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Bitonga Blues – A morte esperava-lhes em Chissano

Bitonga Blues - Estou em Tete

Na noite anterior a da chuva repentina que caiu sobre a cidade de Maputo, no último domingo, surpreendendo os próprios cientistas, e os filhos de Deus que se dirijam – em procissões – à Igreja, os moçambicanos que trabalham na África do Sul faziam os últimos preparativos, pensando nas esposas e nos filhos, que os aguardavam ansiosamente para o reencontro que vai dar nova vida à alma. Eram cerca de quarenta homens, que se fariam num pequeno autocarro, para vir a Moçambique matar saudades da terra, beijar as mulheres, e afagar os filhos, com amor.

A maior parte deles não conseguiu dormir por incapacidade de conter a alegria de viajar no dia seguinte e levar aquilo que conseguiram amealhar com trabalho e sacrifício e sofrimento. Outros passaram o tempo a beber a potes, para ajudar a noite a amanhecer mais depressa, mandando à fava o adágio segundo o qual, não é por muito madrugares que o sol vai nascer mais depressa. E eles bebiam, alegres, como crianças, cantando canções da terra, dançando à volta da fogueira para espantar o frio rigoroso que assola aquelas terras, também do Tchaka Zulu. Bebem e dançam a valer.

Evocam o nome das esposas que os esperam, para noites intensas, como se tudo aquilo representasse o último gesto que ensaiariam sobre a terra. Na verdade, alguns deles jamais voltariam a beber um único gole, muito menos a potes. Outros dançavam pela última vez. Outros, ainda, não sabiam que aquelas pernas viris que batiam no chão ao som do makwayi e do makwayela e do xigubu, seriam fracturadas e inutilizadas entre as chapas de fibra do pequeno autocarro e os ferros do chassis e o asfalto quente e fumegante. Ainda outros, não tinham a mínima ideia de que aqueles dentes que nos mostravam no sorriso do canto e dança e da falsa sensação de bem-estar que o álcool nos oferece, seriam destruídos sem anestesia.

Mas eles dançavam, ansiosos por viajar e rever as mulheres e os filhos. O pequeno autocarro – acondicionado – está ali, à espera dos passageiros que vão percorrer mais de mil quilómetros ao reencontro das suas famílias. Eles vão seguir sob responsabilidade de um condutor a quem, viajar amanhã ou hoje, ou depois de amanhã, não faz diferença, porque está todos os dias na estrada. Vestindo a terra. Pois é: a hora da partida já chegou e o frio está instalado, mas os moçambicanos que agora entram – um por um – no pequeno autocarro, não sentem essas temperaturas baixas, primeiro porque estão bem agasalhados, segundo porque o álcool que lhes corre nas veias, aquece- lhes os corpos.

Estão felizes! E lá vão eles, cantando e rindo, bebericando e conversando e cantando, outros ainda dançando nos seus assentos. É uma algazarra de homens felizes, que vão ao reencontro das suas famílias, sem saberem, alguns deles, que aquela seria a última viagem da sua vida. Quando o pequeno autocarro transpôs a fronteira de Ressano Garcia, os moçambicanos saltaram, uma vez mais, de alegria. Beberam profusamente as bebidas que vinham bebendo desde a noite anterior, e accionaram os telemóveis, que passaram a entrar em rede com as suas famílias.

Já estou em Maputo – dizia um dos passageiros, visivelmente contente – daqui a nada estarei aí. Quero vir apanhar água quente, para tomar banho, meu amor, comer aquela xiguinha que te pedi para fazeres e depois vamos dormir. Estou com muitas saudades tuas. O autocarro voava e os moçambicanos que estavam dentro dele queriam que voasse mais, e voava. O motorista – contagiado pela alegria dos seus passageiros – também bebia e cantava com eles.

Todos queriam chegar mais depressa, sem saberem que no cruzamento de Chissano, na província de Gaza, a morte já estava cansada de esperar e, quando eles chegaram, querendo passar para os seus destinos, o diabo estendeu uma rede de emalhar.

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