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“Adieu Papa Jo”

“Adieu Papa Jo”

 O texto que se segue é uma modesta homenagem a Joseph Ndiaye, curador da “Casa dos Escravos Cativos” da Ilha de Gorée, ao largo de Dacar. Durante 300 anos a ilha foi o maior empório de tráfico de escravos da costa africana e Joseph dedicou os seus últimos 44 anos de vida a chamar a atenção para a ignomínia deste comércio. Nunca ninguém fez verter tantas lágrimas com as suas explicações.

Quando soube, confesso que foi até uns dias depois, nem quis acreditar! Ouvi na rádio que no passado dia 6 entraste pela Porta sem Regresso, não aquela que mostraste ao Papa João Paulo II, a Nelson Mandela, a Bill Clinton, a

Houphouet Boigny, a Madonna ou ao Michael Jackson (parece que o Michael Jackson chorou quando lhe contaste a história que foi a história da tua vida e a de milhões de africanos) e a mim por alturas da Páscoa de 1999. Ao fim de 87 anos, saíste pela porta que todos nós havemos de sair um dia, essa porta que prova que todos somos mortais.

Foste um dos mais fiéis guardiões da memória do teu povo, o povo negro. Tu, “vieux sage”, como te chamavam, terminaste no dia 6 a missão de avivar a memória de todos os que visitavam Gorée, chamando a atenção para a ignomínia daquele comércio, o mais vergonhoso que os homens fizeram uns com os outros, dando toda a razão ao ditado que diz: “o homem é o lobo do homem”. Paradoxalmente, a tua ilha deve o seu grande esplendor àqueles anos, e não foram poucos, em que se permutou marfim, tecidos garridos, ouro e outras coisas, imagine-se, por pessoas! por gente! Desintegrando, desenraizando, desbaratando, matando, milhões de pessoas, milhões de famílias, milhões de seres humanos. Uns padeciam antes de embarcar e então eram jogados ao mar aí mesmo à tua frente. Outros embarcavam e eram lançados mais adiante, no mar alto entre dois continentes. Haviam ainda outros que aportavam ao destino, que não era o destino deles, mas sim o dos seus donos, sendo atirados para o desconhecido ainda com mais violência, num jogo de barbárie sem precedentes à face da terra. E isto durou, de uma forma sistemática e sem intervalos, mais de 300 anos! Durante 44 anos, metade da tua vida, combateste estes 300 anos com uma força e uma tenacidade impressionantes. Com o teu desaparecimento o Senegal, a África e a Humanidade perderam um monumento à dignidade humana. Fizeste da tua vida um sacerdócio, tinhas uma missão neste mundo e, ao cumpri-la diariamente, fizeste chorar milhares de pessoas com as tuas descrições de sofrimento humano, ou, neste caso, inumano. Ninguém ficava indiferente à tua exposição apaixonada, emocionada, tão real que sentíamos aquele cheiro putrefacto dos cadáveres, do sangue a escorrer, ouvíamos os gritos lancinantes dos supliciados marcados pelo compasso do chamboco, o som metálico das grilhetas ou o barulho dos corpos atirados ao mar porque já não valiam a malga de comida que diariamente consumiam. Conseguiste, pelo teu carisma, que muitos afro-americanos (agora estão muito na moda, tu com certeza que te regozijaste com a vitória de Obama) viessem em peregrinação em busca das raízes e chorassem baba e ranho com as tuas histórias. Sabes, para muitos deles a tua casa funciona como Meca para os muçulmanos ou Santiago de Compostela para os católicos.

Naquele final de tarde de Abril de 1999 explicaste, só para mim, toda a história que explicaste durante os últimos 44 anos. Reparei que o teu entusiasmo era o mesmo. Tanto fazia estar ali uma plateia de 50 ou um só! E isso é muito bonito, sentimo-nos honrados. Exemplificaste, com uma destreza que só a experiência permite, como se colocavam as grilhetas nos pés (quantas vezes terás agrilhoado as mãos e os pés desde 1964?), fizeste comigo todo o circuito pormenorizado, desde a entrada do escravo na casa até à sua saída. Explicaste-me igualmente as várias versões para a existência da ‘Porta sem Regresso’. E eu, durante o tempo que demorou aquele tratado de escravatura, fiquei extasiado a ouvir-te sem abrir a boca, a absorver aquela torrente de informação como uma esponja que é passada num balcão depois de um copo entornado. Se nas próximas horas fosse submetido a um exame teria, seguramente, passado com distinção. E o mérito dessa aprovação ficar-se-ia a dever exclusivamente a ti.

No fim da visita, fazendo jus à hospitalidade muçulmana, convidaste-me para um chá e prosseguiste com a aula, agora sobre o dia-a-dia de uma sociedade escravocrata. As relações entre as sinharas – corruptela de senhora em português – e os oficiais franceses, a diferença de tratamento que havia entre os escravos de dentro e de fora, a brutalidade e insensibilidade tanto dos chefes locais como dos negreiros, etc, etc.

Na conversa soube também que, durante a Segunda Guerra Mundial, te havias alistado no exército francês para combater o Eixo. E, a avaliar pelas medalhas que recebeste, puseste todo o teu querer e vigor. Contaste-me também a outra batalha que travaste para que restaurassem a menina dos teus olhos: a Casa dos Escravos Cativos. E da alegria que sentiste quando a tua amada ‘Ile de Gorée’ (desculpa mas em português dizemos Goreia), aquele santuário de dor negra, foi declarada Património da Humanidade.

Nos últimos anos, sempre foi assim, embora avesso, foste alvo de muitas homenagens, honrarias e reconhecimentos. Correste a Europa a falar da escravatura e diante de ti os especialistas, os grandes académicos, pasmaram com a tua sapiência. Foste o Jesus entre os doutores. Entraste também em filmes e escreveste uma suave história da escravatura para ser contada às crianças. Ouvi dizer que o teu presidente, Abdulaye Wade, quer integrá-la nos currículos do ensino básico. Por mim devia fazer parte do currículo de todas as escolas primárias deste mundo. Afinal é um tema universal! Descansa em paz Velho Sábio.

 

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