Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Contar a história do ponto de vista do colonizado

Contar a história do ponto de vista do colonizado

Foi o momento alto da II Edição da Feira do Livro de Maputo que durante três dias (de 29 de Abril a 1 de Maio) animou a FEIMA, em Maputo. Falamos do lançamento da obra “Os Moçambicanos Perante o Cinema e o Audiovisual”, da autoria do belga – flamengo, como ele gosta de esclarecer – Guido Convents, historiador e antropólogo que tem no cinema não-ocidental a sua grande paixão.

É, sem dúvida, a obra de maior referência sobre o cinema moçambicano. Aliás, poderia bem chamar-se “História do Cinema Moçambicano”, mas Guido pretendeu centralizar, propositadamente, diga-se, a obra no olhar do moçambicano perante o cinema e nos efeitos que o mesmo pode provocar numa sociedade. “Quis dar voz a quem não tem voz”, diz, num português bastante razoável. Tudo porque, segundo ele, a história é sempre contada do ponto de vista do colonizador e quase nunca do colonizado.

O livro, de 676 páginas, levou cerca de oito anos até estar concluído e vem na sequência de outros do género que o autor já escreveu sobre o cinema na República Democrática do Congo (RDC), no Ruanda e no Burundi, estes dois últimos territórios passaram para o domínio belga, após a derrota alemã na Grande Guerra.

Dividido em três grandes partes (A Cultura Cinematográfica no Moçambique Colonial, Moçambique Independente e a Liberalização do Audiovisual), “Os Moçambicanos Perante o Cinema e o Audiovisual” é uma obra de referência não só para os amantes da sétima arte como para os da história em geral porque revela sempre uma preocupação com o enquadramento histórico. Os factos nunca estão desligados e há sempre uma conjuntura para explicá-los.

Outro aspecto relevante: quem se dedicar a estudar o cinema moçambicano estuda também o cinema norte-americano, o latino- -americano, o europeu, o russo e dos ex-países satélites da União Soviética, o indiano e o paquistanês, uma vez que, em diferentes épocas desde os finais do século XIX até aos dias de hoje, o cinema destas zonas do mundo entrou com força em Moçambique e os seus filmes acabaram por ser muito visualizados.

Obra Seminal

Na apresentação da obra, coube à jornalista Cristiana Pereira ler o depoimento que o poeta, escritor, crítico e amante do cinema Luís Carlos Patraquim havia preparado desde Lisboa, para onde emigrou há muito anos. Para Patraquim esta é uma “obra seminal, pioneira” porque se “trata do primeiro e abrangente olhar sobre o que foi a exibição, recepção e produção de imagens no imenso e belo território à beira-Índico pulsando.

Obra extensa, com rigores metodológicos e profunda bibliografia, não deixa de se constituir como uma narrativa, em caleidoscópio, desse ‘mundo do cinema, como gosta de salientar o autor, presente em Moçambique quase imediatamente após a célebre sessão dos irmãos Lumière, em Paris.”

Se Patraquim se surpreendeu com a velocidade com que o cinema chegou à então África Oriental Portuguesa, Convents ficou surpreendido quando percebeu que desde o princípio do cinema os moçambicanos lutaram para ver imagens. “Li no ‘Brado Africano’ escrita a seguinte frase: ‘Nós somos iguais’, comparando o espectador africano ao europeu, branco. Assim abertamente. Para mim foi uma surpresa ver isto escrito nos anos 20!”

O historiador belga desfaz igualmente o mito que dá conta de que os moçambicanos só começaram a ver cinema depois da independência, quando o Kuxakanema percorreu Moçambique, mostrando imagens do novo país que se estava a construir. “Isso é falso! Os moçambicanos viam cinema desde 1910. Havia na altura da independência cerca de 120 salas por todo o país e não havia brancos para encher todas as sessões. Desde os anos ´20 que havia salas só para negros.”

A mistura não era, todavia, bem-vinda para o pensamento dominante. “Imaginem uma cena em que um homem está a bater numa mulher branca. A reacção do público branco é diferente de um negro, por isso não convém que tenham lugar no mesmo espaço. Também a mulher branca não pode ser objecto de desejo do negro, por isso há muitos filmes que não passam nas salas dedicadas à população negra.”

Moçambique pioneiro da 3D

Outro aspecto que surpreendeu o autor foi o facto de Lourenço Marques (actual Maputo) ter assistido, em 1953, à projecção do primeiro filme em 3D em toda a África e mesmo no mundo português.

Para essa ocasião, vieram de Joanesburgo dois aviões com convidados, entre os quais o presidente do município de Joanesburgo, jornalistas estrangeiros e outras personalidades sul-africanas para assistir ao filme no Manuel Rodrigues. Por isso Convents refere que “na história da tecnologia do cinema em África Moçambique é muito importante. Estava mais avançado do que Lisboa!”

Ao longo de toda a obra, em quase todas as páginas, surgem referências a fontes. O espelho disso vem reflectido nas últimas páginas – ao todo são 32 entre bibliografia e filmografia consultada. Arquivos, livros, jornais e revistas foram as grandes fontes. “Faço parte de uma geração para a qual os jornais e as revistas são fontes muito importantes”, refere Convents.

No final do depoimento, Patraquim envia recados para quem manda: “Lendo esta obra de Guido Convents, percebe- se que há um desafio de produção, de exibição e de cultura que urge continuar. Há uma Cinemateca por criar. Há uma Lei do Cinema que é imperioso regulamentar, agilizar, adequar às realidades concretas do país.”

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!