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Covid-19: Massinga no crepúsculo do novo amanhecer

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A vila lembra as povoações do Velho Oeste, cuja lei era imposta pela pólvora. Nesse espaço, os homens andavam com a pistola no coldre, pronta a vomitar o mortífero chumbo. Porém, na Massinga, há uma diferença: no lugar do relinchar dos cavalos estimulados pelas esporas, galopando em atalhos poeirentos, reinam os camiões pesados que passam a cada minuto, buzinando brutalmente, e os autocarros levando passageiros para lugares longínquos. As ruas apresentam-se densamente ocupadas por gente ávida em vender e comprar, ninguém coloca a covid-19 como obstáculo, pois como todos dizem: a vida não pode parar.

Massinga parece ser o epicentro da província de Inhambane. Quanto mais não fosse, é aqui onde se concentra o maior número populacional. Aliás, nos tempos do descontrolo do HIV, o distrito era tido como o mais preocupante, pelos elevados números de infectados. Agora, com a pandemia, também já esteve nos lugares cimeiros do gráfico, mas foi apenas uma fase, pois a situação actual, segundo o director distrital da Saúde, a situação está controlada.

O @Verdade esteve recentemente no local, e o que constatamos foi que, o dinheiro pode levar as pessoas a ignorarem a própria vida. Pior agora, que o susto passou. Mas aquele movimento intenso em todos os cantos de Massinga, irá com certeza revelar, não só a necessidade urgente de viver, como pode ser o espelho de que aqui, esse mesmo dinheiro tem um cheiro muito forte, ou seja, jorra a potes. Em grande parte por causa dos mineiros que investem fortemente na sua terra.

Foram estes mineiros, vulgo madjonidjoni, que fizeram estremecer o distrito aquando do pico das infecções na África do Sul, colocando toda a gente em pânico, sabido que eles vinham das “Minas do Rand”, onde as coisas eram terríveis. Mas eles não paravam de chegar, trazendo carros e diversos bens para as famílias, instalando, deste modo, o dilema de recebê-los e ser infectado, e impedi-los de entrar nas suas próprias casas com os proventos mais do que necessários.

Se calhar terá sido pela então chegada maciça dos madjonidjoni, que Massinga passou a registar números assustadores de covid-19. Mas é um evento que hoje já ninguém quer recordar, pois, de acordo com Julião Mapandzene, comerciante estabelecido, o importante não é o que aconteceu, mas o que é necessário fazer agora para que a vida volte ao seu normal, e está a voltar.

No dia 6 de Setembro corrente, ainda decorria a segunda dose da vacinação da faixa etária dos 50 anos em diante, incluindo funcionários públicos e transportadores de passageiros. Fomos a dois postos e o que vimos foi que havia pouca gente a ser tratada. Perguntamos ao agente sobre a fraca aderência, e ele respondeu-nos que não se trava de fraca aderência. “O processo aqui é fluído. As pessoas vêm continuamente, é por isso que parece haver pouca gente, mas não”.

Com um cumulativo de 589 casos positivos, registados desde Março de 2020, e seis vítimas mortais a meta foi imunizar contra o novo coronavírus 6.640 munícipes da Massinga.

O último caso de internamento em Massinga, foi registado no dia 24 de Agosto, cujo doente teve que ser transferido para Jangamo, onde está montada uma enfermaria apetrechada para assistir os doentes de Covid-19. De acordo com a Dra. Joana Miquitaio, directora clínica do Hospital distrital, “aqui temos condições mínimas, mas quando a situação é grave, fazemos a transferência do doente à Jangamo”.

“2 a 3 meses sem receber hóspedes ou comensais”

A vila é também, para além de tudo o mais, um importante “pivot”. Daqui chega-se a duas importantes praias (Murrungulu e Pomene), muito procuradas pelos turistas, alguns dos quais, nem que seja de forma tímida, por causa da actual situação, não perdem a oportunidade de desfrutar das lindas paisagens proporcionadas pelo ìndico e pelas dunas e pelos palmares. Ainda fomos a tempo de ver alguns carros, provavelmente vindos da África do Sul, passando para lá, com barcos na trela.

Ismael Arone Zeca é o responsável para a área do turismo em Massinga. Disse-nos aquilo que não será de todo uma surpresa: “a única estância que encerrou completamente, é o Índico Vilage. As restante funcionam abaixo das suas capacidades, por falta de clientes”.

Num universo de 46 estabelecimentos de restauração e alojamento, o ambiente que se vive é de desolação. “Quase todos eles, ficam 2 a 3 meses sem receber hóspedes ou comensais, e se eles não fecham as portas, é porque acreditam que isto vai passar. Nós também temos uma expectativa de que dias melhores virão”.

“As crianças acordam e não têm nada para fazer, e nós também não temos nada para lhes mandar fazer”

É uma mãe jovem, chama-se Fátima Monteiro. Encontramo-la na sua banca, vendendo roupa usada (xicalamidade), sem máscara no rosto (colocou para tirar a foto). Na verdade, não nos surpreendemos com este procedimento a que se pode chamar negligência, há muita gente assim, aqui e em todo lado. Mas nós, como nossa responsabilidade, perguntamos se não sabia do perigo que representa o não uso do protector, ela respondeu que sabia. “Estava ainda a arrumar as peças, depois vou usar”.

Fátima sorria ao nos encarar, animada, esperançosa. Entretanto, o nosso propósito não era fiscalizar, queríamos apenas colher o sentimento de uma mãe que ficou longo tempo com as crianças em casa, sem poderem ir à escola. “É muito triste passar por uma situação assim, em que as crianças acordam e não têm nada para fazer, e nós também não temos nada para lhes mandar fazer”.

O pior, para Fátima Monteiro, durante o tempo em que as escolas estiveram encerradas por causa da Covid-19, era receber fichas e os filhos não saberem preencher, sem ninguém para orientá-los. “Eu também não sabia como é que aquilo se faz, então levamos os documentos e arrumamos, à espera que as aulas retomassem”.

Todavia, apesar de haver sempre a possibilidade de um novo amanhecer, a jovem mãe de dois filhos que estudam na escola primária, é reservada quanto ao futuro, “não sabemos o que vai acontecer amanhã. Desde que começou esta doença, vivemos na incerteza”.

Fátima ainda não vacinou, “não fui abrangida nesta fase, pois, como se sabe, a prioridade foi para os que têm acima de 50 anos, funcionários públicos e transportadores. Eu não faço parte de nenhum desses grupos, mas quando chegar a minha vez, claro que vou vacinar”.

É igualmente uma mãe jovem, como Fátima Monteiro. Tem dois filhos, um de 16 anos, outro de 7 anos, os quais tornam-se uma preocupação quando ficam em casa sem fazer nada. “Agora as coisas mudaram, espero que seja para sempre, mas ninguém sabe nada, sobre o que o futuro nos reserva”.

Na família de Ana, ninguém foi infectado pela covid-19, e ainda não foi vacinada por não ter chegado a sua vez, contudo, acredita na eficácia da vacina. “Acredito, com certeza, por isso vou vacinar quando chegar a minha vez. Neste momento o importante é acompanhar as crianças no seu dia-a-dia, para agirem sempre em cumprimento das recomendações emitidas pelas entidades sanitárias.

Massinga tem um total de 148 escolas, das quais, 136 são primárias. De acordo com Baptista Feniasse Zunguze, do sector da Planificação na Direcção Distrital da Educação, todas reabriram e funcionam normalmente

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