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A voz das (minhas) entranhas!

Enquanto o sofrimento se regenera dia após dia e a guerra ganha mais defensores, neste berço da humanidade uns “gritam o sim e o não/às vezes o `yes and no´/sem hora nem espaço/sem critério nem consideração/do que às vezes faço”.

Seria na verdade um tanto subjectivo descortinar algum sentido nos esplendorosos poemas de Deusa d´Africa, publicados recentemente na capital moçambicana, num livro intitulado “A Voz das Minhas Entranhas”.

As primeiras páginas, incluindo o prefácio escrito pela contadora de histórias Paulina Chiziane, são de molde a provocar entusiasmo, reflexão e, posteriormente, muita dor. Trata-se de narrativas imaginárias, de um passado nostálgico, com marcas da colonização, de sentimentos amargos, precocemente envelhecidos, que vivem entre um quotidiano de aborrecimentos e umas vagas memórias de episódios felizes.

Deusa d´Africa observa o mundo com os seus olhos juvenis e delineia os limites da vida, como é o caso da morte. Cada uma das suas palavras toca o coração e ilumina o espírito de quem a lê. Evocam todos eles a paz, a igualdade, a harmonia e o equilíbrio do mundo.

De “Masmorra”, na primeira parte, a “Fórmula da Morte”, na segunda, Dércia Sara, o seu nome de registo, deixou, em 40 aprofundados poemas, um misto de sentimentos que atordoam o ser humano: “saber morrer em paz e sorrir/mesmo quando o sepulcro é pouco agradável”.

Ou, talvez, “encontrar um sorriso no meio das lágrimas ” (Fórmula da Felicidade, pag. 62). Que a voz das entranhas é seguida desde a maternidade até a morte torna-se visível nas primeiras páginas destes escritos. Aliás, a obra demonstra que essa ideia é objectivamente correcta nas passa- gens11,12,13,14 e 15: “(…) o surgimento da lua é o surgimento da vida. Por isso, quando a criança nasce, as mulheres, as avós soltam culunguanas de boas-vindas gritando.

Na grande cerimónia apresentam o recém-nascido com vozes que se assemelham ao cantar de um galo no despertar da lua nova (…)”. Às vezes, senão sempre, nas comemorações de um nova vida diz-se: “esta é a primeira lua da tua vida. Que tenhas muita bênção e longa vida; que tenhas boa saúde, sorte fortuna, e não sejas atacado pelas doenças da lua (…)”.

“A Voz das Minhas Entranhas” é uma obra, essencialmente, de poesia lírica, erótica, sobre a relação Homem, vida e sentimento. De acordo com Paulina Chiziane, tal como a lua que simboliza o renascimento, este livro conhecerá o crescimento, o brilho, o declínio, para voltar a nascer mais belo, mais forte, e assim participar na eternidade literária da nossa terra.

E ainda argumenta: “uma literatura equilibrada desenha-se com a pluralidade de vozes dos seus escritores. A voz das mulheres não morreu, mesmo esmagada pelo peso das tradições, que encerram os seus doces acordes na solidão das cozinhas. Nem sucumbiu perante a tirania do patriarcado e das suas religiões fanáticas”.

Em suma: nos escritos de Deusa d´Africa a verdade é intemporal. Alguns poemas são uma verdadeira resposta à desordem humana e à angústia do quotidiano. Por exemplo, no poema A Escravatura a escritora fala-nos da liberdade, recordando-nos a sujeição que é a parte mais dolorosa da história de África. Dércia Sara, ou simplesmente Deusa d´Africa, nasceu aos 05 de Julho de 1988, na cidade de Xai-Xai .

Declama desde 1994 e apresenta-se em saraus desde a década de 90. É membro do Núcleo Literário Xitende e tem diversas obras publicadas na Imprensa nacional e internacional. Traduziu o conto “O Gato Peludo e o Rato de Sobretudo”, do escritor brasileiro Wilson Bueno, de Português para Xichangana. É co-apresentadora do programa Literário Xiziku Gazence do Titende, na Rádio Xai-Xai.

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