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Dona Sebastião nas barracas do Museu

Dona Sebastião nas barracas do Museu

 

O novo livro do escritor moçambicano Lucílio Manjate, publicado recentemente, retrata as peripécias que alguns moçambicanos vivem nas barracas do Museu, na cidade de Maputo. E tem como título A Legitima Dor da Dona Sebastião.

 

Trata-se de uma obra que além de relevar a história singular da Dona Sebastião, acaba por imortalizar a experiência do dia-a-dia de parte dos moçambicanos que encontram naquele complexo comercial, um contexto para lutar pela sobrevivência.

Essas barracas representam as chagas dos nossos antepassados, os problemas que inquietam a geração actual que é vítima das várias peripécias que se registam naquela lugar com incidência nas sextas-feiras.

A narrativa é sobre a Dona Sebastião, mulher cuja rotina marcada pela labuta para a subsistência inicia nos primeiros anos da independência nacional, em 1975.

Mas o que há de legítimo na Dor da Dona Sebastião? Os homens sentam no asfalto e no passeio. Enquanto alguns discutem sobre as velhas questões que acompanham os rumo da sua vida, os outros riem, comem e bebem. Entre os telhados há gatos que miam gerando uma serenata lunar. Nos caixotes de lixo, os cães ladram por medo do distúrbio inusitado.

É em reconhecimento dessa criatividade textual que o professor Gilberto Nhantumbo, afirma que Lucílio Manjate “é uma das vozes sólidas da literatura moçambicana. É possível ver nas suas obras algum cuidado no tratamento da linguagem literária”.

No prefácio, o livro fala de José Mateus. Uma rua alcatroada como a maior parte das ruas da capital onde podem ser encontradas vivendas brancas, castanhas, e amarelas todas as desbotadas, tal como é o prédio de três andares também desbotado e com falta de moradores como um monstro abandonado e solitário.

Esse prédio não só retrata o cenário do abandono, mas, a vida dos que nela escondem a dor da solidão, o desejo de viver. Gente que perdeu familiares e amigos.

O palco desta narrativa são as barracas do Museu, um espaço que é descrito pelo autor da seguinte maneira: “A norte, a Rua José Mateus faz um cruzamento com a Rua dos Lusíadas, e a Sul com a Avenida Mártires da Machava. De Norte a Sul, a margem esquerda é uma enfiada de barracas. na margem direita há quiosques e dois contentores de lixo”.

Tudo começa quando António, o varredor das ruas e barracas do Museu, descobre escancarados os taipais e a porta da barraca. A barraca foi pintada com um anúncio de uma cerveja popular e de material convencional. António vê uma senhora estirada no chão. É a Dona Sebastião. Pega no cabo da vassoura de palha, observa a senhora e depois volta-se.

A Dona Sebastião morreu!

A personagem principal, a Sebastião, é uma professora reformada. Presentemente, vende nas barracas do museu, na cidade de Maputo. É nesse lugar onde se movem as personagens desta narrativa e onde se apresenta o retrato de uma geração que busca, nesse Moçambique contemporâneo, um lugar de começo para começar as suas vidas. É por essa razão que Gilberto Matusse questiona que “não são essas barracas as imagens dessas gerações?”

Enquanto a questão paira na sua mente, Matusse acredita que a obra representa a dor de cada um de nós, os moçambicanos. A dor dos jovens, das crianças bem como dos idosos. Portanto, a obra representa a dor de um país.

As barracas retratadas no livro são de outro tempo, isto é, desde o ultimo vicénio do século XX, quando a capital se abria ao mercado, e nelas o agente Sthoe, encarregue de investigar o assassinato começa a ouvir depoimentos dos suspeitos do crime da Dona Sebastião.

Quando o agente Sthoe começa a ouvir os depoimentos dos suspeitos – Rafael Malingua, Amade, José Malfácio, Manguna e Berta que foi empregada da Dona Sebastião, sendo que os quatro primeiros eram clientes da finada com os quais se relacionava desde a infância – percebeu que podia desvendar as razões que causaram a morte da Dona Sebastião.

De qualquer forma, temos em a Legítima Dor da Dona Sebastião um retrato sobre o que sucede às sextas-feiras altura em que os homens se encontram para beber cervejas, uísques e mais, e debater sobre histórias velhas e novas a fim de esquecer as suas mágoas, mergulhar os problemas na hipnose do álcool.

 

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