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“Badjias não são para pobres, também os ricos comem”

“Badjias não são para pobres

Para Arminda Banze o dia começa relativamente mais cedo, até às quatro horas já está acordada, logo pela manhã dentro prepara os pastéis de feijão-nhemba (badjias), de maneira a que às 6h30, os clientes garantam aquele condimento para o pequeno-almoço.

Arminda Isaías Banze conta com 38 anos de idade, casada e mãe de dois filhos. Ela nasceu no mais populoso distrito da província de Inhambane, Massinga. Passou uma larga parte da sua infância na cidade de Maputo, devido à fúria da guerra dos 16 anos que desagregou a sua família. Durante a última guerra, a segurança na capital do país era relativamente melhor que nas zonas rurais, daí que o seu irmão mais velho decidiu levá-la para fixarem residência nesta urbe.

À semelhança de muitos moçambicanos, a guerra dos 16 anos não permitiu que ela fosse à escola, a sua vida era feita de correrias aqui e acolá, na tentativa de fugir dos homens que, sem dó nem piedade, espancavam e dizimavam vidas humanas com toda a sua insensibilidade. “Quando vim para a cidade de Maputo, para além de cá fixar residência queria também inscrever-me no sistema nacional de educação. Por muito tempo que adiei este meu sonho, pois não tinha condições para prosseguir com os estudos, era desempregada e não fazia sequer alguma coisa que me rendesse”, conta para depois acrescentar que o seu irmão com quem vivia, o pouco dinheiro que ele ganhava era para custear as despesas da casa, sobretudo o pagamento da renda.

Porque as condições de vida tornavam-se cada vez mais azedas, esta mulher batalhadora e destemida decidiu enveredar pelo empreendedorismo. “Comecei a fazer badjias por volta de 1995/6, mas lancei-me ao mercado do negócio informal vendendo rebuçados e bolachas. Os produtos que eu tinha não rendiam quase nada, logo decidi fazer outra coisa: fazer badjias logo pela manhã dentro e assim garantir que as pessoas até às 7 horas estejam à altura de ter este condimento que para alguns é indispensável no pequeno-almoço”, conta.

Devagar para chegar longe

Na lógica de que grão a grão enche a galinha o papo, Arminda primeiramente fazia badjias correspondentes a 30 meticais, foi granjeando simpatias dos clientes ao mesmo tempo que aumentava as quantidades, “fazia poucas badjias para evitar quebras, pois se eu fizesse muitas podia não acabá-las,e este tipo de produto não se pode deixar para o dia seguinte, facilmente se estraga. Em cada três meses, porque havia uma crescente afluência de clientes, aumentava a produção até o dobro do que fazia inicialmente”, comenta para depois acrescentar que na esquina onde se encontra agora foi uma das pioneiras neste negócio de badjias. Algumas vizinhas porque viam que o negócio tinha muita saída, acabaram fazendo a mesma coisa, mesmo assim, o seu negócio não foi ameaçado, pois já tinha clientes assíduos e fiéis, que não compravam numa outra pessoa a não ser ela.

Desde que esta senhora começou a fazer os seus negócios nunca vendeu num mercado, faz de uma das esquinas ao longo da Avenida Romão Fernandes Farinha, próximo ao jardim dos “madgermanes”, na cidade de Maputo, a sua base. Para ela trabalhar próximo de casa e aproveitar a sombra de um prédio é a melhor coisa.Se para alguns vendedores informais, a polícia camarária não passa de um carrasco, para Arminda, estes não lhe atrapalham. Não paga taxas pelo trabalho que ali exerce, e as razões saberão os agentes da polícia municipal.

Se dantes fazer badjias de 50 meticais era uma quebra na iminência, agora chega a fritar badjias de 500 meticais e acabam no mesmo dia.O frio é o tempo mais favorável para este tipo de negócio. “Há dias que faço badjias de 700 e acabam,e para evitar fazer muitas badjias de uma e única vez, faço duas vezes ao dia, ou seja, de manhã posso fazer de 500 meticais e ao meio-dia de 200. Felizmente a oferta cresce ao mesmo ritmo com a procura”, conta para depois acrescentar que se os clientes quiserem mais, vai aumentar as quantidades para satisfazê-los.

As badjias são produtos alimentares complementares e o seu ‘companheiro’ geralmente é um pão ou uma arrofada, razão pela qual o negócio da Arminda abriu horizontes, vende também pãezinhos para facilitar algumas pessoas que desejam comprar tudo de uma e única vez. O empreendedorismo não pára por aqui. Há sensivelmente três meses e com a explosão das altas temperaturas na capital do país, ela decidiu vender água potável em frascos de água mineral e em copos para os que queiram bebê-la no local. Os preços rondam entre um e três meticais, e existe também maheu, uma bebida tradicional pelo menos em Moçambique, e vende ao preço de 6 meticais a garrafinha de 1/5 litro. Todos estes produtos são secundários em relação às badjias, seja em termos de prioridade, seja em termos de rendimento.

