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Bitonga Blues – A beleza não se vê, pá! a beleza sente-se, pá!

Bitonga Blues - A beleza não se vê
Dedico esta crónica a todos os cegos do mundo, que vivem nas brumas, mas felizes por  sentirem aquilo que – nós outros – nunca veremos. E  nunca sentiremos. 
Chegou o maluco do Jaime Santos – um declamador de génio – e bramiu para Raul Honwana: “Olá, seu cegueta, como vai a tua vida?”. Raul Honwana abanou a cabeça como o fazem quase todos os cegos na perscrutação dos sinais, puxou longamente o cigarro que lhe queimava os dedos, deu uma imensa baforada de fumo e contrapôs: “Quem é esse desgraçado que me cumprimenta com voz tonitruante?” O Jaime Santos libertou um riso lusco-fusco, como o fazem todos os incapazes de rir com sinceridade.

 
Era um fim de tarde. Raul Honwana – esse escritor moçambicano cego, já falecido – bebia whisky velho, sem água, sem gelo, como se quisesse morrer depressa e fumava como um louco. Conversava com mistura de temas banais e de cultura geral forte. Gingava por saber falar shona e, quando chegasse ao pé dele uma mulher, não sabia ficar indiferente. Obviamente! Como agora em que a mesa que compartilhamos – Raul Honwana, Jaime Santos, Ungulani Ba Ka Khosa, Pedro Chissano, Aurélio Furdela, Filimone Meigos, Sangare Okapi e eu – é reconfortada por uma mulher jovem e linda. Declamadora nata. Leve como pluma. Perna esquerda ligeiramente arqueada. Ou seja, ela tem  tudo para pôr um homem em rotações de alta voltagem. 
 
O Jaime Santos apressou-se a apresentá-la ao Raul, dizendo: “Oh, seu cegueta, apresento-te aqui esta miúda, ela chama-se Iracema”. E Raul Honwana reagiu: “Ela é muito linda, pá!”. E Jaime voltou: “Oh, seu cegueta, mas como é que vais dizer que a miúda é muito linda se tu não vês patavina?”. E Raul Honwana, esclareceu: “A beleza não se vê, pá! A beleza sente-se, pá!”.
 
Lembrei-me desta passagem gravada na minha memória quando, há dias, vejo uma mulher muito linda a entrar na pastelaria Scala, onde estou sentado a beber um café na companhia do José Mucavele e do Idasse Tembe – dois monstros perfeitos que vivem com as mãos e a voz. Ela tem os olhos grandes, talhados com grandeza: os seios são irresistíveis, o traseiro também. É uma mulher envolvente. Move-se com elegância e está abraçada a uma menina. Linda também. O José Mucavele e o Idasse Tembe olharam para ela e disseram: “Esta mulher é louca!”.
 
Na verdade, estamos em presença de um fenómeno. Desde que nasci nunca tinha visto uma mulher tão linda. Parece uma gazela, uma gata formosa, um anjo, uma deusa, uma estrela. Ela é o céu que se abre diante de todos, dizendo: venham para aqui.
 
O José Mucavele e o Idasse Tembe, depois de terem sido conquistados irresistivelmente por aquela formosura, ultimaram os seus cafés, levantaram-se e foram-se embora, deixando-me sozinho na mesa, sorvendo os últimos goles de café que o Zé tinha pago para mim. Fiquei a observar a mulher que agora está sentada, sem falar, na mesa ao lado da minha, com a criança que também não fala. Reparei que quase todos os clientes que estão sentados no “Scala” fustigam – com o olhar – a deusa que está no mesmo espaço que o nosso. 
 
Ela não fala e mastiga com estilo. Bebe um sumo da Compal e não fala, nem com a criança que está serena, sentada ao lado da gata. E eu estou ali, apaixonado por aquela beleza transcendental. Assistindo a um espectáculo que Deus me oferece. De graça. E lembrei-me das palavras do próprio Deus: “Dai de graça aquilo que recebeis de graça”. 
 
E a mulher limpa os beiços com um guardanapos reles que nos é oferecido no “Scala”. Paga a conta e levanta-se para se retirar. A criança distrai-se por um instante, deixando a mulher caminhar sozinha. Ela ia ao encontro da montra, caminhando devagar. Tacteando. E, quando estava muito perto de chocar com o vidro, a criança foi a correr e evitou o pior. É quando reparei que aqueles olhos grandes, que pestanejavam com elevação, eram cegos.
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