Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Atletismo não vai ter vitórias enquanto se investir em prédio em vez de infra-estruturas para os atletas moçambicanos

Atletismo não vai ter vitórias enquanto se investir em prédio em vez de infra-estruturas para os atletas moçambicanos

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro ainda decorrem mas a participação do atletismo moçambicano terminou. “Foi boa” a corrida de Kurt Couto afirma o experiente treinador e antigo praticante da modalidade Stélio Craveirinha em entrevista ao @Verdade onde questiona as opções que têm sido feitas com justificação de melhorar a modalidade, “vá a Swazilândia ver o que o Comité Olímpico (de lá) construiu na pista de Manzini, vá a Zâmbia e vai ver o que construíram com os fundos do Comité Olímpico Internacional, eu não vi lá nenhum prédio” e remata que não precisou de “bolsa olímpica nenhuma para fazer a Lurdes Mutola nem a Tina Paulino”.

O mote da conversa com um dos atletas que representou o nosso País na primeira olimpíada em que participamos foi analisar a prestação de Kurt Couto na prova dos 400 metros barreiras dos Jogos que decorrem no Brasil, onde não passou da primeira eliminatória. “Foi boa, esperava que ele passasse às meias-finais porque ele vive na África do Sul, onde há atletismo de ponta, de rendimento. Não sei o que aconteceu mas ele não fez uma má marca, acho que é uma boa marca”, declara Stélio Craveirinha.

“Ouvi dizer que o Kurt queria abandonar o atletismo, acho que ele deveria continuar. Nos 400 barreiras os atletas são bons a partir dos 30, 32 anos de idade” explica o emblemático treinador que não tem dúvidas que “Nós (Moçambique) não temos atletismo para perder um atleta como o Kurt Couto, o nosso atletismo caiu muito desde que nós perdemos a pista aqui no parque”.

Todavia o antigo recordista nacional do salto em comprimento diz ser “muito estranho que Moçambique seja vizinho da África do Sul, todos Jogos Olímpicos os sul-africanos trazem medalhas, e nós não aproveitamos a proximidade com eles nem no treinamento, nem com os treinadores, nem para fazer clinics, nem para fazer nada, só andamos sempre com o discurso das bolsas olímpicas. Eu não entendo bem o que é isso?”

“Eu tenho um exemplo de um treinador que é o Bento Navesse, que é o treinador do Alberto Mamba (corredor dos 800 metros que esteve a 38 décimos dos mínimos olímpicos). Mandaram o Mamba para o Quénia ele parece que não se deu bem voltou, foi a África do Sul voltou. Porque é que o Comité Olímpico não agarrou o treinador que o pôs a fazer a marca promissora e podiam fazer uma dupla na África do Sul, depois faziam estágio na Europa, em Portugal. Afastaram o treinador, o que não é bom porque existe todo um factor psicológico e de habituação que contam, portanto é um bocado estranho que o Comité Olímpico cometa essas coisas, isso é grave” afirma Craveirinha.

Corre-se no prédio do Comité Olímpico de Moçambique?

Um dos mais experientes treinadores moçambicanos, formado na Alemanha, dá outro exemplo de opções erradas tomadas pelos dirigentes da modalidade. “Eu continuo a dizer que há qualquer coisa que não funciona, há um atleta que até melhorou as marcas, foi para o centro de treinamento no Senegal, o Creve Machava, até tinha feito uma boa marca(…) mas lá para onde o enviaram (sem o seu treinador) o treinador que encontrou não era especialista na prova dele. Porque é que a Federação não agarrou no Creve e no treinador, não o Comité o Olímpico (de Moçambique), para o potenciar”.

