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Al-Jazeera a voz incómoda que muitos querem silenciar

Al-Jazeera a voz incómoda que muitos querem silenciar

A cadeia de televisão do Qatar converteu-se numa referência para a informação global. Os regimes autoritários tentam bloquear o seu trabalho, assustados pela potência ‘da revolução em directo’. Os governos ocidentais, que anteriormente criticavam a estação, valorizam agora o seu papel democrático. “Longa vida à Al-Jazeera”, gritavam os manifestantes da Praça da Libertação no centro do Cairo durante os protestos que acabariam por derrubar Hosni Mubarak.

A cadeia televisiva do Qatar converteu-se num símbolo para a população em rebelião contra os regimes autoritários do mundo árabe. A cobertura em directo das manifestações na Tunísia e no Egipto demonstrou bem a potência mediática em que a Al-Jazeera se converteu, assustando os líderes de muitos países.

Não é só a Internet que preocupa os ditadores, pela sua capacidade de aglutinar os jovens como catalisador dos protestos e pela possibilidade de informar e de tornear a censura, a televisão sem fronteiras também o é. O êxito da revolta no Egipto, essa ‘revolução em directo’ é todo um mito na informação e na política internacional.

Os ciberactivistas iranianos lançaram uma página no Facebook para incentivar a Al-Jazeera a continuar com os protestos no Irão. Há uma imagem nesta página Web escrita em inglês e farsi que diz: “Al-Jazeera, por favor, cobre o Irão como cobriste o Egipto.”

Proibida em muitos países

A cadeia do Qatar não possui licença para retransmitir em directo desde o Irão e não está autorizada a cobrir as manifestações como fez na Tunísia e no Egipto. O regime iraniano teve as suas desavenças com a Al-Jazeera em Abril de 2005 acusando-a de fomentar uma revolta e também em Junho de 2009, durante os protestos contra a reeleição de Mahmud Ahmadinejad.

Igualmente os regimes do Bahrein, Líbia e Iémen, acossados nos últimos dias por protestos massivos, impedem a retransmissão em directo da televisão pan-árabe, que se tem socorrido de imagens enviadas por videoamadores e por internautas. Em Janeiro nasceu a Al-Jazeera Transparent Unit, que tem como objectivo mobilizar a sua audiência para que remeta documentos, fotos, áudio e vídeos.

Os regimes acossados pela rua começaram a utilizar a população para atacar a cadeia do Qatar, acusando-a de ingerência. A Al-Jazeera não foi autorizada e entrar na Líbia, e o regime de Kadhafi esforça-se por que não possa ser vista a interferir no sinal do satélite. A televisão estatal líbia Al Jamahirya tem passado por estes dias imagens de centenas de pessoas a manifestarem-se em apoio ao regime e mostrando hostilidade face à Al-Jazeera.

Nos vídeos divulgados pela televisão líbia vêem-se cidadãos empunhando cartazes de Kadhafi e criticando a cadeia televisiva do Qatar. “Digam à Al-Jazeera que não queremos ninguém que não seja o nosso líder”, clamavam nas manifestações de Tripoli e Sirte. Durante os protestos no Egipto, o regime de Mubarak atacou directamente a Al-Jazeera, porém esta nunca deixou, nem por um momento, de informar o que se estava a passar nas ruas do Cairo.

Primeiro o Governo ordenou a suspensão das suas emissões e depois cortou o sinal do satélite através do qual a televisão do Qatar emitia, considerando que as imagens incitavam os egípcios aos protestos antigovernamentais exagerando a dimensão das manifestações. Paralelamente, retiraram as acreditações aos seus jornalistas e a 4 de Fevereiro as suas instalações no Cairo foram incendiadas e o seu sítio de Internet atacado por hackers. A Al-Jazeera também foi vetada na Jordânia, Síria, Kuwait, Arábia Saudita e Argélia.

Desde o seu nascimento, os governos autoritários árabes não receberam de bom grado este canal televisivo porque rapidamente perceberam que a sua implementação abria uma brecha no seu controlo absoluto da informação. Desde há uns anos alguns países da região têm tentado retirar-lhe audiência.

Mubarak inundou os canais nacionais de televisão com desporto, séries, filmes e programas de entrevistas nocturnas. A família real saudita adoptou também uma estratégia similar, importando programas de entretenimento estrangeiros. O objectivo era seduzir os telespectadores com programas atractivos de modo a roubar público à Al-Jazeera.

