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Chegou a era Zuma

Chegou a era Zuma

 

 

 

A África do Sul vai às urnas no dia 22 de Abril para eleger um novo parlamento que, por sua vez, escolherá um novo presidente. Como a eleição de 1994 marcou o fim do apartheid, este pleito constituirá um duplo momento de viragem: o fim da era Mandela e o início formal do braço-de-ferro entre Zuma e Mbeki.

 

As eleições da próxima semana na África do Sul encerram um ciclo político e iniciam outro. Os despojos de Nelson Mandela e o seu legado político, serão, passe a expressão, leiloados no próximo dia 22 de Abril, entre o ANC e o COPE, o novo partido que entretanto se fundou tendo por base os seguidores de Thabo Mbeki. Para muitos, apesar da criação do novo partido, estas eleições serão sobretudo uma guerra interna dentro do próprio ANC.

 

 

Efectivamente, hoje o partido no poder encontra-se dividido, com graves fricções entre a facção que apoia o actual presidente Jacob Zuma e a de apoiantes do anterior Thabo Mbeki. Esta, todavia, não é a primeira vez que se regista uma cisão no ANC. Em 1959, uma facção deste partido apartou-se e formou o Congresso Pan-Africanista (PAC, sigla em inglês). Esta formação inflamou a luta anti-apartheid, tanto assim que em Março de 1960 a polícia do regime massacrou 60 dos seus membros que protestavam contra a ignóbil lei de segregação racial no que ficou popularmente conhecido como o Massacre de Sharpeville.
As causas da actual divisão são várias e incluem o próprio Mbeki, demitido quase à força do cargo de Presidente da República, em Setembro passado, num caso sem precedentes na política do país do arco-íris. Passado pouco tempo, os seus simpatizantes mobilizaram-se e formaram o COPE (Congress Of the People) que concorre já às eleições do próximo dia 22, sendo, sem dúvida, uma das grandes novidades que este pleito apresenta. Com receio de que o patriarca Mandela pudesse desertar para o novo partido, o ANC enviou imediatamente um pequeno avião para transportá-lo a um dos seus comícios, desfazendo, assim, as dúvidas em relação ao apoio desta magna figura.

 

O Cabo Ocidental irá resistir ao ANC?
Mas o COPE não é o único partido que desafia a maioria de 2/3 do ANC no Parlamento. Também a Democratic Alliance (DA), até agora a oposição oficial ao ANC, surge com aspirações renovadas. Com 12,37% do total de votos a nível nacional em 2004, esta coligação, que teve origem no antigo Democratic Party, de Tony Leon, – a única oposição tolerada pelo regime do apartheid – é a única que hoje contraria a hegemonia nacional do ANC, detendo o Governo da província do Cabo Ocidental. Aliás, na presente campanha eleitoral, a sua líder, Helen Zille, presidente do município do Cabo, já afirmou que espera obter pelo menos 50% dos votos nesta região, conservando o governo provincial. A DA debate-se sobretudo com um estigma: fazer cair a máscara de partido defensor da classe branca privilegiada. Enquanto isso não suceder, se é que algum dia irá suceder, será muito difícil atrair parte substancial do eleitorado negro – 80% dos votantes – decisivo para a conquista de uma vitória nas urnas.

 

Inkhata em queda

Em queda livre está o Pan-Africanist Congress (PAC), o partido inspirado nos ideais do primeiro presidente do Gana, Kwame NKrumah. Após ter desempenhado um importante papel durante o apartheid, o PAC entrou num irreversível declínio e hoje só possui um deputado num Parlamento de 400 lugares, o que corresponde a 0,73% de votos. Um factor que contribuiu grandemente para o enfraquecimento do PAC foi a saída da sua figura mais mediática, Patricia De-Lille, que decidiu formar o seu próprio partido o Independent Democrats (ID) nas vésperas das eleições de 2004. A ID acabou por obter mais votos que o PAC, conquistando 1,73%, maioritariamente no Cabo Ocidental.

Um dos partidos mais regionalistas e de forte componente étnica é o Inkhata Freedom Party (IFP) de Magossuthu Buthelezi, hoje com 80 anos. Esta formação política, que congrega a grande maioria do voto dos zulus, tem disputado com o ANC a província do Kwazulu Natal, embora sem a conseguir conquistar. Prevê-se, inclusive, que os 7% dos votos conseguidos em 2004, caiam para os 5% nestas eleições uma vez que o factor Zuma – ele próprio um zulu – possa atrair eleitores do Inkhata para o ANC.