Clientes assíduos

Na cidade de Maputo, uma urbe caracterizada por uma grande azáfama de vendedores ambulantes, gente a desenrascar o ganha-pão, um negócio como o da senhora Arminda só faz bem.Os ambulantes vadiam pela cidade dentro empunhando os seus produtos, alguns são oriundos dos bairros periféricos e na capital viram o seu el dourado, uma varinha mágica para a solução dos seus problemas. Estes são os que mais afluem em massa à esquina desta empreendedora à beira da rua, mas também existem trabalhadores de empresas situadas algures na cidade, alunos até vizinhos que logo pela manhã organizam-se em bicha para comprar as badjias. Afinal de contas as bichas não são apenas quando se pretende apanhar um transporte semi-colectivo ou público nas paragens terminais.

Existem clientes que com o andar do tempo foram granjeando simpatia e confiança da senhora, mesmo sem dinheiro podem ter as badjias. Há um caderno próprio para esse tipo de pessoas, “tomo as notas dos vales que os clientes fazem, inclusive a data de pagamento que é para não atrapalhar as contas no fim do dia. Escrevo as dívidas porque são muitos os clientes que fazem vales e não posso fixá-los todos na cabeça”, aponta.

Horas de pico

De segunda a sábado Arminda Banze vê-se na auto-obrigação de produzir as badjias em quantidades consideráveis. As suas noites não chegam a ser tão descansadas como seria de pensar, “durante a noite preparo o feijão e outros ingredientes das badjias, para logo de manhã fritá-las em hasta pública. Os transeuntes não resistem ao cheiro contagiante das badjias, para quem passou uma noite sem ter passado uma refeição, dificilmente deixa a caravana passar, ‘quero duas, uma, três, tantas’ é o que se pode ouvir das pessoas que logo cedo cercam esta senhora com sacolas, pastas e plásticos em punho.

A partir das 6h3o Arminda faz-se ao seu posto de actividades, não pode passar das 7 horas sem que se tenha feito presente, sob o risco de alguns seus clientes não poderem ter acesso às badjias. Segundo nos conta, existem clientes que se passarem pela esquina antes que a senhora tenha chegado, dão- -se ao luxo de ir directamente à sua casa, outros fazem questão de ligar telefonicamente para fazer as encomendas.

Para quem passa pela Romão Fernandes Farinha, próximo ao jardim dos “madgermanes”, dificilmente pode pensar que aqueles senhores engravatados e senhoras vestidas a executivas se fazem àquele local para comprar o que dantes era visto de forma preconceituosa e revestida de estereótipos.

Quantas vezes não ouvimos dizer de fulano ou sicrano que as badjias são ou eram para pessoas desfavorecidas, pobres, enfim com um baixo status social, mas a realidade mostra o contrário, pois pessoas supostamente estáveis na vida, até fazem questão de estacionarem nalgum sítio as suas viaturas para comprar e escolherem pessoalmente as badjias. Parece que a pouco e pouco vai-se reduzindo aquele mito de comida para pobres deste lado e para ricos daquele. A sua receita média diária ronda entre os 600 e 800 meticais. Nos dias de baixas temperaturas (frio), o negócio das badjias tem muita saída, e quando faz muito calor quase que não há negócio. Desta receita uma ínfima parte é relativa aos outros produtos como água, maheu e pãezinhos.

Os sonhos que não se apagam

Arminda Banze viu os seus sonhos hipotecados por não ter estudado quando a idade ainda permitia. A sua infância sofreu um grande revés da guerra-fria, como também foi para tantos outros moçambicanos. Não pôde estudar com as duas principais ceitas políticas do país em constante confrontação e a fazer da população indefesa o seu escudo. Quando veio a Maputo, deixando para trás os seus progenitores, tinha o fito de, por um lado fugir dos homens da guerrilha, e, por outro, reconstruir a sua vida ora destruída pela fúria da guerra que devastou o país durante 16 anos. Em Maputo já não foi a guerra que impediria os estudos, mas sim as definhadas condições que a vida a impunha.

“Eu sempre sonhei em ser uma pediatra, gosto muito de cuidar da saúde das crianças, sinto uma grande paixão e carinho por elas. Basta estudar, vou conseguir alcançar os meus sonhos, custe o que custar, apesar de que a idade vai aumentando cada vez mais, vou remar contra a maré”, comenta.

Estudar não tem idade

Engana-se quem pensar que a idade é algo que impede a pessoa de ir à escola, se não no Sistema Nacional de Educação não teríamos o subsistema da alfabetização e educação de adultos. Arminda foi travada dos seus estudos pela guerra e depois pelas definhadas condições de vida, mas agora já tem uma fonte de rendimento, “desde que comecei a vender decidi matricular-me na alfabetização e educação de adultos. Hoje faço a 9ª classe, curso nocturno na escola Primária Completa do Alto-Maé”, conta para depois acrescentar que fê- -la ingressar na escola o facto de, na sua casa, os seus filhos estarem a estudar. Estes é que a encorajaram muito e porque querer é poder, está quase a finalizar o primeiro ciclo do ensino secundário geral, com pouco menos de 40 anos de idade.

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