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Bitonga Blues – Mel de cobra em Chicualacuala

Bitonga Blues - Estou em Tete

A primeira vez que me fiz transportar num comboio foi aquando da realização do festival de cinema, que passou por Chicualacuala, na província de Gaza, antes e depois de escalar zonas do nosso país e que os seus mentores convencionaram denominar Cinemarena. Já lá vão aproximadamente três anos e muitas coisas que aconteceram nesse evento ainda estão frescas na minha mente, como aquele episódio do mel que nos foi servido numa casa nas entranhas da vila – a mim e ao realizador de cinema Gabriel Mondlane – e que antes de nós tinha sido saboreado por uma serpente enorme. A história foi-nos contada pelos homens que descobriram a colmeia, no meio de cisternas antigas e abandonadas.

Segundo eles, ao recolherem o mel, depararam com o réptil, colossal, a chupar os favos, tendo concluído imediatamente que ali havia um banquete diário que Deus dava, de graça, ao animal. Mas nós comemos o mel, sem nos importarmos de ele antes ter sido uma gostosa refeição do vertebrado de sangue frio, porque mesmo esse vertebrado de sangue frio, morto por mãos sagazes, foi assado na brasa e devorado como pitéu especial, com óleo de mafurra e piri-piri sacana. Comemos alegres – o mel e a carne de cobra – numa festa regada de aguardente de massala, debaixo de conversas sempre empolgantes do Gabriel Mondlane. Mas no dia anterior àquele regabofe espontâneo, eu cheguei a Chicualcuala por volta das duas horas da madrugada, transportado num autocarro “carrancudo”, que nos últimos cem quilómetros do percurso ficou com os faróis irremediavelmente desligados.

Fui o último a chegar, pois a equipa toda do Cinemarena já estava lá, ida de comboio, que partiu de Maputo um dia antes de mim. Nunca tinha ido a Chicualacuala, mas o pior disso tudo é que cheguei por volta das duas horas de madrugada e estava uma escuridão de breu. A única coisa que consegui ver, quando o autocarro me baldeou, foi um minúsculo ponto luminoso ao longe, que a tripulação me disse ser ali, a estação dos Caminhos-de-Ferro e que a luz que eu via era emanada do comboio. Pedi para que me acompanhassem até lá, porque tinha medo, e eles marimbaram-se para mim. Desce, velhote, estamos com pressa, vociferou um deles deixando claro que entre nós não haveria qualquer espaço para negociar fosse o que fosse. Desci. Ajeitei a minha sacola e disse para Deus: Deus de Jacob e de David e de Abrahama, se me acontecer algo de mal, o problema é teu, eu quero chegar àquele ponto luminoso, estão lá os meus camaradas.

Caminhei atrapalhadamente, cheio de medo, olhando de quando em vez para trás, sem ver nada. Não via nada, senão o pequeno ponto luminoso que nascia daquilo que me disseram ser a estação dos Caminhos-de-Ferro. Quando divisei a locomotiva, vi vários pontos luminosos nas carruagens, onde havia silêncio absoluto, o que me levou a pensar que todos dormiam. Já eram quase duas horas e trinta e eu morria de fome. Bati à porta e uma voz feminina, sonolenta, me perguntava: “Quem é?” Respondi: “Sou eu, o fulano”. E ela, reconhecendo-me, foi acordar o Gabriel Mondlane, que me veio abrir a porta metálica. Entramos com abraços e risos, para o quarto da carruagem que estava reservada a nós os dois. “Gabriel, estou com fome”, dizia eu com pouca esperança de haver algo para comer àquela hora. “Epá, se quiseres comer qualquer coisa tem aí massala e uma garrafa de whisky”.

E como se esta comédia não bastasse, havia duas beliches e a minha era a de cima, que recusei imediatamente porque sofro de aerofobia. Dormi no chão porque o Gabriel Mondlane também tinha medo de dormir em cima. Mas ainda não é tudo. No dia seguinte, sob o efeito do whisky do “Gaby” e da aguardente da festa da cobra, dormi ali em cima como um camelo.

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