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Bitonga Blues

Para ti, king Fany Mpfumo

O Arão Litsuri disse a toda a gente – num dia desses – que fi cou arrepiado quando te viu pela primeira vez, tu sentado num dos extremos do banco da trás de um automóvel que te transportava ao palanque, onde ias brilhar como um rei que és. O João de Sousa, no seu programa “Fio da Memória” – já lá vão muitos anos, mas ainda me lembro – foi buscar o teu belíssimo tema “Jorgina” e no fi m disse muitas coisas sobre ti, salientado que o teu espólio tem temas musicais clássicos inexcedíveis. Mas o João Cabaço, que tu conheces muito bem, canta de forma elevada o teu “Makombo”. Convoca – quando ele canta – todos os mortos que se levantaram quando tu chegaste à outra ladeira.

Pois é, king: hoje resolvi escrever-te esta carta, com a consciência plena de que sou pequeno demais para o fazer. Mas eu não suporto o sofrimento de querer fazer isso, sobretudo depois de ter visto a tua fi lha querida – a mais velha – a receber a tua toga e o teu diploma de Doutor Honoris Causa, no Centro Cultural Universitário, das mãos do Reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Filipe Couto.

Tu não estavas lá em corpo, porque o teu corpo já não existe. Foi completamente devorado pelos vermes, deixando o teu esqueleto que também voltará a transformar-se em pó. Mas sentia-se o teu cheiro impregnado em toda a sala, onde, em silêncio, as pessoas que te admiram e te venerarão por todo o sempre, ouviam as palavras e as tuas músicas que ainda lhes ribombam nos corações.

King Fany, é um alegria inefável ouvir em todo o lado as pessoas cantarem as tuas músicas. Cantam em tua celebração, embora no meio deles, muitos – os pequeninos como os vermes que devoraram completamente o teu corpo e cobardes como os mabecos – ganhem dinheiro à custa do teu porte soberbo, presente aqui e agora e para sempre.

Eu não cheguei a ver-te em pessoa, King! Mas não importa, porque agora sinto-te em cada trovão. Vejo a tua sombra passar pelos becos de Mafalala e Chamanculo. Vejo-te a descer o último desfi ladeiro ao encontro da luz que te iluminou no trabalho delicado das tuas canções. Sinto-te nos últimos dias da tua peregrinação pela terra e pelos bairros que tu amavas, onde bebias xipawana, onde conversavas e cantavas sentado em lugares abomináveis e cercado por gente que te queria ouvir sempre. Todos queriam te ouvir, king! Desejavam-te. Até os teus inimigos te amavam.

Oh. king! Por vezes o meu interior quer transformar-se em albufeira de lágrimas, mas a um homem como tu não se chora. Aclama-se. Porque tudo o que fi zeste, todas as coisas que deixaste, todas as lembranças, todos os nomes: a Cecília, a Jorgina, a Ana e quem mais? Tudo isto faz de ti um monumento.

Sabes, Fany, não te preocupes com aqueles que hoje querem ocupar o teu lugar, porque o rei és tu. Nunca ninguém tocará o bandolim como tu tocavas, nem comporá os teus números musicais como tu o fazias. És um vulto sagrado e o Ernesto Ximanganine respeita-te e estima-te muito. Foi ele quem me disse isso, num dia em que estávamos numa zona chamada Tubiacanga – que tu não conheces – e ele empunhando o bandolim, que ele toca muito bem, lembrando-te.

É isso king: a Mingas manda-te um beijo grande. Ela diz que te ama, que te ama muito e, para provar isso, está sempre a cantar a tua “A Vasati Va Lomu”, música que já transbordou para as crianças que são hoje os teus bisnetos. Até nas Filipinas canta-se o teu “A Vasati Va Lomu”. Que maravilha!

Já viste, Fany, quem te mandou? Agora aguenta!

Olha king, eu tinha guardado umas rosas vermelhas para oferecer a Deus, mas por tua causa, Deus vai ainda esperar um pouco até que encontre outras rosas vermelhas. Estas fi cam contigo.

Mas antes de te transmitir o meu forte abraço e votos de sucessos, queria lembrar-te que a tua lamparina, aquela que mandaste acender àquela grande mulher, ainda ilumina, king. E iluminará sempre porque tudo o que é feito por ti, tem labaredas de ouro.

Aceita o meu abraço, meu querido king.

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