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Canadá é o melhor país do G20 para mulheres e o Brasil é o 11º

As leis para promover a igualdade de género, contra a violência e a exploração, junto com um bom acesso a educação e saúde, fazem do Canadá o melhor lugar para ser mulher entre as maiores economias do mundo, ao passo que o infanticídio, os casamentos infantis e a escravidão fazem da Índia o pior, segundo uma pesquisa global realizada junto a especialistas e divulgada, Quarta-feira.

Alemanha, Grã-Bretanha, Austrália e França completam os cinco melhores países entre os 19 que formam bloco das 20 maiores economias mundiais (a União Europeia, também parte do grupo, não foi levada em conta), segundo entrevistas com 370 especialistas em género ouvidos pelo TrustLaw, serviço de notícias jurídicas da Fundação Thomson Reuters.

O Brasil, na metade inferior do ranking, ficou em 11o lugar. Na outra ponta da escala, a Arábia Saudita, onde as mulheres têm boa educação, mas são proibidas de dirigir e só conquistaram o direito ao voto em 201, ficou em penúltimo lugar, à frente da Índia, mas atrás da Indonésia, África do Sul e México.

“A Índia é incrivelmente pobre, a Arábia Saudita é muito rica. Mas há algo em comum, o facto de que, a não ser que tenhas algum acesso especial a privilégios, tens um futuro muito diferente, dependendo de se tiveres um cromossomo X extra ou um cromossomo Y”, disse o jornalista Nicholas Kristof, coautor de “Half the Sky: Turning Oppression into Opportunity for Women Worldwide” (“metade do céu: transformando a opressão em oportunidade para mulheres do mundo todo”).

A pesquisa, divulgada a menos de uma semana da cúpula do G20 que acontece nos dias 18 e 19 no México, mostra que realidade permanece dura para muitas mulheres, apesar das leis e dos tratados sobre os direitos femininos.

“Na Índia, mulheres e meninas continuam a ser vendidas como coisas, são casadas a partir dos 10 anos, queimadas vivas como resultado de disputas por dotes, e as jovens são exploradas e abusadas como mão de obra escrava doméstica”, disse Gulshun Rehman, assessora de desenvolvimento do programa de saúde da ONG Save the Children do Reino Unido.

“Isso ocorre apesar da revolucionariamente progressista Lei da Violência Doméstica sancionada em 2005, proibindo todas as formas de violência contra mulheres e raparigas.”

O TrustLaw pediu aos profissionais humanitários, académicos, profissionais da saúde, gestores públicos, jornalistas e especialistas em desenvolvimento com experiência em questões de género para que classificassem os países do G20 entre os melhores e piores para as mulheres.

Eles também fizeram rankings conforme seis categorias: qualidade da saúde, liberdade contra a violência, participação política, oportunidades profissionais, acesso aos recursos como educação e direitos de propriedade e liberdade contra o tráfico e a escravidão.

Os entrevistados são provenientes de 63 países nos cinco continentes, incluindo especialistas de agências da ONU, ONGs internacionais e instituições académicas.

O Canadá foi citado como o melhor lugar para ser mulher, por garantir a maior parte do que é necessário para o bem-estar e as liberdades básicas das mulheres.

“Embora ainda tenhamos muito mais a fazer, as mulheres têm acesso à saúde, valorizamos a educação, o que é o primeiro passo para a independência económica, e temos leis que protegem as raparigas e mulheres e não permitem o casamento infantil”, disse Farah Mohamed, presidente e executiva-chefe da Cúpula G(irls) 20, uma reunião juvenil que ocorreu em maio no México, antecipando-se à cúpula dos chefes de governo do G20.

Os Estados Unidos ficaram em sexto lugar no ranking, mas polarizaram as opiniões. Os especialistas consideraram positiva a situação do país em termos de direitos civis e leis contra a violência doméstica, acesso à educação, oportunidades profissionais e liberdade de expressão e deslocamento.

