construir a minha personalidade. Não quis alargar a esfera de actuação da minha música antes de criar uma base sólida. Acredito que essa postura contribuiu para o meu crescimento, pois não faço música por competição.

@Verdade: Quando irá publicar o seu primeiro álbum?

Stélio Mondlane: O trabalho discográfico já esta quase pronto para ser publicado. Estamos a trabalhar para o efeito. No entanto, por causa das interrupções que tivemos, por causa das digressões com Stewart Sukuma, afastei-me um pouco do projecto. Presentemente, só faltam algumas finalizações em torno da capa para que, entre Junho e Julho, se lance o álbum.

@Verdade: Fale-nos sobre o álbum.

Stélio Mondlane: Chamar-se-á Mix Culture – o mesmo que mistura de culturas. Neste álbum pretendo incluir quase todos os ritmos de música africana ou moçambicana. Quero rebuscar o Afro-jazz moçambicano e o sul-africano, incluindo a Marrabenta e o Funk. Será constituído por 13 faixas musicais. @Verdade: Quem são os seus ídolos na música? Stélio Mondlane: É difícil definir porque – muito antes de actuar na área musical – escutava todos os estilos de música tocada por moçambicanos e estrangeiros.

@Verdade: O que vai fazer com o dinheiro do prémio?

Stélio Mondlane: Ainda não sei. Penso em investi-lo na minha carreira, comprando materiais indispensáveis na música.

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