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Ajudá-las a crescer

Fazer algumas mudanças básicas nas políticas educacionais pode conseguir que muito mais meninas frequentem a escola, segundo especialistas reunidos por ocasião do Dia Mundial dos Docentes, que na sua edição deste ano (comemora-se a 5 de Outubro) procurou promover a igualdade de género.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Quénia é um exemplo de país que obteve enormes avanços rumo ao objectivo da educação universal ao incorporar a consciência de género na administração escolar. “Oferecemos almoço gratuito, mas também garantimos que nas escolas haja toalhas higiénicas disponíveis, e isso reduziu bastante as faltas”, afirmou o ministro queniano da Educação, Sam Ongeri.

“Alimentar os estudantes é uma coisa, mas quando se faz com que as meninas se sintam cómodas e potencializadas na escola, isso faz uma grande diferença”, afirmou Ongeri numa entrevista realizada no contexto do fórum de alto nível, realizado nos dias 3 e 4 de Outubro no Instituto Internacional de Planeamento da Educação, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Na última década, o Quénia e muitos outros países progrediram na redução das brechas de género em matéria educacional, segundo a UNESCO. Contudo, em algumas regiões, as meninas ainda estão atrasadas quanto às oportunidades educativas, disse esta agência num informe, acrescentando que “nascer menina traz uma significativa desvantagem educativa em muitos países”.

Segundo a UNESCO, muitos governos avançam lentamente na eliminação de brechas de género, e 69 não conseguem a paridade de género nas matrículas do ensino fundamental. Isto traduz-se em que 3,6 milhões de meninas não cursam essas séries, acrescentou.

Em termos gerais, há cerca de 67 milhões de crianças que não vão à escola. Destas, mais de 50% são meninas. Além da pobreza e dos conflitos, frequentemente as normas sociais e culturais são culpadas pela marginalização das crianças em algumas áreas. Porém, este último é um tema delicado nas organizações governamentais internacionais.

A ONU trabalha para criar lugares “não tradicionais” de aprendizado para o público feminino, “especialmente para meninas analfabetas ou que desertaram da escola” em países como Afeganistão e Paquistão, disse a directora-geral da UNESCO, Irina Bokova. “Às vezes, também usamos escolas móveis para populações nómadas, com estas medidas podemos chegar a centenas de milhares de mulheres”, acrescentou.

Segundo Bokova, é importante que a UNESCO “incentive os governos” a tornarem uma prioridade a educação das meninas nas suas políticas nacionais, mas, ao mesmo tempo, a serem “criativos”, especialmente ajudando os que abandonam os seus estudos. “Dar educação aos que abandonam a escola é o maior desafi o”, acrescentou.

Actualmente, dois terços dos 796 milhões de adultos analfabetos são mulheres, segundo dados da ONU. Os que participaram na conferência também disseram que a educação deve ser uma fonte de afirmação do poder de género, transformando a mentalidade de meninas e meninos à medida que se consegue a igualdade.

“Para mudar a sociedade, os indivíduos não só devem aprender disciplinas académicas básicas como também devem desenvolver um senso de valor em relação a si mesmos, sentir que pertencem a uma determinada sociedade e aprender a defender-se de ameaças e desafios”, disse Nelly Stromquist, professora de políticas educacionais internacionais na Universidade norte-americana de Maryland.

Stromquist e outros especialistas afirmaram que os governos precisam de garantir que as meninas se sintam seguras na escola, além de lhes dar acesso a água limpa e instalações sanitárias. Este último ponto é “muito importante para as adolescentes”, destacou.

Alice Kagoda, professora da Universidade Makerere, de Uganda, afi rmou que é comum as meninas serem assediadas no caminho da escola e também dentro desses centros de estudos, e que é importante ensinar-lhes como enfrentar estas situações.

“As meninas de comunidades mais pobres em África enfrentam desafios já ao saírem de casa, ou quando vão buscar água ou lenha”, explicou. “Nas sociedades rurais também vão à escola a pé, e as próprias meninas dizem que em todos esses processos sofrem assédio”, acrescentou.

Na escola, às vezes correm o risco de serem assediadas pelos professores, disse Kagoda. E, nas suas casas, frequentemente não têm tempo para fazer os deveres da escola porque estão ocupadas com as tarefas domésticas. “São muitos problemas que não propiciam que as meninas pobres estudem”, explicou.

Para ela, os homens que administram as escolas não puderam ver ou compreender plenamente estes problemas específicos do género, por isso é imperativo que os governos assegurem que haja docentes sufi cientes de sexo feminino, e também em cargos de direcção.

Os especialistas reunidos na conferência disseram que a presença mundial de mulheres como professoras “diminui na medida em que aumenta o grau” hierárquico. Na Libéria – um caso “extremo”, segundo um orador –, 93% dos directores são homens. “Temos de ser realistas. Muitos países estão dispostos a mudar mas não sabem bem como fazer ou como abordar o tema”, disse Khalil Mahshi, director do Instituto Internacional de Planeamento da Educação.

“Esta é uma oportunidade de partilhar pesquisas e unirmos as nossas experiências para podermos ajudar os governos a melhorar a inclusão das mulheres em postos de liderança. Temos de continuar a defender incentivando a mudança”, ressaltou Mahshi.

Entre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, está a ambiciosa meta de conseguir igualdade de género na educação até 2015, e os funcionários dizem que isto inclui a situação dos homens, que apresentam maior deserção em regiões como América Latina e Caribe.

“Quando restam apenas quatro anos para a data determinada nos Objectivos, precisamos novamente de nos comprometermos a acelerar os nossos esforços para reduzir a brecha de género, a garantir que todas as crianças completem a escola primária, e que meninas e meninos tenham acesso igualitário a uma educação gratuita e de qualidade”, disse Cheryl Gregory Faye, titular da Iniciativa das Nações Unidas para a Educação das Meninas.

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