 

“Trabalhando juntos podemos fazer mais”

Salvo um cataclismo, de todo inesperado, mau grado todas as desconfianças que existem em relação à sua inocência nos processos judiciais que enfrentou, Jacob Zuma será, seguramente, o novo presidente da África do Sul. Os poderes presidenciais irão dotá-lo de autoridade para alterar muitas coisas. É grande a probabilidade dos problemas com a Justiças desaparecerem como por magia após a sua investidura. Os juízes, tal como todos os seres humanos, são sensíveis aos desenvolvimentos políticos, por conseguinte as acusações serão um capítulo encerrado.

O slogan mais batido do ANC, “Uma vida melhor para todos”, foi nestas eleições substituído por “trabalhando juntos, podemos fazer mais”. É um sinal dos tempos. A promessa do Estado que oferece tudo foi substituída por uma comunhão de esforços entre o Governo e o indivíduo, o que parece, sobretudo atendendo aos tempos, ser um compromisso bem mais realista, pragmático e objectivo.

 

COPE, a grandeincógnita
Se a vitória do ANC parece indiscutível, uma das perguntas mais pertinentes que se coloca é saber até que ponto o aparecimento do COPE poderá desgastar o partido no poder, uma vez que os principais promotores desta nova formação política estiveram também engajados na luta anti-apartheid.
Os fundadores do COPE, o ex-ministro da Defesa do Governo do ANC, Mosiuia Terror Lekota, e o antigo presidente da COSATU (a união dos sindicatos sul-africanos) Mbhazima Shilowa, não lideram o partido nestas eleições. O congresso do partido, realizado em Fevereiro último, elegeu o bispo metodista, Mvume Dandala, como candidato à presidência. Embora seja um veterano da luta anti-apartheid, não é muito conhecido entre as massas. A racionalidade da sua eleição prende-se, sobretudo, com a necessidade de moralização da política. Ao invés da maioria dos líderes do ANC que já foram apanhados num ou noutro tipo de escândalo, Dandala goza da fama de impoluto e de incorruptível, havendo também quem aponte que poderá ter sido um piscar de olhos ao eleitorado cristão.

Um factor contra o novo partido foi o seu atraso para iniciar a campanha, principalmente se se pensar que se trata de uma formação nova que se quer dar a conhecer o mais rapidamente possível ao eleitorado. No início de Março, ainda havia muitas divisões internas na escolha dos candidatos aos diferentes cargos. Os pesos-pesados incluem nomes como Epainette Mbeki (mãe de Thabo Mbeki); Phumzile Mlambo Ngcuka, ex-ministro da Presidência; e Saki Makozoma, ex-membro do ANC e multimilionário. Mbeki permanece na sombra.

Zuma, homem do povo
O COPE não tem focado nos seus discursos os fracassos do ANC devido aos rabos-de-palha, já que muitos dos seus líderes tiveram altas responsabilidades no Governo do ANC. Esta nova formação parece ser o partido da classe média negra, já com algumas posses, mas, apesar de tudo, em minoria. O grande trunfo do COPE tem sido demonstrar que com o ANC no poder a Justiça estará permanentemente ameaçada, porque o partido no poder foi tomado por gente sem escrúpulos e sem princípios.
Por seu turno, o ANC afirma que o COPE foi criado por um grupo de “políticos sinistros” única e exclusivamente para destruir Zuma, acusando-o de actos que este nunca cometeu. Como o ANC não pode ser atacado pelas medidas económicas por si introduzidas, porque até agora, melhor ou pior, ninguém discute a sua eficácia, a oposição abraçou causas contra chagas sociais como a corrupção, o crime, a falta de habitação ou o empobrecimento. Contudo, a sua mensagem não está a passar para a maioria dos eleitores que são negros, pobres, desempregados e de baixa instrução.

Zuma, talvez para se redimir dos seus processos judiciais, tem efectuado promessas e mais promessas junto do eleitorado. Ele que é um verdadeiro homem do povo e faz questão de dizê-lo: “Nasci e cresci no seio do povo. Por isso conheço como ninguém os problemas do povo. E se eu compreendo os problemas do povo não é difícil relacionar-me com ele.” Este tem sido o seu apelo.
Com fraca escolaridade, este herói anti-apartheid é apreciado pela maioria do povo que facilmente se identifica com ele na dança, na canção e… na política.

 

 

   

 

 

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