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E se eles perderem a dignidade…

E se eles perderem a dignidade...

Mais de 20 anos de manifestações e contestações inglórias, ao que tudo indica, o que desgasta e frustra a vida de alguns cidadãos moçambicanos – mormente os ex-regressados da antiga República Democrática Alemã (RDA) – não é o alto custo de vida no seu país, nem as bebidas intoxicantes em que alguns afogam as suas mágoas, mas o reconhecimento de que a sua dignidade, como Homens, se perdeu na Europa. No entanto, reparar os danos que daí derivam envolve muito mais do que valores monetários. Saiba porquê…

Provavelmente, as construções sociais sobre o contexto que determinou a partida de alguns moçambicanos para a República Democrática Alemã nos finais dos anos de 1970 não sejam uma questão relevante para se debater. Mas, a par disso, não sei se seria correcto atribuir às situações que daí derivaram um valor desprezível.

Sabe-se, porém, que os envolvidos no tópico reiteram que “fomos à Alemanha não na qualidade de cidadãos, mas na qualidade de mão- -de-obra, para ser exacto, na qualidade de mercadoria!”, conforme escreveu Paulo Gwambe, o director do Centro de Produção de Artes Dramáticas na sua nova peça teatral Alemanha Cheira a Pétalas.

No mês passado, a obra que associa três actores em palco – Paulo Gwambe, o protagonista e que faz o papel de Ernesto, António Aquirasse e Kátia Balate (recém-formada pela Escola de Comunicação e Arte no curso de Teatro), foi exibida no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em estreia, e no espaço da FEIMA, devendo ser novamente exibido no próximo mês no “Franco-Moçambicano” em reconhecimento ao seu impacto social.

De qualquer maneira, ainda na concepção do autor que estamos a citar, se a permanência do referido grupo de moçambicanos na Alemanha (nos anos de 1980) foi, em certo grau, benéfico para os Estados Alemão e Moçambicano, o mesmo já não se pode afirmar categoricamente em relação à comunidade dos ex-regressados da RDA.

É que, segundo se afirma na peça, “da promessa inicial de formação profissional em áreas como carpintaria, mecânica, electricidade e outras áreas industriais para ao voltar à mãe-pátria assumir posições de liderança na modernização da indústria, passou a resumir-se em lições rápidas de Alemão, apenas para os moçambicanos perceberem as instruções dos chefes alemães”.

Distúrbios mentais entre outros males

Na verdade, a história que o Centro de Produção de Artes Dramáticas retrata em Alemanha Cheira a Pétalas, por meio da peça com o mesmo título, pode ser uma denúncia de uma série de distúrbios e complicações que, em função dos problemas insolúveis que os ex-regressados da Alemanha enfrentam no país, lhes atormentam a mente. Mas, antes, vale a pena reiterar que nem tudo é tão negativo assim.

Para Ernesto, a metáfora de Moçambique, o seu amor com uma cidadã alemã, com quem teve dois filhos antes de regressar representa a comunhão do seu país com a Alemanha. Tratou-se de uma relação em que “cada um de nós deu tudo de si ao outro como se cada um fosse a metade do outro”.

Empolgado nas suas memórias de amores e eternas nostalgias, o personagem prossegue: “sonhamos um lar, não apenas para duas pessoas mas também para duas nações. Sonhamos uma família por isso tivemos (…) dois filhinhos mulatos”.

No entanto, em tudo isso, o mais melancólico é que, vezes sem conta, no seu país, Ernesto é impelido a reconhecer que enquanto a sua família vive na “prosperidade da Europa, sem imaginar sequer o cruel destino do pai, aqui em Moçambique” é como se a luz do sol aparecesse todos os dias sem iluminar a sua alma. É por isso que, gradualmente, a personagem morre de forma lenta, progressiva e degradante.

Como tudo começou?

Em 1979, um grupo de cidadãos moçambicanos partiu para a Alemanha Socialista, onde iria beneficiar de uma formação em diversas áreas estratégicas para o desenvolvimento do seu país. Sucedeu, porém, que, dez anos depois, com a queda de Muro de Berlim que separava a Alemanha em duas partes antagónicas – a capitalista e a socialista –, o que aconteceu em 1989, o contrato entre os Governos moçambicano e alemão cessou com a unificação do país.

