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‘@Verdade EDITORIAL: Eles comem tudo

O Canal de Moçambique, na sua última edição, expôs a podridão que permeou a partilha das casas da Vila Olímpica. Os senhores de terra deste rochedo à beira-mar, obviamente proprietários de grandes fortunas, apressaram-se a ficar com uma parte das casas para os seus rebentos.

Entre os beneficiários está Alberto Chipande, Carmelita Nhamashulua, Deolinda Guezimane, João Pelembe, Raimundo Maico Pachinuapa, entre outros.

Porém, o director de planificação e investimentos, do Fundo de Fomento de Habitação, Borges da Silva, apressou-se, também ele, qual cachorro fiel, a afirmar descaradamente que as casas não são para estes antigos combatentes, mas sim para os seus filhos.

O que o director não compreende é que o filho de um sapateiro não goza das mesmas possibilidades que o descendente de um Governador, um Presidente do Conselho de Administração do Corredor do Desenvolvimento do Norte, uma Ministra da Administração Estatal ou da Defesa.

A suspeita, por mais que o bom do homem se desdobre em acrobacias intelectuais engenhosas, não se desprende. Aliás, cresce e ganha contornos de uma trapaça consentida. Porém, desmascarada pelo juízo de qualquer cidadão com dois dedos de testa.

Este tipo de desculpa esfarrapada fere com gravidade o bom nome de qualquer instituição, principalmente quando é veiculada de forma a manipular e a trucidar a inteligência dos moçambicanos.

Estes beneficiários são pessoas com posses e com várias mansões nos bairros mais “nobres” deste país. Ainda assim (a Constituição dá-lhes esse direito) não pretendemos, por isso, negar-lhes o direito à acumulação de propriedades. Contudo, não vemos qualquer vantagem para os cidadãos deste território nesse benefício desmedido de uns poucos.

Não cremos que os filhos destes, porque pegaram em armas, sejam mais moçambicanos do que os outros 22 milhões. Esse favorecimento denigre, emporcalha e envergonha não somente os que dele se beneficiam, mas o país. O pior é que, aos poucos, essa alarvice militante contamina tudo, numa viagem imparável por pântanos onde a decência, a honestidade e o patriotismo se afundam no lodo da ganância de um punhado de pessoas que pegaram em armas.

As coisas começam a ficar desfocadas. É que pensávamos que tudo o que foi conquistado foi arrancado a ferro e fogo, com lágrimas de todos, sacrifícios sobre-humanos das gentes do Rovuma ao Maputo, do Zumbo ao Índico. Foi assim que aprendemos. Aliás, como reza a sentença moral: “primeiro nos sacrifícios e último nos benefícios”. Aprendemos que a liberdade não foi uma dádiva de Deus.

Aprendemos que o país era de todos os moçambicanos. Não só dos que participaram na luta de libertação nacional, mas também dos que foram miseravelmente explorados nos campos, nas fábricas, nos armazéns, na construção. Os que apodreceram nas prisões.

Aprendemos que viveríamos num país sem medo e sem exploração. Aprendemos que este seria o país sem espaço para nenhum Xiconhoca. Aprendemos que este seria um país justo. Aprendemos que, nesta terra, ninguém seria rico à custa do suor dos outros.

Afinal, como os exemplos tratam de mostrar, aprendemos mal e o que reina, como bem disse o saudoso Zeca Afonso, na sua música “Vampiros” – ironicamente retratando o sistema colonial-fascista – “eles comem tudo e não deixam nada”…

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