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Bitonga Blues: O chefe tinha prótese numa das pernas

O carro estava estacionado ao virar da última rua que me levava à casa, numa noite de absoluto breu, como que anunciando os terríveis momentos que haveria de viver a partir daquele instante: passava um pouco das 23.00 horas e eu, regra geral, não costumo entregar-me  – a altas horas da noite – aos caminhos sem protecção, excepto quando alguém me leva de carro. Mas nessa noite traí os meus próprios ritos. Os demónios desorientaram-me. E o que me restava era esperar pelo que viesse.

Os faróis foram accionados ao máximo, encadeando-me até ao ponto de me deixarem completamente atarantado, ao mesmo tempo que dois homens, que apareceram imediatamente atrás de mim, me imobilizavam e me arrastavam até ao veículo que tinha o motor em silêncio. Empuraram-me para o banco de trás, tendo, os dois, se sentado, um do meu lado esquerdo, outro do lado direito, tocando-me levemente com as suas coxas enormes, sem me dirigirem palavra.

Cheiravam a perfume de alta qualidade e o homem que ia à frente – ao volante – fumava cachimbo com tabaco também perfumado. Eram três personagens e não falavam, nem comigo, nem entre eles. Parecia que não tivessem pressa e também fiquei com a sensação de que esperavam o momento certo para darem o passo seguinte.

O condutor – que esperava ao volante – virou-se e olhou para mim, com a luz do interior do automóvel acesa. Estremeci em todo o meu corpo, senti a espinha dorsal gelada como nunca a tinha sentido. Os olhos do homem estavam muito serenos e o cachimbo pendia para o lado esquerdo do lábio inferior de uma figura que não falava, para que eu pudesse medir o que ela era capaz de fazer. Nenhum deles estava mascarado, o que me levou a pensar que, ao não estarem preocupados com capuzes, tinham a certeza absoluta de que me iam matar.

Desligaram a luz do interior e o carro foi accionado. Moveram-se, silenciosamente, em direcção a uma casa que não conheço, num bairro que não podia conhecer porque vendaram-me os olhos durante o percurso, o que me levou a pensar que me iam matar ali. Pararam na fachada e eu fiquei à espera – petrificado – de algum sinal. Já não conseguia pensar em mais nada, senão na morte, e também já tinha atingido o limite do meu medo.

Aquilo que eu sentia já não podia ser medo. Medo não era aquilo. Como é que eles me iam matar? Com faca? Com pistola? Iriam ‘sufocar-me’ com navalha ou com as mãos? Iriam acariciar dolorosamente os meus testículos até sucumbir?

Seja como for, eu já estava no caminho, ou melhor, nas mãos do diabo e o diabo é capaz de toda a crueldade.

O telefone do homem do cachimbo tocou e este atendeu, tendo passado a maior parte do tempo dizendo apenas: “sim senhor, sim senhor, sim senho”. E eu dizia: “Deus vais deixar-me?”.

Desde que me introduziram no carro ainda não me molestaram. Ainda não me dirijiram a palavra. Ainda não falaram entre si, excepto agora que o condutor respondia escassamente ao telefone, numa altura que – pela cor do dia – percebi que já estava a amanhecer e, se eles queriam matar-me, porquê esperar tanto tempo? Ainda por cima pelo amanhecer! E, nós estávamos ali na fachada de uma casa que não conheço.
Mandaram-me sair do carro e avisaram-me: “Vira a cabeça para baixo”. Baixei a cabeça. “Entra!”. Entrei.

Foi a primeira vez que ouvi a voz de um dos meus “verdugos”, que era libertada sem sotaque. Empuraram-me levemente para uma poltrona onde me sentei pouco tempo até que, pelo som dos passos, desconfiei que o homem que vinha atrás de mim tinha uma prótese na perna.

Pegou-me violentamente pelo pescoço e, quando virou a minha cabeça, com a navalha em riste, olhámo-nos nos olhos. Ele tremeu e gritou: “Não é este gajo, bolas! Este gajo eu conheço, é jornalista”.

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