Mas há restrições no acesso à contracepção e ao aborto, e as mulheres sofrem desproporcionalmente com a falta de acesso ao atendimento de saúde com preços acessíveis, segundo alguns entrevistados.

“Muitos dos avanços dos últimos cem anos estão sob ataque, e o ataque mais ostensivo e maligno é contra os direitos reprodutivos”, disse Marsha Freeman, directora do Observatório Internacional de Acção dos Direitos Femininos.

Barreiras ao desenvolvimento

A pesquisa surge num momento de turbulência política para várias regiões do mundo, e nas quais é mais vital do que nunca proteger as liberdades femininas, segundo os especialistas.

“As épocas de transição política, como aprendemos da forma mais dura, também podem ser épocas de fragilidade, e quando os direitos das mulheres e meninas podem ser revertidos em vez de avançarem”, disse Minky Worden, directora de iniciativas globais da Human Rights Watch.

Os direitos femininos estão particularmente sob ataque no México, país anfitrião da cúpula do G20, que aparece em 15o lugar na pesquisa.

O México tem uma arraigada cultura machista, altos índices de violência física e sexual, e bolsões de pobreza nos quais os serviços, inclusive de saúde, não são melhores do que em algumas das mais marginalizadas comunidades da África, segundo especialistas.

As mulheres também são vítimas de crimes relacionados às drogas. Cerca de 300 mulheres foram mortas em 2011 na violenta localidade fronteiriça de Ciudad Juarez, com impunidade quase total, segundo a Amnistia EUA.

“A violência afecta homens e mulheres, mas com frequência as mulheres são atingidas desproporcionalmente”, acrescentou Worden.

“O México é um lugar onde a imposição da lei continua a ser um desafio, e o governo tem a obrigação de proteger as mulheres, mas frequentemente falha nessa obrigação, como falha em proteger os homens.”

Colocar os direitos femininos na pauta global é crucial para o progresso e para um desenvolvimento efectivo, disse Kristof.

Os países que restringem os direitos e liberdades das mulheres ou que deixam de protegê-las contra injustiças sofrem em longo prazo, social e economicamente, acrescentou ele.

Os gestores públicos, activistas e parlamentares vão debater como combater as questões abordadas pela pesquisa numa grande conferência a ser organizada em Dezembro pela Fundação Thomson Reuters e pelo International Herald Tribune em Londres (trustwomenconf.com).

Embora a pesquisa baseie-se em percepções, e não em estatísticas, dados da ONU corroboram as visões dos especialistas sobre os piores lugares para ser mulher.

O Índice de Igualdade de Género (IIG), que examina a saúde reprodutiva, o mercado de trabalho e o empoderamento feminino por meio da educação e da política, cita os mesmos três países como sendo os piores lugares para as mulheres, embora a Arábia Saudita seja nesse índice considerada pior que a Índia.

O IIG, porém, não inclui a violência por questão de género e ignora outras dimensões importantes, como o uso do tempo, o facto de muitas mulheres terem obrigações adicionais de cuidados com a família e manutenção do lar.

Quando se trata do melhor lugar para ser mulher, a percepção dos especialistas não acompanha os dados da ONU. O IIG aponta Alemanha, França e Coreia do Sul como os três melhores países, nessa ordem.

O Canadá aparece em sétimo, e os EUA, em décimo lugar. Os activistas, porém, não se surpreenderam com a boa imagem do Canadá.

“Tendo uma compreensão da cultura canadense e monitorando o trabalho que eles têm feito em torno da violência contra mulheres e igualdade de género, acredito que o Canadá realmente venha a emergir como um modelo para o que a maioria dos países deveria aspirar durante muito tempo”, disse o jornalista e activista Jimmie Briggs, fundador da Campanha Man Up, que trabalha para mobilizar os jovens a fim de impedirem a violência contra mulheres e raparigas.

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