Os jornalistas da cadeia do Qatar estão habituados a viver sob grande pressão do poder político dos países do Médio Oriente. Bastantes vezes não conseguem obter vistos para os países vizinhos, sofrem pressões económicas, detenções injustificadas, ameaças de morte, e até explosões de bombas nas suas instalações.

Em Outubro de 2010, o Governo de Marrocos suspendeu a acreditação de dois jornalistas porque estavam “ a molestar a linha editorial da televisão” devido às suas críticas ao regime. Em 2008, as autoridades marroquinas haviam proibido a cadeia de emitir um programa de notícias sobre os países do Magrebe.

Em Maio de 2010, o Governo do Bahrein acusou a Al-Jazeera de “não cumprimento das normas profissionais” e de não acatar as leis de imprensa vigentes no país. A 14 de Dezembro as autoridades do Kuwait encerraram as suas instalações no país.

Hipocrisia Ocidental

Mas os países árabes não foram os únicos a atacar a Al-Jazeera. Os Governos ocidentais já mostraram uma moral dupla em relação a este canal televisivo. Enquanto agora clamam pela liberdade de expressão no mundo árabe, criticam a censura dos regimes autoritários e seguem com crescente interesse as imagens difundidas pela cadeia do Qatar, até há pouco a sua visão era completamente diferente.

Anteriormente, a imagem maioritária em certos sectores ocidentais, sobretudo norte-americanos, apresentava o canal como pouco mais do que um porta-voz da Al-Qaëda. Essa imagem foi particularmente criada durante a Administração de George W. Bush, sobretudo quando eclodiram as guerras no Afeganistão e no Iraque. De acordo com o Governo de Bush, a Al-Jazeera estava ao serviço dos interesses do islamismo radical, não era imparcial e alimentava uma feroz propaganda anti-americana.

Os EUA não se limitaram a criticar. Chegaram mesmo a bombardear as suas instalações em Cabul, em Novembro de 2001 e em Bagdad, em Abril de 2003. Em ambas as ocasiões, Washington atribuiu os ataques a falhas das suas forças mas era evidente que a Administração Bush estava muito incomodada com a Al-Jazeera, sobretudo porque a cadeia televisiva divulgava vídeos da Al-Qaëda e cobria os conflitos numa perspectiva árabe.

O diário britânico “The Daily Mirror” publicou documentos secretos que revelavam que o então presidente dos EUA, George Bush, tinha planos secretos para bombardear a sede central da Al-Jazeera em Doha, no Qatar.

Como parte da estratégia do boicote mediático, o Governo norte-americano lançou o Al Hurra, um canal de notícias por satélite em árabe com sede nos EUA, ao qual destina anualmente mais de 100 milhões de dólares.

Uma janela para a rua

Todavia, os EUA não foram o único país ocidental a atacar a Al-Jazeera. Um dos seus repórteres foi condenado em Espanha a sete anos de prisão sob a acusação de ‘ser correio da Al-Qaëda’ após ter entrevistado Ossama Bin Laden na sequência dos atentados do 11 de Setembro de 2001.

O jornalista foi libertado após ter cumprido uma pena de um ano, tendo por razões de saúde sido colocado em prisão domiciliária. Nos seus 15 anos de vida, a Al-Jazeera foi boicotada, proibida, viu algumas das suas instalações bombardeadas, mas conseguiu converter-se no canal de notícias mais visto no Médio Oriente, com uma audiência de cerca de 50 milhões de pessoas.

O seu sítio de Internet sofreu um aumento de 2000% desde o começo da revolução na Tunísia. Através da sua conta de Twitter em inglês, @AJEnglish, continuou a informar sobre tudo o que se passava com um êxito notável. A Al-Jazeera foi criada em 1996 com o apoio económico do emir do Qatar, e as suas imagens chegam a cerca de 100 países, contando com uma audiência de 220 milhões de espectadores.

De acordo com a sua página Web, nela trabalham cerca de 400 jornalistas espalhados por 60 países. Começou por emitir só um árabe mas, em 2006, lançou um canal em inglês, para ampliar a sua audiência e chegar a um público global, que nas últimas semanas tem estado dependente das suas imagens para poder seguir em directo os acontecimentos históricos que se estão a desenrolar nos países árabes.

Se em 1991 se falava do efeito CNN, agora fala-se do efeito Al-Jazeera que revolucionou não só a informação como também a política internacional devido à visibilidade que a cadeia tem vindo a dar aos acontecimentos em regiões mais afastadas da influência ocidental. A Al-Jazeera é uma janela aberta para a rua árabe que muitos têm tentado encerrar, mas continua a batalhar, mostrando as notícias de um ponto de vista que a muitos incomoda, tanto a oriente como a ocidente.

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