A consequência imediata do feito foi o repatriamento dos moçambicanos para o País da Marrabenta, a partir do início dos anos de 1990. A formação de alguns dos referidos cidadãos foi parcial.

Como tal, de regresso ao seu país, mesmo que o nível de desenvolvimento local já permitisse a absorção da nova mão-de-obra então injectada, provavelmente a produção seria lacunosa. Mas isso é outro assunto.

O facto é que, naqueles anos, como continua a acontecer, “procurar emprego em Moçambique em especial na cidade de Maputo” não diferia de “procurar uma mulher virgem numa rua frequentada por prostitutas à noite”, como se refere na obra.

Mas antes, Ernesto, o protagonista da peça em representação do referido grupo social tinha-se envolvido com uma mulher moçambicana que nada mais fez do que explorar os seus bens e abandoná-lo. Diante do interesse materialista de tal mulher, Ernesto nada mais fez do que se deixar instigar a vender os seus bens para satisfazer os seus caprichos.

Pior ainda, quando o homem se mostrava financeiramente débil a mulher (na verdade exploradora) não desistia. Foi nesse contexto que, em certa ocasião, a personagem afirmou que “vão dar. O dinheiro é meu! Foram 12 anos de trabalho em que descontava Marcos! O dinheiro está lá!”. A par disso, engendrava-se um processo contínuo e inglório marcado pelas idas e voltas ao Ministério do Trabalho e à Embaixada da Alemanha em Moçambique.

Nestas circunstâncias e, sobretudo, porque para si a sua esposa e filhos, e o seu trabalho se encontravam na Alemanha, então, a sua dignidade como homem encontrava-se naquele país europeu. Daí que o seu sonho era regressar à Alemanha. Que pena! Nem isso conseguiu fazer. Acabou por tornar-se alcoólatra, tendo encontrado a morte algures em Maputo.

Confortar no desconforto

Na verdade, Alemanha Cheira a Pétalas é uma obra de teatro que surge no contexto das actividades da Kutsemba Cartão – uma editora do livro de cartão – que, presentemente, pretende diversificar a oferta de manuais explorando outros campos de abordagem editorial, com destaque para em a narrativa infantil, o ensaio e, agora, o teatro.

Neste campo a Kutsemba Kartão já publicou os livros Mulher Asfalto (um monólogo interpretado pela actriz moçambicana Lucrécia Paco) e Dulcineia e o Cavaleiro.

A Alemanha Cheira a Pétalas é uma peça teatral que retrata as vivências de um grupo social moçambicano que merece alguma atenção no espaço social, sobretudo porque “ele tem objectivos claros e, por isso, faz uma oposição verdadeira ao Governo”.

Para o elenco da obra está- -se diante de “uma história forte para trazê-la em livro e em forma de artes cénicas”. O seu carácter surpreendente nos públicos que assistiram à peça, depois da estreia ocorrida no Centro Cultural Franco-Moçambicano e depois no espaço do FEIMA, valeu ao Centro de Produção de Artes Dramáticas, a entidade mentora, um contrato para realizar exibições no mês de Junho, em Maputo.

Outro aspecto não menos importante é a possibilidade que o Centro de Produção de Artes Dramáticas conquistou no sentido de editar e publicar um livro sobre a história dos ex-regressados da antiga RDA. Esta iniciativa será financiada pelo Instituto Cultural Moçambique- Alemanha (ICMA).

Convenhamos, então, que se afirme que Alemanha Cheira à Pétalas é uma história forte na medida em que “toca na saga de uma minoria social que reivindica os seus direitos, não no sentido de feri-la”.

Assim, “pensamos que a comunidade dos ex-regressados da RDA entendem esta obra como uma forma artística de mostrar a sua reivindicação a quem de direito, o que, em certo sentido, significa que ela complementa a sua luta e, por conseguinte, ampara-lhe”, comenta o director do Centro de Produção de Artes Dramáticas.

De qualquer modo, “é preciso perceber que a história dos ex-regressados da Alemanha está inserida num contexto de muitas complicações que dificilmente serão decifradas, por parte do Governo Moçambicano assim como do Alemão”.

Enfim, no âmbito da semana internacional do trabalhador, nada mais nos resta a considerar do que assumir que os ex-regressados da RDA foram trabalhadores e, nos dias que correm, além do emprego lutam pela preservação da sua dignidade.

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