“O Comité Olímpico (de Moçambique) parece já um clube, tem prédio façam um clube” sugere Stélio Craveirinha referindo-se ao prédio edificado pelo Comité Olímpico de Moçambique por cerca de 25 milhões de dólares norte-americanos, “Corre-se no prédio? Vá a Swazilândia ver o que o Comité Olímpico (de lá) construiu na pista de Manzini, vá a Zâmbia e vai ver o que construíram com os fundos do Comité Olímpico Internacional, eu não vi lá nenhum prédio. Hoje vamos a Swazilândia e os corredores de lá agora já passam-nos à frente”.

Craveirinha explica que “quem deve gerir o atleta é o clube com o treinador, é a Associação e depois a Federação, o Comité Olímpico não tem atletas. Mas tem que tomar um papel decisivo é a Federação, dizer que este atleta tem um treinador e é com ele que vai (para o estágio). Vejo nos meios de comunicação o presidente da Federação também a falar de bolsas olímpicas em vez dele tomar partido”.

“Entrei na África do Sul com a Tina Paulino, sem bolsa olímpica, e fez os mínimos para os Jogos”

Foto de Adérito Caldeira“Ele (o presidente da Federação Moçambicana de Atletismo) vive aqui ao lado da África do Sul e também está a falar das bolsas olímpicas, não se apanhou a mesma doença dos senhores do Comité Olímpico (de Moçambique)” questiona o nosso entrevistado acrescentando que “Eu não tive bolsa olímpica nenhuma para fazer a Lurdes Mutola nem a Tina Paulino”.

Stélio Craveirinha recorda-se ter começado a treinar a corredora Tina Paulino no Desportivo de Maputo, quase sem apoio do Comité Olímpico, de ter ido aos Jogos Olímpicos de Barcelona após um curto estágio de dias em Portugal, que deveria ter sido de 3 meses. “Já não fizemos os mínimos nos 800 metros e ela teve de participar nos 400 metros, chegou às meias-finais e não era corredora dessa prova. Nesses Jogos a melhor marca entre os africanos foi da Tina Paulino, e foi seleccionada para ir à Copa do Mundo”.

“Não havia bolsas nenhumas, fomos eu e Tina Paulino para a África do Sul, com apoio do Sr. João Santos, onde participamos dos meetings da ENGEN e participamos naquele circuito como se faz na Europa, fomos acabar na cidade do Cabo com 1:59: qualquer coisa nos 800 metros” relembra o treinador moçambicano que também fez o mesmo circuito com a atleta Elisa Cossa, “a Tina Paulino em 1993, no ranking mundial dos 800 metros era a terceira melhor atleta do mundo, primeiro era a Lurdes depois a Masterkova”.

Num outro desenvolvimento Craveirinha clarifica que “o problema das bolsas olímpicas é que são para dar dinheiro ao atleta para meter no bolso, nós temos que começar a preparar o treinamento internamente. Primeiro ter instalações desportivas, pôr os atletas a competir e aproveitar a África do Sul, o Botswana, a Swazilândia e a Namíbia para competir mais. Eu não posso admitir, como já me fizeram a mim, que o treinador faça um trabalho e depois separam-no do atleta. As pessoas do Comité Olímpico (de Moçambique) não sabem o que custa fazer um atleta”.

O @Verdade perguntou ao treinador o que é preciso para preparar atletas para a próxima olimpíada? “Nós temos de começar internamente, temos de pesquisar os talentos em todo o Moçambique, não só em Maputo, e fazer uma selecção e a Federação tem que encontrar soluções para esses atletas treinarem e competir” respondeu Stélio Craveirinha apontando o que já foi feito no passado como um exemplo.

“Agarrei na Tina Paulino e pus a viver na casa do meu irmão porquê, para ter condições de alimentação etc. Eu fiz um centro de rendimento, era bolsa olímpica, não. Porque é que nós não fazemos aqui dentro esse tipo de trabalho? Já temos a experiência. Eu quero perguntar ao presidente do Comité Olímpico e a sua direcção técnica, acho estranho que exista uma lá, se na casa de José Craveirinha era um centro de treinamento” conclui o treinador moçambicano.

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!