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Aborto, fundamentalismo: Bento XVI vive uma crise de confiança na Igreja

Aborto

Entre a questão dos bispos fundamentalistas e a situação polêmica de uma excomunhão lançada contra a mãe que levou a filha violada para abortar – e que foi desautorizada em seguida pelo Conselho Nacional de Bispos do Brasil – o fosso se aprofunda entre o Vaticano e uma parte da Igreja Católica.

“O Papa não está sozinho, todos seus colaboradores mais próximos lhe são fiéis e profundamente unidos a ele”, afirmou nesta sexta-feira o número 2 do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone.

Uma declaração incomum, vista mais como uma resposta à manchete “A solidão do Papa” publicada na primeira página de dois dos maiores jornais italianos, La Stampa e La Repubblica.

Na quinta-feira, Bento XVI, desestabilizado pela crise provocada na Igreja Católica com o levantamento da excomunhão de quatro bispos fundamentalistas, justificou-se numa carta em tom amargo, uma atitude inusitada que revelou um Papa isolado e ferido pelas polêmicas.

O pontífice também se lamentou da “veemência” das reações a esta decisão, dizendo-se aflito pela incompreensão, e até “a hostilidade” de numerosos católicos, pedindo unidade dentro da Igreja.

O levantamento da excomunhão de quatro prelados fundamentalistas, entre eles o negacionista Richard Williamson, havia provocado tensões entre o Vaticano e a comunidade judaica, mas também tormentas importantes na Igreja.

Divergências sobre as quais Tarcisio Bertone debruçou-se nesta sexta-feira, falando de “algumas vozes discordantes” entre os bispos e denunciando sua “falta de confiança em relação ao Papa e a suas decisões”.

L’Osservatore Romano, jornal do Vaticano, admitiu que a “tempestade” desencadeada pelo levantamento das excomunhões era de uma amplitude “sem precedente”. Esta crise se superpõe ao mal-estar provocado entre os fiéis pelo anúncio de uma excomunhão feito no início de março pelo bispo de Recife a uma mãe brasileira que autorizou o aborto em sua filha de 9 anos, grávida do padrasto que a violava.

No Vaticano, o cardeal Giovanni Battista Re, prefeito da Congregação para os Bispos, justificou as palavras do bispo, afirmando que os gêmeos gerados pela menina “eram pessoas inocentes que tinham o direito de viver”.

Mas, nesta quinta-feira, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil desautorizou o arcebispo de Recife, estimando que a mãe havia agido “sob a pressão dos médicos” que lhe disseram que sua filha ia morrer se a gravidez não fosse interrompida.

Vários bispos franceses haviam expressado publicamente sua incompreensão após esta excomunhão, estimando que o princípio do “respeito à vida” ao qual a Igreja é ligada não justificava “a severidade” de uma decisão “abrupta” e privada de “compaixão”.

Blogs católicos fazem eco do mal-estar geral entre os fiéis. Um clima propício à campanha que toma corpo na Europa e que defende o ato de “desbastizar”, isto é, privar-se da graça do batismo.

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