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Carta dos estudantes Bolseiros Moçambicanos na Federação Russa

Saudações à moda moçambicana. Aceitem os nossos cumprimentos em nome dos estudantes moçambicanos na Federação Russa. Gostaríamos de alinhar na atitude dos nossos conterrâneos na Argélia, porque partilhamos do mesmo problema. Essas coisas de greve são como um vírus – quando não têm a devida resposta da pessoa a quem se destinam, se alastram em toda parte. Infelizmente não podemos nos amontoar na Embaixada, em Moscovo, porque agora é inverno e podemos contrair doenças graves. Porém não falta motivo, nem vontade.

Na Rússia há cerca de 130 estudantes moçambicanos, espalhados pelas várias e distantes cidades. Auferimos um subsídio semestral de 900,00USD (o que corresponde a 150,00USD mensais). Em alguns semestres, alguns estudantes são privados dos seus subsídios por razões desconhecidas. Já são várias as vezes que reclamamos esse valor diante do Instituto Nacional de Bolsas de Estudos, mas nunca tivemos uma resposta favorável.

Esse valor é insignificante para o nível de vida na Rússia. Só para citar alguns exemplos. Pagamos cerca de 150,00USD anuais de lar estudantil. O seguro de saúde custa cerca de 150,00USD. O visto anual e o registro migratório custam 50,00USD. O transporte mensal para a faculdade custa cerca de 50,00USD. Essas são as despesas comuns e mínimas de cada estudante. Adicionam-se os manuais escolares, as taxas dos serviços comunais (energia, agua, limpeza do lar). Nessas contas ainda não incluímos as roupas de inverno, que são indispensáveis, e a alimentação. Não incluímos também a taxa da internet. Dessa maneira tentamos provar que 150,00USD mensais não são suficientes para cobrir as despesas básicas dos estudantes.

Ai, ainda não incluímos o facto de que os estudantes moçambicanos vivem na Rússia cerca de 5/6 anos sem poderem ir passar ferias em Moçambique ao lado das famílias. Os poucos que o fazem, fazem-no com o apoio apertado das suas famílias. Não exigimos que o Estado nos garanta uma viagem para casa, mas no mínimo devia pagar um subsídio que pudesse nos permitir economizar para, pelo menos uma vez, irmos a Moçambique ver as nossas famílias.

Nos finais de 2007, a representante do Instituto Nacional de Bolsas de Estudos, dra. Sofatélia Navingo, esteve na Rússia. Prometeu melhorar as nossas condições. Até hoje nada positivo.

No ano passado o vice-ministro dos negócios estrangeiros esteve na Rússia. Reuniu-se com os estudantes e recolheu os problemas que nos afligem. Até agora nada positivo. Temos vindo a escrever sistematicamente para o director do Instituto Nacional de Bolsas de Estudos, Dr. Octavio de Jesus, porém não recebemos nenhuma reação favorável. No ano passado colegas nossos escreveram para a imprensa nacional. Porem, todos ficamos felizes quando o jornal online da AIM do dia 01-08-2011 noticiou o que passamos a citar “O Instituto de Bolsas de Estudo (IBE) projecta aumentar 42.113.600 (cerca de 1,5 milhões de dólares americanos) o valor destinado as bolas externas para o ano 2012, segundo o documento que incorpora o Plano de Actividades e Orçamento para 2012.” E o jornal “O País” da mesma época reportou “Contudo, disse Octávio de Jesus, o importante é garantir a manutenção dos que já estão no sistema porque, ano passado, ‘abriu-se uma janela muito grande de bolseiros’. Ou seja, a quase mil estudantes foram dadas bolsas, pelo que é preciso dá-los a ‘devida assistência’.” Queremos frizar “devida assistência”!

Entretanto essa “devida assistência” ainda não se faz sentir. E estamos nos aproximando dos meados do ano, e já recebemos os subsídios deste primeiro semestre. Por isso, estamos dispostos a tomar a mesma atitude desesperada dos estudantes na Argélia. Mas, para além do frio, somos fortemente susceptíveis a represálias. Porém deixamos neste carta os contactos telefónicos dos nossos representantes. Não queremos denunciar a ninguém, apenas queremos que o Estado tome as suas responsabilidades perante os estudantes que manda para o estrangeiro. Estamos cansados de sofrer.

Nas férias de verão os estudantes se submetem a trabalhos manuais pesados para poderem criar algum fundo que possa lhes sustentar alguns meses depois do início das aulas. Para além de serem pesados, são ilegais. A legislação russa proíbe os estudantes estrangeiros de exercer qualquer tipo de actividade remunerável. Algumas das nossas meninas se submetem a trabalhos ainda mais vergonhosos e humilhantes. Por exemplo, não dignifica em nada o nosso pais quando uma estudante lava roupa de estudantes de outros países em troca de alguns dólares.

Entendemos que o Estado tem muitas prioridades, mas não conhecemos nenhuma prioridade maior que a formação de jovens. É da responsabilidade do Estado criar condições mínimas para que os seus estudantes preservem a sua honra e dignifiquem o país da melhor maneira que podem – estudar bem. E lembrar que, enquanto estivermos no estrangeiro, o nosso encarregado de educação é o Estado.

Desta feita terminamos a nossa carta. Estamos confiantes de que não faltam meios, mas sim vontade, de melhorar as condições dos estudantes moçambicanos em qualquer país. Obrigado por este espaço e pelo vosso tempo.

Os estudantes

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